OPINIÃO
20/02/2014 13:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Geração Cabeça Baixa: do avatar à prótese digital

A relação com a tecnologia na vida atual, diferentemente das gerações passadas, quando podia-se optar por assistir ou não a TV, não nos deixa a escolha de "não integrar-se à vida digital" (desde o sistema bancário de emite holerites, até a escolha do medico no seu plano de saúde, é agora feito exclusivamente pela internet, o que significa que quem não está na rede se encontra excluído de dimensões sociais essenciais na vida de qualquer um). As formas de se relacionar com esta tecnologia e com as pessoas, que são em última instância a rede, são inúmeras, tal qual as relações na vida real. Mas uma delas é comum a praticamente todos os jovens, que, mesmo quando resistem, a estão vivendo, pois se posicionam: a vivência da realidade interseccional pela Geração Cabeça Baixa.

Num bar, numa reunião de negócios, nas aulas da faculdade, ou mesmo na intimidade do casal, o smartphone parece uma extensão do corpo do usuário ao qual ele precisa recorrer em intervalos controlados de tempo. É uma prótese digital, um elemento externo que se acopla e se torna parte do ser, um corpo estranho que passa a integrar sua constituição física, emocional, psíquica e rearticula organicamente sua relação consigo, com o outro, com a realidade, e interfere na forma como seus neurônios se comportam, determinando novas formas de socialização e comportamento offline. "Blade Runner" está na mesa ao lado, mas não o incomode porque ele está postando no Instagram. A profecia do ciborgue não é tão sexy quanto no filme, mas é mais barata e cada vez mais acessível a todos.

A sensação de "perda" do momento presente quando a pessoa não se conecta à rede para "saber o que está acontecendo" -- seja checando emails, entrando no Facebook para ver quem comentou seu post. ou quem está online no Twitter para saber quem está onde fazendo o que, no Instagram para ver quem está no lugar mais legal, com quem, fotografando o que, entre muitas outras possibilidades que diferem de acordo com o interesse e valores do usuário -- é a sensação de exclusão, seqüestro da realidade e falta de controle sobre ela. Falo da geração cabeça baixa me referindo aos jovens da atualidade, mas entendendo que o conceito de juventude, fluido e desprendido das determinantes demográficas: faixa etária, classe social ou CEP abrange gente dos 12 aos 50 que se enquadram em termos comportamentais, culturais e de valores neste cluster. Os cabeça baixa vão desde pubertários de 12 anos a executivos de 40, passando pelas donas de casa de meia idade que fazem bolo assistindo TV.

Um cabeça baixa pode passar a semana planejando ir a uma festa descolada onde vai encontrar sua paquera e curtir com seus amigos, mas tão logo ele chega na festa, você o encontra, em diversos momentos -- e entre alguns jovens, na maior parte dos momentos -- de cabeça baixa, olhando para um artefato tecnológico na palma de sua mão que o poupa da sensação de falta de controle e vivência totalizadora, real, do momento presente. Ele está no lugar que queria, com as pessoas que queria, curtindo a realidade palpável que queria, mas a noção de vivência da realidade, de experienciar o momento presente, apenas se torna fato para ele, quando o real offline e o "real online" estão ao seu alcance, constituindo a realidade interseccional, uma pára-realidade, constituída a partir das necessidades e percepções geradas pela era da internet, que constitui o "real de fato" para as gerações atuais e influenciam gerações anteriores.

Ela compreende uma nova forma de estar e vivenciar o mundo, a vida, as pessoas. Ela não é uma escolha, é um sistema que se engendra por um processo, se torna parte da vida das pessoas sem que elas percebam, é criticada pela maior parte das pessoas, que não as abandonam; no máximo, tentam controlar seus impulsos de buscar a totalidade da vivência interseccional acessando a internet para amenizar a sensação de obsolescência -- algo está acontecendo "na rede" e eu não estou sabendo, logo eu não sou parte disso, me sinto excluído, preciso me integrar para que a sensação de falta de controle acabe.

Jean Baudrillard falava da TV como uma atividade de conluio entre os telespectadores que, ao assistir ao jornal no horário nobre, se sentiam parte de um todo e vivendo um processo de integração e experiência do social. A internet, em especial as redes, são este conluio exponencial que se torna vivência essencial na sociedade contemporânea. Consumimos a rede como consumimos a cultura, a arte, a música, o ar, a comida, entendendo o consumo como um processo de fruição por meio do qual nos relacionamos com as pessoas, nos identificamos, nos diferenciamos e nos integramos por meio de nossas escolhas de bens tangíveis e intangíveis.

Mas, acima de tudo, na rede consumimos aquilo que nos é mais precioso: nós mesmos e a pessoas. Tornamo-nos o mais notável produto exposto em perfis a ser percebido, analisado, escolhido ou não e assim também nos relacionamos com outrem. Note-se que, como uma cientista do consumo, não concebo o tema consumo como um acordo frio e mecanicista que torna pessoas coisas sem humanidade, mas um processo onde coisas são instrumentos de relações humanas entre pessoas e representam o mais humano e relacional, constituído a partir de emoções, imaginário, valores permeiam estas relações. Consumimos na redes avatares que se constituem como totens dos valores mais profundos que constituem a visão de mundo, a perspectiva sobre a realidade e orientam o comportamento na vida social. A rede são as pessoas às quais nos conectamos num sistema de trocas simbólicas, tal qual entre os povos primitivos, num sistema de signos, significados, mitos, ritos e comportamentos que representam ordens sociais, cultura e engendram formas de ser e agir no real offline.