OPINIÃO
09/06/2015 09:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Solidão masculina

Cia de Foto/Flickr
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A questão da solidão e de como estamos abertos na interação uns com os outros é algo que me interessa. Pensando sobre o tema, entendendo a diferença entre a solidão aberta (aquela necessária para crescimento pessoal) e a solidão isolada, alguns pontos começaram a me chamar a atenção. Aprendendo com a discussão sobre feminismo, e mais além ainda, e as particularidades das situações da mulher, foi lendo, escutando e observando sobre mulheres (em especial mulheres negras) que algumas questões sobre ideia de solidão foram aparecendo. No início, achava que tinha a ver somente com condição de homem negro, na qual me situo, mas perceber que a reflexão de solidão podia ser extrapolada para os homens. Então resolvi compartilhar algumas das ideias aqui.

De início peço perdão por ser um texto com certo recorte heteronormativo. Em minha vivência e reflexões, não poderia ocupar outro lugar que esse (de homem cis hetero). Espero que, de alguma maneira, as ideias aqui possam ser frutíferas para perspectiva gay ou trans.

Bom, para começar: não acredito em solidão masculina. Sim, nós estamos sós. Mas não sós enquanto desacompanhados. Os homens não estão sós por falta de pessoas que querem, se preocupam, cuidam ou estão ali para e por eles. Não. Os homens estão sós como isolados, presos em nossas próprias crenças, preconceitos, cabeça dura e certa preguiça. Sim, preguiça. Preguiça de falarmos entre nós, preguiça de mudarmos, preguiça de nos expormos. Com nós mesmos.

Na verdade, a vida social do homem é até de excessos, o que define sua situação de privilégios e escolhas, com devidos recortes transversais a partir de outras camadas (como raça e classe). Excessos por seus privilégios, excessos pelas expectativas, excessos pela constante reprodução de papéis de gênero nos quais nunca, nunca, o homem está sozinho. O próprio contexto social de machismo, falocentrismo e patriarcalismo possibilita essa condição. O homem nunca está sozinho. Pegue um exemplo pontual que é comparar a quantidade de visitas que um homem recebe na cadeia, contra as que recebem uma mulher. As mulheres sim estão solitárias. Em especial, a mulher negra. Mas, como disse, não é delas que quero falar aqui.

Hoje o homem está isolado. Esse é de fato a questão da solidão masculina. O homem está isolado em um universo no qual ele não se expõe, não troca, não se abre. O homem está calado diante de sua condição. O homem está calado diante do importante desafio de quebrar transversalmente (ou seja, além do gênero, também raça e classe) seus privilégios, colocados em choque pela atuação e protagonismo de luta das minorias. O homem adoece e muitas vezes morre quieto. O homem não conta para o amigo que está se sentindo triste ou incomodado com determinada situação, que não tem a ver com dinheiro ou questões de trabalho, e sim com sentimentos, com o que está se passando por dentro. Dentro. Sempre dentro. O homem está isolado porque nada sai, nada muda. Lá dentro.

Esse texto nasceu de um incômodo, enquanto homem, de que meus pares não estão refletindo apropriadamente sobre seus privilégios, e a necessidade de mudá-los (leia-se quebrá-los) e reconfigurar uma noção diferente de masculinidade. Mesmo nas alas mais progressistas de discussão e reflexão, o entendimento das questões de gênero e de papel como aliado do feminismo aparece exaltado como uma "carteira de empatia". Legal, importantíssimo [dado que essa lição de casa muita gente ainda não fez]! Mas e nós?

Escutar a mulher, entender empaticamente suas questões de desigualdade e opressão pela qual passa e vivência, é parte importante do processo de reestruturação de uma nova masculinidade. Escutar gays e trans e perceber questão de sexualidade a partir de uma estrutura "desnormalizada" (que nada mais é do que opressão de quem domina, de quem ditava o que era o normal) é também parte importante do processo de reestruturação da masculinidade. Sim, mas não só.

Precisamos construir novos caminhos e brechas para um novo lugar de masculinidade. Precisamos reconfigurar uma masculinidade que não seja a do privilégio, que não seja o da reprodução de opressão sobre outros grupos. Precisamos, nós homens, parar, entre nós, e sair desse isolamento. E faze-lo sem vitimismo! Lembremos sempre antes de proferir as famosas "male tears", ou a famosa "lágrima de crocodilo": não somos vítimas no camarote dos opressores! Mesmo que de certa maneira somos também atingidos negativamente com algumas questões que estruturam o machismo. Porém, no quadro geral amplo e irrestrito, somos invariavelmente a figura do opressor. Ponto. Isso não muda, e temos que admitir.

Ressignificar a masculinidade é tarefa diametralmente oposta a mimimis do tipo "Dia do Orgulho Hetero" ou "as feministas querem matar os homens"! Não! Pelo contrário, esses grupos estão lutando para reconstruir sua vivência e dignidade no meio social, lutando para exercício pleno de sua igualdade e liberdade, de sua condição de indivíduo.

Nós homens precisamos não apenas olhar o que outros grupos estão fazendo e agir. Precisamos sair do privilégio. Precisamos sair do isolamento. Precisamos abandonar a casca do "nunca pensei sobre isso".

Ok, aí vem aquele momento do "Como"? Não sei - se tivesse a resposta escreveria um livro, não um artigo jogando essas ideias. Mas entender nosso lugar de isolamento, e consequentemente de privilégio, e perceber a necessidade de atacar isso já é um caminho. Estamos atrasados com isso, aliás. Mas se não sairmos do lugar, mesmo que aos trancos e barrancos, nada muda. Sem isso, continuaremos isolados. Sós em nós mesmos. E eu não quero mais isso. Você quer?