OPINIÃO
16/06/2015 17:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Churrasco da gente diferenciada

Quando falamos de privilégio, estamos evidenciando as pessoas que não têm a possibilidade de escolha, de trânsito. Estamos falando de negr@s que não podem evitar tratamento de discriminação e racismo apenas dizendo "ah, mas então eu me identifico com branc@s". Estamos falando de mulheres que não podem evitar e superar situações de abuso e violência perpetuados pelo homem apenas dizendo "mas somos iguais".

EladeManu/Flickr

Imagine essa cena: há um churrasco, com diversos "convidados". O churrasco é variado, pois além de carne, tem verduras e queijo. Poucas pessoas, mais próximas à churrasqueira, recebem a safra mais fresca e quentinha que sai do fogo. Outras pessoas, em maior número, mais afastadas, acabam recebendo menos opções de carne e outros elementos. Dentre as pessoas que estão próximas do fogo, as poucas, algumas optam por comer apenas verduras ou só queijo. Outras, ainda entre as poucas, comem tudo que verem - e lascam aqueles pedaços perfeitos e suculentos de picanha. Entre as pessoas que estão afastadas do fogo, as opções se limitam. Não apenas há bem menos verduras (só aquelas meio "esturricadas" ou que ninguém quis) como os pedaços de carne também não são os melhores - pedaços que mais poderiam ser de gordura do que de carne mesmo. Queijo: "nunca vi, nem comi, só ouço falar"! Quão mais distante do fogo se está, menos escolhas os indivíduos possuem.

Pois bem, essa cena do churrasco de pessoas diferenciadas não é sobre dietas ou opções de comida! Tem a ver com um ponto importante: privilégios.

Veja, para seguir a analogia, quando digo "pessoas diferenciadas", reforço o lugar diferenciado que elas ocupam nesse mesmo espaço, o "churrasco", em uma metáfora para sociedade. A distribuição de recursos, oportunidades entre as pessoas, obedece a uma série de pressupostos, estruturas e formas de psoicionamento social que cruzam questões como classe, raça, gênero, capacidades, entre outros. Porém, dentre todos esses fatores complexos - que não daria para tratar em um artigo -, quero sublinhar a questão da escolha.

Privilégio é escolha. Ou melhor, é a possibilidade de escolher. A possibilidade de se mover e escolher entre algumas oportunidades é um indicativo forte da condição de privilégio de um indivíduo. Insisto em demarcar aqui o indivíduo. É na ideia de individuação, em seu valor moderno, que a liberdade de escolher se coloca como efetiva e desejável. É na premissa de que todos os indivíduos são iguais e têm plena liberdade para escolher que se estabelece, dentre outras coisas, essa característica admirável da modernidade. Portanto, exercer sua condição plena como indivíduo envolve exercer plenamente sua condição de igual e livre. Igual por dispor das mesmas oportunidades. Livre para escolher entre elas.

Mas não é o que acontece.

A analogia do churrasco evidencia que a possibilidade de escolha está colada com a situação na qual os indivíduos se encontram naquele ambiente. Os que estão perto: mais opções, mais possibilidades de dizer "sim para isso, não para aquilo". Para os que estão longe, nem queijo há. Nessa situação vemos o privilégio. Privilégio concerne ao indivíduo, mas é no coletivo que ele tem impacto, em especial ao grupo dos que "estão longe da churrasqueira".

O privilégio não aparece como uma condição racionalmente evidente para todas as pessoas ali. Dos indivíduos próximos a churrasqueira, alguns acreditam que mereciam estar ali. Dos que estão longe, alguns acreditam que mereciam estar ali. Outros, dos que estão perto, acham que é natural que possam escolher entre comer carne ou queijo, e repudiam os que comem gordura, como se eles tivessem mesma condição de escolha. Dos que estão longe, muitos nem sabem que a gordura não faz bem ao corpo: é o que têm, é o que podem comer ali, apenas. Não há escolha.

A pauta privilégio aparece como base de algumas questões. Seja quando pensamos sobre o lugar do homem e seus privilégios - como tentei esboçar uma visão no último texto sobre masculinidade. Ou ainda em casos como o recente de Rachel Dolezal "descoberta" como branca, mesmo reclamando sua pertença étnica como negra.

Nesse episódio de Rachel Dolezal, um dos pontos mais críticos da conduta dela não é o fato de ser branca e advogar em prol da questão da igualdade racial. É o fato complicadíssimo de ela utilizar a identidade específica de "mulher negra" e manter o privilégio de ser branca. De sair da condição (que já é louvável) de aliada, e querer (e escolher) se colocar como protagonista em uma demanda que não era a sua. A conduta dela retrata uma escolha por tal identidade, porém com a possibilidade de se abster dos efeitos negativos ou violentos que ser mulher negra impõe. Ou seja, a possibilidade de escolher. Essa possibilidade, no entanto, a mulher negra não tem.

Quando falamos de privilégio, estamos evidenciando as pessoas que não têm a possibilidade de escolha, de trânsito. Estamos falando de negr@s que não podem evitar tratamento de discriminação e racismo apenas dizendo "ah, mas então eu me identifico com branc@s". Estamos falando de mulheres que não podem evitar e superar situações de abuso e violência perpetuados pelo homem apenas dizendo "mas somos iguais".

A falta de possibilidade de escolhas é o obstáculo que se coloca para livre exercício e realização dessas pessoas como indivíduos. Diante dessa desigualdade de condição, poder escolher é sim um privilégio. A falta de possibilidade de escolhas, ou pela nossa metáfora "as pessoas que estão distantes da churrasqueira", determina uma gama ampla de desigualdades, falta de oportunidades, recursos. Isso materialmente. Emocionalmente e psicologicamente determina baixa auto estima, auto exclusão, auto detrimento, auto desvalidação. A não possibilidade de escolher. De ter que pegar o que sobrou, o que restou.

Atentar para a existência de privilégios e reconhecê-los é importante passo para quebra deles, caso haja interesse e alinhamento com propostas progressistas e empáticas de sociedade. Digo "caso haja" porque existem aquelas figuras que são reconhecidamente reacionárias e pregam a manutenção (ou até ampliação) de privilégios, nas mais diversas esferas da sociedade. Ou ainda defendem que os que estão "longe da churrasqueira" estariam demandando ~privilégios~ ao reclamarem a possibilidade de ter e escolher... A esses, um recado: não passarão. Não mesmo!

Para todas as outras pessoas, reconhecer quando e como estão em situação de escolha, e perceber o outro ao lado que não está, pode colaborar para que, em uma possibilidade positiva, modifiquemos o modo como estamos dispostos na sociedade. Reconhecer que se tem um privilégio e a qual a natureza dele é um passo importante para reconhecer que o outro não tem, e possivelmente humanizá-loe entendê-lo como igual e ser fraterno. Ao se despir de suas escolhas desiguais e buscar as possibilidades de igualdade, ampliamos os laços sociais que promovem igualdade e liberdade. Assim, possibilitamos a que mais pessoas sejam iguais, livres. Em suma, na situação-metáfora do "churrasco", para que chegue queijo e carne do outro lado, longe do fogo. Como seria de direito de tod@s. E aí, quer um pedaço?

PS: Vegetarian@s: o churrasco é só uma metáfora, ok... Não há problema algum com a dieta de vocês ;)