OPINIÃO
28/10/2014 12:42 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Por que esqueço tudo o que é importante?

chinzogzag via Getty Images

Já passou por isso?

Alguém pergunta algo importante; você, imediatamente, vasculha a mente em busca da resposta e até lembra de coisas aleatórias, como placas de carro, falas de filmes e nomes de bandas desconhecidas, mas a maldita resposta não vem. Por mais que você tente, não funciona. A informação não está lá.

Pior ainda: não lembra absolutamente nada do que estudou no último ano e nem imagina por que isso acontece?

Matthias Gruber sabe - e agora você vai saber também.

Graças a Gruber, neurocientista cognitivo da Universidade da Califórnia, estamos cada vez mais perto de entender quais são os fatores que nos levam a fixar memórias e consolidar o aprendizado. Além de entender melhor porque ficamos mais esquecidos quando envelhecemos. E o principal fator é a curiosidade -- ou, melhor dizendo, a ausência dela.

A curiosidade tem a capacidade de alterar o funcionamento do cérebro e otimizar o aprendizado e a retenção de memórias: essa é a interessantíssima conclusão de um estudo liderado por Gruber. E tudo começou, bem, com a própria curiosidade dele, que nunca conseguiu entender porque tinha memória tão ruim para as coisas importantes e tão boa para as inúteis.

Pedal (cons)ciência

Gruber, alemão, levanta pela manhã e vai de bicicleta até o trabalho. No caminho, passa pelas montanhas de Davis, na Califórnia -- a 100km de San Francisco. Logo lembra daquela paixão que sempre o motiva a sair do laboratório mais cedo nos dias frios: esquiar, bem perto dali, em Sierra Nevada. A pedalada continua pelas largas ciclovias de Davis, considerada uma das cidades americanas mais amigáveis às bikes.

Seu local de trabalho não é lá muito convencional. O Laboratório de Dinâmica de Memórias (DML, da sigla em inglês) se descreve como estando a "uma distância segura da pesquisa de ponta". O bom humor anda lado a lado com a competência de seus integrantes, vindos das mais variadas partes do mundo. A maioria chegou até ali pedalando.

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A equipe do DML

O mais interessante sobre o DML é a pouca semelhança com a visão comum de um laboratório. Reuniões são feitas com piqueniques e brainstorms com passeios de bicicletas em parques, já o academicismo e as formalidades, são deixadas de lado. O laboratório também dispõe de uma equipe de apoio moral: vários cães e gatos adotados pela equipe ajudam a manter a leveza.

Vale dizer que nenhum deles é usado para qualquer tipo de estudo.

Liderados por Gruber, seus colegas compartilham a fascinação acerca da seletividade da memória e como ela parece escolher certos temas para não apenas reter, mas, compreender, melhor do que outros. Estudos passados sempre focaram em motivações externas, como incentivos financeiros (prêmios em dinheiro, caso alguém lembrasse de algo) -- mas com pouco sucesso.

Só que, na vida real, ninguém nos paga para lembrar das coisas.

A curiosidade lembrou o gato

No dia a dia existem fatores internos que realmente importam na hora de entendermos como formamos as memórias. O principal deles, segundo Gruber, é a curiosidade. Apesar de parecer óbvio que aprendemos e fixamos melhor informações quando temos curiosidade sobre elas, seu estudo demonstra o mecanismo que explica tudo isso. E algo a mais.

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Boru, mascote do laboratório

A curiosidade não apenas tem a capacidade de alterar nossa capacidade de entender certos assuntos pelos quais nos interessamos, como também causa alterações no cérebro como um todo e a partir essas alterações passamos a compreender melhor o mundo à nossa volta.

Para chegar nesse ponto, os pesquisadores utilizaram 19 voluntários. Cada um respondeu mais de 100 questões ordenadas por uma escala de interesse dos participantes, em que metade das perguntas eram de assuntos de grande interesse dos voluntários, enquanto a outra metade, era pouco interessante.

Os participantes, durante a rodada de perguntas, estavam dentro de uma máquina de fMRI -- a ressonância magnética funcional --, aparelho que tem a capacidade de escanear detalhadamente a atividade cerebral.

Para aumentar o desafio, uma imagem não relacionada foi mostrada aos participantes entre cada pergunta de valor real, a fim de testar a sua capacidade de manter a atenção. Mesmo assim, os testes tiveram resultados surpreendentes: os participantes que demonstravam interesse por determinado assunto mostraram desempenho superior em todos os testes, mesmo àqueles não relacionados às suas áreas de interesse.

Curiosos têm maior facilidade de aprender, independentemente do assunto.

De algum modo, o interesse coloca o cérebro em uma espécie de "aprendizado ativo", onde sua capacidade de coleta, de compreensão e de retenção das informações foi otimizada. Para entender exatamente o que estava acontecendo, Gruber e seus colegas recorreram às imagens da atividade cerebral, coletadas por seu fiel fMRI.

O período em que o cérebro estava esperando pela revelação de uma resposta era crucial para a retenção e aprendizado. A atividade cerebral explodiu nesse curto período, de menos de 14 segundos.

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A Ressonância Magnética Funcional

Primeiro, a atividade aumentou em regiões ligadas ao circuito de recompensa do cérebro, responsável pela liberação de dopamina (um neurotransmissor, responsável pela comunicação entre alguns tipos de neurônios e dá a sensação de satisfação e de prazer).

Mas o segredo está em uma ligação incomum: durante estes episódios de manifestação de curiosidade, o circuito de recompensa do cérebro fica diretamente ligado ao hipocampo, região responsável pela criação e retenção de memórias. De acordo com o estudo, a capacidade de aprendizado de um indivíduo em pouco dependia de sua "capacidade intelectual" prévia, e sim em quanto o hipocampo interagia com a chamada área tegmental ventral -- responsável pela fabricação da dopamina.

Ou seja: a capacidade de aprendizado de um indivíduo recai em grande parte sobre o quão motivado e interessado ele está em determinado assunto, mesmo que o aprendizado não seja na mesma área de interesse. "A curiosidade coloca o cérebro num estado que permite uma maior capacidade de observação, compreensão e retenção de qualquer tipo de informação, como um vórtex que suga tudo o que você tem interesse, e também tudo que está ao redor," comenta Gruber.

Um professor inesquecível

Gruber é um bom apreciador de cervejas. Acostumado a degustar vários tipos com os colegas de laboratório, oscila suas preferências entre uma India Pale Ale forte e uma boa Lager alemã, mais leve. E por mais que se esforçasse, muitas vezes esquecia o nome de algumas.

Portanto, o neurologista se orgulha de seu estudo, que tem implicações incríveis. Compreender como funcionam os fatores que levam pessoas a entender e aprender conteúdos pode mudar a forma com que educamos nossos alunos. Professores podem explorar os interesses prévios das crianças e jovens para criar uma condição mais propícia à compreensão dos mais variados conteúdos. Não apenas mostrando os conteúdos das aulas como uma obrigação de estudo, mas conectando seus assuntos com pontos em comum de interesses já consolidados dos alunos.

As pesquisas futuras em cima de como os interesses internos atuam no aprendizado terão um foco muito melhor, agora que compreendemos os mecanismos desse processo. Vamos entender exatamente o que capta e o que acaba com o interesse de um indivíduo com determinado assunto para otimizar o aprendizado. Conectar conhecimentos teóricos com fenômenos e problemas do mundo real, com experiências pessoais dos estudantes. Enfim, as possibilidades são imensas.

Porém, não são apenas os indivíduos saudáveis que se beneficiam desses desenvolvimentos: entender como o circuito de recompensa do cérebro se relaciona com a memória traz grandes avanços no entendimento do porque o envelhecimento, aparentemente, é ligado com uma perda na capacidade de aprendizado de certas pessoas, e, em outras, não.

O envelhecimento, o abuso de drogas, o Mal de Parkinson, a depressão e a esquizofrenia possuem dois fatores em comum: a deficiência dos circuitos que usam a dopamina e a diminuição da motivação em aprender. Entender melhor como a curiosidade e a motivação podem estimular a produção de dopamina e otimizar o aprendizado lança luz sobre possíveis avanços significativos nos tratamentos destes problemas.

O futuro será lembrado

Gruber espera que mais pesquisas sejam feitas com foco na educação. Ele quer entender melhor como podemos otimizar o aprendizado, de crianças a idosos. Utilizando a neurociência cognitiva, vemos uma nova educação no futuro, mais democrática e significativa.

"Se você for apaixonado por entender melhor o mundo - ou melhor dizendo, se você for curioso - você deve pensar em se tornar um cientista." é o conselho que Gruber nos dá. E chega em casa satisfeito depois de mais um dia de ciência. Seus circuitos de dopamina são acionados ao momento em que saboreia sua Lager alemã preferida e contempla o céu estrelado californiano, na varanda de casa.

Seu projeto futuro ainda não tem data para começar, mas é esperado por ele e toda a equipe do DML: um laboratório de produção de cerveja, ali mesmo, em sua casa. Lá, Gruber terá a oportunidade de fazer novas descobertas - como, por exemplo, a melhor maneira de fazer uma boa Lager. Daquelas que você experimenta e nunca mais esquece.

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