OPINIÃO
09/09/2018 11:30 -03 | Atualizado 09/09/2018 11:44 -03

O que ainda resta do Museu Nacional e a riqueza simbólica daquilo que somos

O incêndio que se iniciou em 3 de setembro queimou 200 anos de história e da ciência brasileira no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

"Povo sem cidadania e história", diz cartaz de manifestante em protesto pelo Museu Nacional.
AFP/Getty Images
"Povo sem cidadania e história", diz cartaz de manifestante em protesto pelo Museu Nacional.
Uma qualidade fundamental do artefato (objeto histórico): ele não mente. A integridade física do artefato corresponde sua verdade objetiva.MENESES, 1998:91.

Memes e imagens de luto pelo incêndio do Museu Nacional ululam nas redes sociais. Comunicam raiva, indignação, dor, sentimento de perda, desamparo. Este sentimento de desamparo e indignação geral que vivemos no Brasil na semana passada - on e offline - não tem a ver, necessariamente, com a estrutura física do museu e as peças materiais perdidas. Tem a ver com "meu deus, a que ponto chegamos!". Algo como "vocês, aí a quem pagamos e confiamos nossa casa, o lugar onde guardamos a referência de quem somos, deixaram a casa pegar fogo".

Esse amargo na boca tem menos a ver com a riqueza objetiva do que se perdeu (embora ela seja inquestionável) e tudo a ver com a riqueza simbólica daquilo que referencia o que somos, e como isso não vale nada no Brasil.

Quando a casa de uma família pega fogo, não é apenas a perda dos eletrodomésticos, dos móveis e das coisas que as pessoas se esforçaram pra comprar que marcam a perda. A duras penas, com trabalho e ajuda de outras pessoas, essas coisas podem ser repostas.

Se chora a perda das únicas fotos que restavam dos avós que já morreram, aqueles brincos até meio cafonas que eram da nossa tia querida que se foi, mas que nos ligavam fisicamente a ela. Aquela bola de futebol em cacos que nosso pai guardava como lembrança do pai dele como um pequeno tesouro. Aq louça chique do casamento dos avós que, embora falte alguns pratos quebrados ao longo da história da família, todos se esforcem para que chegue às gerações futuras, como uma marcação física de tudo o que se é, a partir do que eram os outros que nos antecederam.

As marcas materiais de nosso passado constituem os elementos que tornam a realidade de eras passadas tangível.

Como estudiosa da cultura material (antropologia do consumo), entendo a raiva e tristeza geral como um conluio, uma união de brasileiros em luto pelo incêndio da nossa casa.

As marcas materiais de nosso passado constituem os elementos que tornam a realidade de eras passadas tangível, que nos permitem uma conexão com algo que nos parece muito abstrato e muito longínquo - a história, o passado, os feitos e pessoas que nos antecederam e que formaram a base do que vivemos hoje.

A antropóloga Mary Douglas dizia que o ser humano não é capaz de viver e se relacionar apenas no abstrato, necessitando de marcações materiais e rituais visíveis para tornar a realidade tangível e assimilável. O que somos como brasileiros, de onde viemos e nossa identidade nacional se torna tangível pelos fragmentos materiais da nossa história que "documentam" que os fatos ocorreram, que a vida, as relações e o imaginário coletivo se constituíam daquela forma.

Não importa se muitos nunca foram ao museu. O que se perdeu é a herança cuja riqueza faria com que as próximas gerações compreendessem quem somos.

O patrimônio histórico material permite que nos vinculemos ao que nos antecedeu e o que nos constitui, torna assimilável pelos sentidos a história que conhecemos de forma abstrata e permite que nosso imaginário reconstitua o que não tivemos contato, criando uma conexão com o passado e com as origens de nossa cultura.

Não importa se muitos nunca foram ao museu. O que se perdeu é a herança cuja riqueza faria com que as próximas gerações compreendessem quem é a "nossa família", quem somos a partir das construções de significados que marcam materialmente nossa identidade coletiva.

Estamos agora como aquelas pessoas que depois do incêndio, passam dias nas ruínas procurando pequenos fragmentos de memória afetiva, qualquer pedaço de "coisa", documento, adorno pessoal, ornamentos, cartas manuscritas, pedaços de vida que tornam tangível a realidade que ocorreu antes da nossa existência e que dão sentido, significado ao que somos, como somos e o que seremos.

*Referências:

DOUGLAS, M.; ISHERWOOD. B. O mundo dos bens: uma antropologia do consumo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2004

MENESES, Ulpiano T. Bezerra. Memória e Cultura Material: Documentos Pessoais no Espaço Público. Revista Estudos Históricos. V. 11. Numero 21. 1998

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