OPINIÃO
01/09/2014 20:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O que você quer ser quando crescer?

No começo desse ano tive uma experiência de uma vida. Nunca havia feito algo parecido, mas resolvi encarar o desafio: como explicar assuntos tão complexos quanto tempestades magnéticas e raios cósmicos para crianças de 10 anos?

JGI/Jamie Grill via Getty Images

No começo desse ano tive uma experiência de uma vida. E que não mudou apenas a minha.

Em função do meu projeto com a NASA, tive a oportunidade de fazer palestras em várias escolas de ensino médio, universidades e laboratórios. O engajamento do público sempre era diferente em cada lugar, dependendo um pouco da profundidade técnica que eu usava.

Até que um dia fui convidado para palestrar para crianças. Nunca havia feito algo parecido, mas resolvi encarar o desafio: como explicar assuntos tão complexos quanto tempestades magnéticas e raios cósmicos para crianças de 10 anos?

Depois de voltar da Escola da Praia do Riso em Coqueiros, Florianópolis - SC, onde eu fui para responder algumas perguntas de crianças de 4º/5º ano - com 9 e 10 anos - sobre meu projeto e ciência em geral, eu entendi o que eu queria fazer da minha vida. Achei um sentido para o que eu queria me dedicar nos próximos anos.

Eles estavam estudando Galileu Galilei quando ficaram sabendo do meu projeto e aproveitaram para saber mais a fundo o que é o fazer científico, explicado por um proto-cientista, no caso, eu. Cheguei na sala e vi aqueles olhinhos curiosos, ávidos por decifrar o mundo, ainda não tolhidos da curiosidade que faz de cada criança uma verdadeira cientista. Tinham várias perguntas: sobre meu projeto, minha vida, minha formação, astronomia e ciência em geral.

E elas acompanhavam cada palavra, cada desenho ou gesto explicativo. Não havia olhares de desdém ou risadinhas de desprezo, algo comum entre pré e adolescentes em geral.

Não havia classificações rápidas de "inútil" ou "sem importância" que muitos adultos têm de pesquisa básica. Não havia limites às perguntas como "o que você quer ser quando crescer?". Não havia aquela pré-concepção de algo como "isso não é pra mim" ou "isso eu não vou entender".

Expliquei tudo que podia, algumas vezes esbarrando em conceitos um pouco tanto complexos (expansão do espaço, campo magnético). Mas as crianças não cansavam de tentar compreender aquela coisa misteriosa chamada universo. As perguntas formuladas por aquelas criancinhas de 9 e 10 anos foram em média melhores do que algumas que recebi do pessoal com a minha idade, por exemplo. Elas não fingiam estar interessadas: aquilo era melhor que mágica; era ciência.

Marejados ficam meus olhos ao tomar consciência da amplitude que talvez um simples ato meu, alguém que também pretende se tornar um cientista, talvez tenha tido na vida de uma daquelas crianças. Pude falar de astrobiologia, heliofísica, astronomia, cosmologia e um mínimo de medicina espacial, dentro do pouco que conheço destes assuntos. Houve um entendimento melhor do que muitas audiências minhas de ensino médio.

Ao final, me entregaram duas sacolas: cada criança havia levado alguma coisa para mim como chocolates, frutas, aquelas guloseimas que eu sempre quis comer mas nunca tinha tido a oportunidade e até uma camiseta. E uma cartinha agradecendo a visita, assinada por todos. Emocionante.

Quando a apresentação terminou, pediram para que eu assinasse seus cadernos. Pode parecer bobo, mas eu vi o quanto aquilo significava para elas.

Então, antes de assinar, perguntei uma a uma:

- O que você quer ser quando crescer?

E a maioria respondeu:

- Quero ser cientista.

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