Opinião

Pode abrir a janela?

A tentativa do controle de tudo tende a focar sobre como resultados darão certo, e como você (eu e todo mundo) não vai se frustrar com o resultado que se coloca como expectativa. Porém, independente do sucesso ou não do que é desejado, é só no caminho que aprendemos acerca da riqueza dos fatos, da riqueza das interações, da riqueza dos detalhes do processo. É na experiência que aprenderemos e colocaremos sentido na vida, inclusive para outros desejos que trilharemos.
Took the train to Belgrade. It was hot. Rode the tram to our couchsurfing house. Stayed up late talking to our hosts and their friends.Marisa enjoys the breeze.
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Um assunto que anda me interessando é sobre controle. Controle da vida. Controle de aspectos da vida. Ok, a primeira coisa que alguém, mais interad@ em questões de autoconhecimento ou mesmo mais espirituais mencionará: mas nada se controla nessa vida. Sim. Entendo. Ou outra pessoa retrucaria que o controle está vinculado à disciplina dos corpos, que tem a ver com o sistema social, cultural e econômico que vivemos. Também não discordo.

Porém meu ponto sobre o tema controle vai por outra linha. Mais individual, talvez. Mesmo sabendo que não possuímos nenhum controle efetivo de todos os aspectos da vida, das diversas dinâmicas da vida, o que percebo é que continuamos (claro que me incluo) tentando controlar. Isso, de certa maneira, se torna mais evidente quando olhamos, por exemplo, o modo como nos apropriamos das novas tecnologias.

Uma inspiração para essa reflexão está presente em uma das minisséries contemporâneas mais bem realizadas (na minha humilde opinião) de ficção científica, Black Mirror. Essa mini série abrange de forma incrível e espantosa (pelo realismo ou possibilidade de se tornar real) a relação das pessoas com tecnologias e, invariavelmente, o impacto dessa relação na vida entre as pessoas. Interações humanas - algo que, sem dúvida, me interessa muito. Em um dos capítulos, os personagens utilizam um chip implantado atrás da orelha para recorrer facilmente à memória de todas as cenas que vivenciaram durante o cotidiano. Esse chip dá acesso a imagens e vídeos gravados do que você viveu, com possibilidade de revisitar o que foi sua vida no período de tempo desejado. No capítulo em questão, um dos personagens utiliza o "poder dessa tecnologia" não para se desenvolver ou resolver algum problema pontual e físico (de limitação humana) que ele possui, mas sim para comprovar uma paranóia que surge em sua mente acerca de um tema (ok, não vou contar mais, para não dar spoiler :D ). O ponto é: a tecnologia é apropriada ali a serviço do controle.

Ora, apesar de ser uma ficção, essa vontade pelo controle não está muito longe, não? Se olharmos mais atentamente, nossas timelines, fotos e álbuns nas redes sociais funcionam em grande parte como uma versão primitiva e em 2D desse chip. Controlamos quando uma pessoa leu uma mensagem enviada, e o quanto de coisas que você posta na sua rede social ela pode ler (mesmo a pessoa sendo "amiga"). Mesmo no plano do imaginário, a minissérie nos inspira a pensar como atualmente tendemos cada vez mais buscar soluções (tecnológicas ou não) para dar vazão a nóias, e não propriamente resolver nossas limitações humanas. Por limitações quero dizer: falar com alguém que está longe; ver imagens de um lugar que nunca pôde ir, ou já visitou, reler apontamentos sobre uma ideia que você marcou e havia esquecido. Ao invés disso, focamos nas noias, e uma delas é o controle pleno de todos os aspectos da vida.

A percepção de controle parece estar vinculada diretamente ao controle das coisas que desejamos ou esperamos ter. É o controle motivado por nosso foco no resultado ou objetivo de algo. E é aí que mora o problema. Deixamos de aprender com a caminhada. A experiência, o caminho de construção, parece ficar de lado. É como se, em uma trilha para algum lugar, ficássemos olhando apenas o ponto no mapa para onde queremos chegar. Não olhamos a paisagem. Não vemos, não ouvimos, não sentimos o vento. Nem sabemos muitas vezes como chegamos até lá.

O controle olha o resultado de uma ação, e não seu caminho. Por isso, apesar de gerar a (falsa) sensação de que tudo vai ou pode dar certo, ele acaba suprimindo uma das coisas fundamentais em nosso processo de formação que é aprendizado com experiência, aprendizado com o caminho, com erros, passos e acertos.

A tentativa do controle de tudo tende a focar sobre como resultados darão certo, e como você (eu e todo mundo) não vai se frustrar com o resultado que se coloca como expectativa. Porém, independente do sucesso ou não do que é desejado, é só no caminho que aprendemos acerca da riqueza dos fatos, da riqueza das interações, da riqueza dos detalhes do processo. É na experiência que aprenderemos e colocaremos sentido na vida, inclusive para outros desejos que trilharemos.

Pensar que não podemos (nem devemos) ter controle de tudo, e aproveitar o caminho para realização de um objeto pode ser a bela maneira de aproveitar e aprender de forma mais aberta, de forma mais rica. Quando tentamos controlar os resultados, nos prendemos e nos limitamos ao ponto que acreditamos dever chegar no mapa dos desejos. No entanto, se nos abrirmos a entender e vivenciar a experiência que cada trilha para realização de um objetivo ou desejo possui, outras tantas possibilidades podem aparecer. Muitos erros também claro, e consequentemente ganhamos aprendendo.

Enfim, é um ponto em aberto que gostaria de dividir para reflexão e que não é, de maneira alguma, conclusivo. Poderíamos tentar aprender a soltar mais e controlar menos. Isso não significa não ter uma ajuda, guia ou mapa para nos ajudar a chegar no ponto que desejamos. Mas, podemos ligar o viva-voz do GPS, e abrir a janela. Isso nos ajudaria a vivenciar mais o caminho, e limitar menos o resultado. Soltando mais. Controlando menos. Abrindo a janela para ventos da vida.