Opinião

Como aprendi a aprender sobre o outro

Quando tinha 18 anos, aprendi que ser "homem" era um lugar. Pouco antes, aprendi que ser negro era um lugar. Depois aprendi que ser hétero era um lugar, assim como ser cis é um lugar. Aprendi que ser negro de classe média era um lugar. Para aprender isso, tive que reconhecer a existência da mulher, do branco, do e da homossexual, do e da trans.
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Uma história pessoal. Lembro-me de quando comecei a entrar em contato com questões sobre gênero. Na faculdade entre amigos, diante de um congresso e uma lista do congresso sobre quem era a menina mais bonita do evento. Eu e um amigo assinamos, dentre os os muitos "meninos" presentes no evento. A lista foi descoberta no último dia do evento. Lembro-me claramente, ao ouvir de minhas amigas e colegas sobre o porquê não convinha e nem fazia sentido a existência de uma lista "das mais bonitas" em um evento daquela magnitude. Na verdade, esse tipo de lista não fazia sentido em nenhum contexto. Ainda mais feita por homens. E aprendi pela primeira vez o valor de uma palavra que parecia tão distante: machismo.

Bem, essa história, ocorrida há mais de uma década, marca meu primeiro contato - e de muitos amigos - com questão de gênero na vida. Como disse: na faculdade. Já tinha 18 anos, já havia vivenciado algumas coisas na vida. Já sabia ler, escrever, interpretar. Já cursava uma das melhores universidades do país. Meu ponto é: na vida, estamos e devemos estar sempre abertos a aprender. E aprender a aprender.

Diante da ampliação de vozes e representações, cada vez mais entraremos em contato com "vozes que são diferentes das suas". Sim, vozes tão iguais e legítimas, e diferentes no ponto de vista e visão de mundo da qual parte. Vozes que, as pessoas expressam - vou colocar-me na minha posição: homem cis negro hétero classe média (mas fique à vontade para pensar na sua) - e que são diferentes das suas. Lindo isso. Se aos 18 anos, após estar cursando a faculdade que queria acreditasse que apenas tinha ali a aprender o que a academia (e quiçá o mercado de trabalho) tinha a me ensinar... Que lamento seria!

Se nos fechamos às possibilidades de aprendizado do mundo que não estão apenas nos livros mas nas pessoas, nas suas histórias e lugares de mundo, estamos perdidos.

Em um mundo que se fala tanto em individualidades, direitos, e empatia, aprender a aprender sobre o outro é tarefa das mais necessárias. E difíceis. Quando aprendermos a aprender com e sobre as pessoas, nos posicionamos no mundo da melhor maneira: relacionalmente. Isso significa que sei quem sou a partir da perspectiva da existência do outro, e ao considerá-lo em sua existência - com respeito, abertura e como igual - reforço criticamente meus lugares de fala e visão de mundo. Quando aprendemos a aprender, tornamos termos que pareciam distantes próximos, e entendemos como, mesmo sem pensar, podemos estar reproduzindo aquilo dado que "você nunca pensou sobre aquilo".

Quando aprendemos a aprender, aprendemos que muitas das coisas que você só ouvia falar de orelhada existem sim, e você faz parte disso - em especial se não estiver ignorando o assunto. Sim, falo de machismo, racismo, preconceito de classe, homofobia, transfobia, entre outros efeitos do que não aprender causam em relação a nos interagirmos e considerarmos o outro.

Quando tinha 18 anos, aprendi que ser "homem" era um lugar. Pouco antes (quase que concomitantemente), aprendi (racionalmente) que ser negro era um lugar. Depois aprendi que ser hétero era um lugar, assim como ser cis é um lugar. Aprendi que ser negro de classe média era um lugar. Para aprender isso, tive que reconhecer a existência da mulher, do branco (sim, "ser branco" não é natural - como o racismo vigente faz com que algumas pessoas acreditem!), do e da homossexual (ou bi), do e da trans. Inclusive do "do"e "da". Tive que aprender a reconhecer o negro em outros estratos sociais, seja em seu lugar de posse (sejamos claros: grana) seja no seu lugar simbólico (educação, oportunidades, possibilidades de escolha).

Pôr as coisas em perspectiva. Entender onde e como você está. E aprender. Acredite: você não precisa nascer já sabendo. E provavelmente não vai. Para, escuta e aprende. Sempre. Como dizem os mais velhos: na dor ou no amor.

Muitas vezes na dor para mim: na vergonha de ter assinado a lista, no sentimento de indignidade ao tomar um enquadro (pela primeira vez) no dia de meu aniversário, na vergonha de não "ter pensado que as mulheres passavam por isso", no clique mental de entender que alguns indivíduos não tinham escolha.

Muitas vezes na dor pelo outro: ouvir história de amigos gays sujeitos à violência nas ruas ou mesmo em experiências afetivas, ouvir histórias de mulheres negras e sua solidão, ouvir de mulheres sobre a violência do assédio constante, ouvir histórias de amigos e conhecidos em favelas e comunidades sobre a constante violência física e simbólica que viviam ao ter que conviver em um espaço com poder público se apresentando apenas em armas.

Mas também no amor, quando você aprende e percebe que há espaço em qualquer um dos contextos de voz do outro para ser aliado (nunca protagonista!), para trocar, e ampliar sua vivência e seu próprio sentido de igualdade, liberdade e fraternidade.

Aprender a aprender nos faz mais ricos e amplos de mundo. Mais empáticos ao outro. Mais abertos ao amor, ao diverso, ao igual - como estatuto de convivência. E nos ensina uma das coisas mais importantes: desconstruir, porque é nessa desconstrução que o aprender faz sentido, muda e revoluciona. Ela aproxima. Então, se abra, aprenda. Vale a pena.


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