OPINIÃO
29/08/2014 06:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Breve análise sobre os três principais presidenciáveis

Montagem/Estadão Conteúdo

Muitos amigos e conhecidos estão reproduzindo besteiras baseadas em senso comum e decidi escrever uma breve análise, bem superficial, dos três principais candidatos à presidência da república com base na linha política que cada um adota ou acredita. Essa é uma singela reflexão que olha para o cenário além dos "fatos políticos" que são plantados e alimentados diariamente com o objetivo de despolitizar o debate.

Dilma e Temer

Dilma é desenvolvimentista, ou seja, acredita numa economia expansiva baseada em grandes indústrias e forte exploração de recursos naturais. O plano energético nacional baseado em hidroelétricas cumpre o papel de fornecer energia para indústrias eletro-intensivas, como mineração e metalurgia, e também cria canais hidroviários para escoamento da produção do agronegócio no país. Infraestrutura e logística. As obras dos PAC's são crias desse modelo de desenvolvimento. O governo investe dinheiro da nação na criação de infraestrutura energética e hidroviária para gerar rios de dinheiro que vão parar nas mãos dos grandes empresários, muitos dos quais levam esse dinheiro para fora do país. O modelo desenvolvimentista adotado pelo Brasil é dependente das grandes indústrias e por esse motivo permite regalias inimagináveis para esses sanguessugas. As grandes empresas tem dívidas milionárias com o Estado e ótimos advogados que garantem que esses valores nunca sejam pagos.

O social-desenvolvimentismo acredita que a partir do grande fluxo de capital gerado pelas empresas é possível gerar inclusão social e financiamento de medidas sociais, tais como o Bolsa Família e o Programa Mais Médicos. Infelizmente, o viés de inclusão social adotado pelo PT é puramente monetário, ou seja, capitalista-consumista. Para o PT, inclusão social é ter televisão em casa, comprar Nike e comer no McDonald's e, claro, essa é uma visão muito estratégica. A inclusão no mercado de consumo tem resultados no curto prazo, enquanto a inclusão social (educação, saúde, lazer, cultura) tem resultados de médio e longo prazo.

Não se deixe enganar: Dilma é uma ótima gestora (de capital) e entende muito bem como funciona a política (jogos de poder), não à toa, seu vice é o Michel Temer, há 11 anos presidente do PMDB, partido de Sarney, Renan Calheiros e outros calhordas que são os verdadeiros senhores feudais do Brasil. O PT tem um projeto de poder muito claro e muitas das políticas públicas adotadas tem viés eleitoreiro.

Como disse Frei Betto: "O governo do PT só pode ser considerado de "esquerda" se comparado ao reacionarismo das forças políticas que lhe fazem oposição. De fato, trata-se de um governo social-popular desenvolvimentista, mãe dos pobres e pai dos ricos."

Marina e Beto

Marina teve sua escola política nas raízes do PT e uma atuação fundamental, quase irreversível, no Ministério do Meio Ambiente. Criou uma barreira de proteção ao avanço do agronegócio em terras da amazônia brasileira e desmantelou máfias que atuavam dentro dos órgãos públicos ligados ao MMA. Apesar disso, Marina prega o "desenvolvimento sustentável" - tido por muitos como "ecocapitalismo" - e acredita que é possível conciliar o desenvolvimento econômico com a responsabilidade socioambiental, apostando em inovação, ciência e tecnologia para diminuir os impactos negativos ao meio ambiente. Esta é uma visão estratégica de longo prazo que poucos países conseguiram adotar na prática e Marina terá ainda mais dificuldade no Brasil, já que o modelo desenvolvimentista atual é a base econômica do país e reformas dessa magnitude demoram décadas para serem implementadas, mesmo com o melhor dos cenários políticos, coisa que está bem longe da realidade de Marina. Na prática, a única coisa que Marina pode fazer como presidente é adotar a estratégia de executar ações irreversíveis, como fez no MMA, e o PT com o Bolsa Família. Nem mesmo o PSDB pode negar que o Bolsa Família é um programa social que deve ser adotado. O grande desafio para Marina - segundo ela mesma - é conseguir unir os melhores quadros técnicos e políticos para governar o país supratidariamente e conseguir implacar as tais mudanças. É pouquíssimo provável que ela consiga grandes avanços nesse campo.

O PSB, assim como outros partidos e políticos, se unem à Marina pelo seu apelo popular e as relações são barganhadas a unhas e dentes. Existe um grupo muito forte ligado ao agronegócio e outro grupo menor mais progressista. Marina terá que negociar não só com o agronegócio, mas com outros setores alimentados pelo atual desenvolvimentismo e, para isso, terá como aliado seu vice, Beto Albuquerque, que tem longo histórico de atuação com o PT, com o agronegócio e, pasmem, com questões ambientais.

Marina está acompanhada de pessoas de sua confiança pessoal, mas poucas dessas pessoas tem capacidade técnica para governar um país. Serão feitas muitas alianças e concessões para conseguir o quadro mínimo de governabilidade e, dessa forma, poucas coisas realmente vão mudar com a tal "nova política".

Como disse Frei Betto: "Não sou ingênuo a ponto de acreditar que a política depende de lideranças carismáticas, ainda que elas sejam privilegiadas captadoras de votos. A melhor liderança não poderá jamais ser coerente a seus princípios enquanto perdurar essa estrutura política intrinsecamente antidemocrática, elitista e corrupta."

Aécio e Aloysio

Aécio é um neoliberal, ou seja, apoia uma maior liberalização econômica, privatização, livre-comércio, desregulamentação, e reduções nos gastos do governo, dando maior importância às relações econômicas e menor importância às questões sociais e ambientais. A crise econômica de 2008 foi suficiente para provar que a liberalização econômica baseada em desregulamentações é um perigo, principalmente no atual contexto de globalização. Até mesmo os EUA, principais gurus pregadores do neoliberalismo, tiveram que adotar, muito contrariados, medidas regulatórias após 2008 para evitar um colapso mundial. A atual situação da USP é um exemplo da nefasta atuação neoliberal que permitiu o total sucateamento da universidade e agora considera propostas de privatização para "solucionar" o problema financeiro. Os modelos econômicos neoliberais estão muito mais sujeitos à cartéis, monopólios, abusos e desvio de verbas. A regulamentação dos meios produtivos e dos mercados é prática necessária em qualquer democracia que valorize os direitos humanos.

O neoliberalismo também é uma corrente filosófica naturalmente mais conservadora com relação às questões sociais, mas infelizmente os atuais direitistas pregam um conservadorismo mais radical e estúpido que geram uma onda sectária e violenta contra as diferenças sociais, de crenças e estilos de vida.

Não se deixe enganar: Aécio não é um bom gestor e isso fica muito claro no seu discurso genérico e superficial. Aécio tem dificuldade de citar números que representam a realidade brasileira e não consegue sair do discurso do "vamos mudar o que há de ruim e manter o que há de bom".

Para finalizar, vale fazer uma reflexão sobre o estudo feito pelo MCCE - Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral, com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral, que listou os casos de parlamentares cassados por corrupção comprovada do ano de 2000 à 2007:

Coligação PSDB - PTB; PTC; PMN; PTdoB; PTN; SD; DEM; PEN = 156 casos

Coligação PT - PMDB; PDT; PCdoB; PP; PR; PSD; PROS; PRB = 126 casos

Coligação PSB - PRP; PPS; PSL; PPL; PHS = 23 casos

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