OPINIÃO
07/05/2014 14:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

'The horror... the horror': o Estado paralelo da barbárie vem chegando pelas redes sociais

No Livro Raça e História Claude Levi Strauss expõe uma anedota clássica da antropologia, na qual, alguns anos apos a "descoberta" da América, os espanhóis enviaram às grandes Antilhas comissões para investigar se os índios possuíam ou não alma. Os índios, por sua vez, se atinham a outra curiosidade determinante: afogavam prisioneiros brancos para verificar se seus corpos mortos eram sujeitos à putrefação.

Se para o homem branco o que nos faz humanos está em algo abstrato como a "alma", essa que nos comunica com Deus, que também é simbólico, invisível e essência elevada de poder, para os índios, o que há de mais humano está no corpo, assim como na terra, na água e nas plantas, às quais ele confere a natureza da divindade e elevação e é por meio da 'corporalidade' que se ascende ao poder superior, ao divino.

Do corpo que "se vigia e se pune" de Foucault, ao corpo que se decapita no Maranhão, passando pelo corpo da mãe e dona de casa que se lincha no Guarujá em função de um boato espalhado pelas redes sociais, temos aí um elemento da barbárie que representa relações de poder: a desumanização do Outro pelo poder sem limites sobre sua corporalidade, o poder de destruir, desestruturando a natureza do corpo, este elemento inicial da relação com o mundo, o "meio" essencial, portanto, sua maior estrutura simbólica vivida e compartilhada em sociedade.

Pensemos no corpo de Cristo na comunhão católica, o corpo dos santos que não se decompõe e lhes confere 'santidade', o corpo da mãe de onde sai o filho, o corpo do sexo onde se materializa o amor, o corpo encarcerado, separado da sociedade, punição máxima no Brasil ao criminoso, o corpo torturado no regime militar como forma de quebrar o espírito e submeter o preso político - o corpo é a máxima do humano - e mesmo do sobre-humano/divino - e o poder sobre o corpo alheio é o poder absoluto. Nos casos como o da dona de casa linchada no Guarujá, na barbárie tomada como lei, temos o corpo como propriedade da sociedade, que aqui na forma de um grupo transtornado, toma esse corpo numa demonstração hedionda de poder e com isso rompe o pacto social - o grupo está acima do Estado, que baliza as relações de poder entre cidadãos em benefício destes - ele apropria-se do poder de vida e morte pela expropriação daquilo que Maquiavel considera em O Príncipe o ponto o qual o "condottiere", a figura máxima que representava o poder do Estado e a anuência do povo, não tinha domínio - o corpo, a preservação integridade física do cidadão.

Um povo que não crê mais no poder do Estado como balizador das relações em benefício dos cidadãos toma para si este poder de estruturar e conduzir as regras, um povo que não enxerga soberania e confere delegação na condução de uma nação a este Estado passa por cima dele e institui "suas" regras, da sua forma, sem pensar nas conseqüências a serem sofridas vindas do poder deste Estado, pois este perdeu seu máximo poder - a crença da nação em sua legitimidade para conduzir, podemos mesmo pensar na 'virtú', de que nos falava Maquiavel, aquela qualidade que desperta sentimentos como respeito, temor e amor, isso não pertence mais ao Estado brasileiro... infelizmente.

E o poder maior, acima de prender, punir com o afastamento da sociedade e maior até do que a morte (que em muitos países é um instrumento de poder do Estado), é a DESUMANIZAÇAO DO CORPO. Como no filme Tropa de Elite, o policial infringirá o fim derradeiro, a punição extrema, a morte ao traficante, mas este lhe pede que não atire no rosto. Mas o objetivo é o "tiro de 12 no rosto", pois a desfiguração do corpo é o símbolo máximo do poder primitivo, a mãe do traficante não poderá velar seu filho o vendo pela última vez, não haverá a despedida da mulher e dos filhos beijando a testa do morto, o traficante foi excluído da comunhão humana, pois seu instrumento, seu 'meio', lhe foi destituído de integridade. O corpo desmembrado, decapitado, desfigurado, tira do indivíduo sua representação simbólica maior, sua identidade, sua HUMANIDADE.

O universo do tráfico, com seu território físico e simbólico, sua "soberania" e, sobretudo sua leis, emprega há muito tempo as práticas de assassinatos hediondos, com torturas, mutilações, incinerações, decapitações e desmembramentos como forma de punir e expor a amplitude e profundidade de seu poder. Fernandinho Beira Mar mandava cortar dedos e membros antes de matar, Tim Lopes foi queimado vivo no "microondas" e muitos são os relatos de decapitações, mutilacões e exposições de partes dos corpos em diferentes lugares das favelas, para que o poder absoluto dos traficantes seja visto, temido e respeitado.

Os traficantes criaram um Estado paralelo simbolizado pelo terror. Na década de 1990 a mutilação do X-9 (delator), era tão comum a ponto de ter virado samba na voz de Claudinho Inspiração:

"Caguete é caguete mesmo,

vejam só como ele é,

é que cortaram as duas mãos do safado,

ele agora cagueta com o dedão do pé..."

Que Estado estamos criando, paralelamente, quando cidadãos "de bem", pais de família, donas de casa, estudantes e ditos membros ilibados da sociedade civil lançam mão do terror e da desumanização dos corpos em função de boatos da internet? Que novas estruturas de poder, primitivas e literalmente "desgovernadas" estão tomando o lugar do Estado, pois este não mais nos representa, não mais baliza nossas relações e não acreditamos mais nele a ponto de não lhe delegarmos mais a função de nos conduzir?

Eu sempre comecei minhas aulas de antropologia dizendo que uma das coisas que nos diferencia dos animais é o assassinato hediondo. Mas no fundo, sempre esperei que esse estado do ser fosse um instrumento meramente conceitual das minhas aulas. Se a sociedade civil constitui esse "lacre" que nos afasta dessa natureza, a descrença do brasileiro no Estado que a representa vem gradualmente rompendo o lacre e nos lançando à desumanização e à barbarie.

Como já dizia o Coronel Kurtz, "The horror... the horror."