Opinião

"Se alguém não é mulher de verdade sem um homem, também não será com um"

A mãe machista cria filho e filha introjetando os padrões sexistas nos pimpolhos desde o berço, a partir de comportamentos reacionários, ora tênues, ora pungentes, que determinam valores, visão de mundo e comportamentos que os acompanharão pela vida toda.

O Dia dos Namorados está chegando e já tem gente ficando deprê por estar sozinha. Não devia. Mesmo. Pois embora muitas estejam sendo tocadas por um momento que evidencia a falta de um amor, grande parte está mal pela vergonha de estar sozinha - e isso sim é deprê!

Tenho investigado na área científica há mais de 20 anos, e há 10 no mercado, o universo dos gêneros, em especial o feminino. Comecei trabalhando na relação das mulheres com os ídolos no rock n'roll (meu mestrado), depois mulheres em relação ao consumo, mulheres em relação à moda e beleza, mulheres e a condição feminina no Brasil (tese de doutorado e pós doutorado) e desenvolvemos na BR Insights um dossiê sobre quem é a Mulher do Século 21, com rodadas anuais de atualização desde 2011.

A maior constatação foi a de que o grande problema da mulher brasileira é o que categorizo como machismo feminino, este, o grande perpetuador do machismo no Brasil. A mãe machista cria filho e filha introjetando os padrões sexistas nos pimpolhos desde o berço, a partir de comportamentos reacionários, ora tênues, ora pungentes, que determinam valores, visão de mundo e comportamentos que os acompanharão pela vida toda - e principalmente em relação aos parceiros. E não pensem que isso é privilégio das(os) heterossexuais, há muito gay misógino e lésbica que acredita que lugar de mulher é na cozinha!

A história é longa e antiga: há cerca de dez mil anos, a partir do desenvolvimento da agricultura, quando os nômades se tornaram sedentários, as mulheres foram 'sequestradas' da vida produtiva pelos homens para sua fertilidade servir como moeda de troca entre tribos, na endogamia (casamento fora do grupo), a partir daí, ela passou a ser encarceirada na casa - de onde você acha que vem o termo 'dona de casa'? - e foi excluída do desenvolvimento técnico, intelectual e produtivo dos grupos. Imagine que a partir daí ela se tornou 'refém' de precisar de um homem para sobreviver, pois não poderia trabalhar, gerar seu sustento, ser livre e fazer escolhas que não convergissem com os interesses do seu homem. Simone de Beauvoir levantava a bandeira de que o machismo teve início na incapacidade dos homens de engravidar - na prática, sim, começou por aí, o dom de gerar filhos que é inerente à mulher se tornou a razão do seu aprisionamento e exclusão dos direitos na sociedade, pois a 'objetificou' usando sua fertilidade como escambo entre tribos e a cerceou nos domínios da casa.

História do feminismo à parte, dá pra entender porque realmente uma mulher sem um homem não poderia sobreviver em sociedade, né? Sem contar que há 5 mil anos, as TRÊS grandes religiões - o cristianismo, o judaísmo e o islamismo - pegaram essa dinâmica de subjugação da mulher e 'imprintaram' no córtex cerebral dos humanos pela categorização da mulher na Bíblia, Alcorão e Torá - desde serpente pérfida do mal, animal faceiro e perigoso, passando por demônio, como Lilith e semente do mal em muitos textos, como no Novo Testamento: Colossenses 3:18 - "Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como convém a quem está no Senhor."

Quer dizer, ficou complicado ser mulher de 10 mil anos pra cá, amigos... E é por isso que o machismo feminino, esse 'imprint' no cérebro das mulheres, em especial das brasileiras, educadas num pais católico de terceiro mundo colonizado para expropriação pelos portugueses, é tão forte e aparece do nada, até na fala daquela sua amiga que você acha super bem resolvida, que se diz independente, que trabalha e paga suas contas, até que ela vira e te diz: "Que bom que você está namorando, uma mulher não é nada - ninguém - sem um homem".

Aí você pensa, poxa, tanto barulho por nada, tanta gente queimando sutiã e o 'imprint' ta aí, como esse diabinho no ombro subjugando a mulher, sem que homem nenhum precise fazer isso - pois as maiores machistas são as mulheres, por causa desse comportamento esquizóide, ora levantando bandeira de direitos iguais, ora sendo reacionárias com a própria categoria, quando chega uma gostosona de mini saia numa festa e todas a categorizam como objeto.

Amigas e amigos, se uma mulher não é nada sem um homem, ela também será NADA COM ELE. Todos os seres humanos precisam de amor, todos querem afeto, um companheiro, mas o que você é, o que pode e o que te faz pessoa, indivíduo, GENTE, é só você quem pode te dar. Se você espera que um homem a fará tudo isso, além de cair no canto da sereia de 10 mil anos atrás, será e fará muito pouco de e por si mesma, até mesmo para ter o que dividir com um parceiro.

Me surpreende como as mulheres, mais que os homens, se auto-dividem entre as solteiras e as comprometidas, onde as primeiras são vistas socialmente como 'menos', como se o homem fosse um aval social que lhe delega valor e as segundas, muitas vezes vivendo relações horríveis, se mantém nelas para manter o capital essencial para a mulher brasileira - O Homem - por medo de, sem esse capital, sofrerem uma exclusão social, paranóia arcaica mas super presente no contemporâneo das brasileiras.

É claro que todo mundo quer amor! É claro que todo mundo quer um companheiro(a)! Mas o ponto aqui é que um homem solteiro é visto como 'tá pegando a mulherada' ou 'não achou a mulher certa, ta escolhendo'. A mulher solteira tem uma conotação social diferente no Brasil, ela é vista quase como alguém com um aleijão, pois o homem é o capital que legitima a mulher aqui.

Sou consultora comportamental latino-américa da Brain Reserve de Faith Popcorn e, nos relatórios das pesquisas comportamentais dela sobre quem é a mulher norte-americana, que recebo sazonalmente para comparar com os meus, as conclusões são de que estas estão cada vez mais adiando o casamento, ou ficam um bom tempo sozinhas para investir em dimensões pessoais - carreira, viagens, curtir amigos, se resolver - e os homens estão loucos para casar, pois não conseguem ter filhos sem ter uma mulher. Lá a dinâmica está bem diferente e a mulher se auto-valoriza e é valorizada socialmente, estando sozinha, cada vez mais, a auto estima da condição feminina está no topo. No Brasil percebo em minhas pesquisas que mulheres têm avançado em diversas áreas como carreira, educação, ativismo, entre outras, mas são reféns emocionais do machismo feminino.

Em minhas pesquisas e 'auto-etnografias' percebi que tanto a vida de solteira quanto a vida de comprometida têm coisas boas e ruins, têm formas de diversão e compartilhamentos edificantes e estar solteira não é sinônimo de estar infeliz, pois se você tem conteúdos internos plenos, você vai se realizar em muitas coisas e compartilhá-los com muitas pessoas, mesmo sem estar um parceiro e isso também vai atrair pessoas, potenciais parceiros que têm a ver com você. Ter uma relação (quando boa), é maravilhoso também, é uma seara de desenvolvimento pessoal incrivelmente rica, é afeto e cumplicidade, é realização e comprometimento, mas é SUA e DELE e o valor dela deve servir a você e ao seu parceiro e não como carteirinha de clube que te legitima socialmente.

Se você, minha amiga, convive com pessoas que te desqualificam ou acham que tem algo de errado em você por estar solteira, entenda que a única coisa errada é o resquício de reacionarismo da evolução cultural de gênero que ainda polui a cabeça de muita gente, falando em português claro, o errado é quem, em pleno século XXI, pensa, sente e age como há dez mil anos atrás, gente que, na era dos Jetsons, ainda vive como os Flintstones, e vou te dizer - sofrem por isso, pois sabem que não têm autonomia existencial, se sentem MENOS e por isso precisam apontar o dedo para a outra, a velha história de precisar que o outro se sinta menos para que se sinta mais - complexo de inferioridade na prática. O tempo mudou, mas a mente de muita gente não. Mas entenda que isso realmente NAO é problema seu.

Solteira, comprometida, divorciada, ou viúva, o SEU VALOR não deve ser balizado por uma relação, mas pelo que você é, pois estar com um homem e não ter a consciência e desenvolvimento deste valor, fará com que tanto você, quanto ele, quanto a sua relação, sejam um mero objeto de projeção social.

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