OPINIÃO
18/08/2014 16:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Por que o Canabidiol deve ser legalizado?

O que você faria se tivesse uma doença e soubesse que existe um remédio muito mais efetivo do que os vendidos na farmácia? É nessa situação que as pessoas que poderiam ser beneficiadas pelo uso do Canabidiol - componente extraído da maconha - vivem.

Co-autoria de Pedro Loos, diretor do canal "Ciência Todo Dia", um dos maiores canais de divulgação científica brasileiros.

O que você faria se tivesse uma doença e soubesse que existe um remédio muito mais efetivo do que os vendidos na farmácia? E o que você faria se soubesse que esse mesmo remédio é proibido em seu país e precisa de permissão do Estado para ser importado? É nessa situação que as pessoas que poderiam ser beneficiadas pelo uso do Canabidiol - componente extraído da maconha - vivem.

Embora a maconha possua Tetraidrocarbinol (THC), a substância responsável pela psicoatividade da droga, o Canabidiol (CBD) é totalmente livre desse efeito. Mesmo assim a sua utilização como remédio não é permitida no Brasil, a não ser que você tenha uma autorização especial concedida pela Anvisa para importar a substância.

Até agora as pesquisas já relataram que o Canabidiol é eficiente no tratamento para ansiedade, transtornos psiquiátricos e até quadros de epilepsia, como relatado no famoso caso do garoto Benício, que após começar a utilizar a droga teve uma redução de 80% em seus ataques epilépticos.

E a cortina de fumaça que nos separa desse tipo de avanço é o preconceito. Mas a ciência é clara: evidências se acumulam mostrando que existe uma série de aplicações médicas de compostos derivados da maconha, principalmente o Canabidiol - uma pasta extraída da Cannabis indica, tipo de maconha originária da Ásia. Em comparação com a Cannabis saativa, a indica possui menos THC, o componente psicoativo da maconha. Pesquisadores de Israel e Espanha já demonstraram que o uso do CBD em pacientes com mal de Alzheimer é eficaz contra a perda de memória e os tratamentos com derivados da droga têm se mostrado muito promissores.

E aqui no Brasil as pesquisas não são diferentes: estudos realizados na USP mostraram que o Canabidiol é extremamente eficiente como ansiolítico, o remédio que combate a ansiedade. E o melhor de tudo: sem causar dependência. Além disso, as pesquisas relatam que ele também reduz o medo que pessoas tinham de falar em público, um transtorno conhecido como fobia social. Nesse estudo, dois grupos de 12 pessoas foram formados - um recebendo uma dose (600mg) de Canabidiol e o outro um placebo. Após duas horas foram feitos testes de nível de ansiedade em apresentações orais, simulando uma situação em que os cobaias falavam em público. O grupo que recebeu o CBD teve desempenho muito superior ao grupo de controle, com mais confiança e menos ansiedade em seus discursos.

Uma perspectiva histórica

Os estudos envolvendo propriedades terapêuticas do Canabidiol em humanos começaram em 1982, mostrando as interações entre o THC e o CBD. Desde então, cada vez tem-se descoberto mais aplicações para o composto, como: tratamentos de acne, tratamento de mal de Parkinson, diminuição de transtornos de sono, alívio de dor, diminuição de crises epilépticas, propriedades antioxidantes, efeitos anti-psicóticos com aplicações em tratamentos de esquizofrenia e até funcionalidade antidepressiva; tudo isso a partir da administração do Canabidiol. E com a diminuição do tabu científico em cima das propriedades de substâncias derivadas da Cannabis, teremos cada vez mais pesquisas e possíveis novos tratamentos.

Em um experimento da Universidade do Kentucky, publicado em 2013 no periódico "Pharmacology Biochemistry and Behavior", os pesquisadores mostraram que a administração de CBD atenua a degeneração de neurônios em humanos, como os danos causados por abuso de álcool. Em outro estudo, da "Cannabis Science", empresa estadunidense de biotecnologia, foram demonstradas propriedades de inibição da metástase de cânceres, principalmente o câncer de mama. A explicação está no fato de que o Canabidiol consegue impedir a expressão excessiva do ID-1, um gene que permite o deslocamento de células entre tecidos distantes, impedindo assim com que células tumorais espalhem-se pelo corpo. Os possíveis tratamentos baseados nessa descoberta incluem leucemia, câncer de colo de útero e reto, pancreático, de pulmão, ovariano, cerebral e alguns outros.

Até agora, das 59 solicitações de importação feitas à Anvisa para medicamentos a base do Canabidiol, 37 foram aprovadas. As demais solicitações ainda estão em análise. Apesar do uso ser aprovado nos Estados Unidos e em vários países da Europa, no Brasil ainda é necessário uma autorização excepcional, com a apresentação de prescrição, laudos médicos e um termo de responsabilidade.

A liberação da importação chegou a ser discutida pela Anvisa, mas a decisão foi adiada, sem razões concretas. O atraso só aumenta o sofrimento de pais e mães com crianças que sofrem de convulsões, como o caso de Katiele Fisher cuja filha Ane, de 6 anos, chegava a sofrer 80 convulsões por mês antes do tratamento com Canabidiol. Katiele então conseguiu uma autorização judicial para importar o medicamento.

Desde então, Ane não sofreu mais nenhuma convulsão.

Sem efeitos colaterais, dependência ou quaisquer efeitos psicoativos descobertos até hoje, o Canabidiol é uma boa aposta para uma série de problemas médicos que nos parecem sem solução atualmente. Ninguém sabe por quanto tempo a negligência irá impedir que avanços sejam feitos no tratamento de diversas enfermidades, mas podemos ter certeza que assim que quebrarmos as barreiras do preconceito o progresso começará.

De uma vez por todas, legalizemos.

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