OPINIÃO
26/08/2014 16:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

O dia em que provei que micro-ondas não vão matar você

1058 mudas de Rúcula e Chicória. 60 pés de flores. 60 pés de feijão. Uma incrível horta para um experimento incomum. E os resultados foram interessantíssimos!

Fuse via Getty Images

1058 mudas de rúcula e chicória. 60 pés de flores. 60 pés de feijão. Uma incrível horta para um experimento incomum.

Tudo começou com meu fascínio por aquele aparelho mágico: você coloca o que você quer aquecer, digita um tempo e miraculosamente o alimento é aquecido.

Esse tal de forno de micro-ondas é fonte de mistérios e conspirações. Um deles, clássico, é de que a forma com que ele aquece os alimentos muda suas características físico-químicas e consequentemente gerando problemas de saúde. E esse tipo de informação é compartilhada sem critério nas redes sociais.

Mas será que isso é verdade? Poderia esse milagre da tecnologia causar problemas?

Mão na massa - ou melhor, na salada

Decidi fazer algo simples porém relevante: plantar uma não-tão-pequena horta e separá-la em grupos, cada grupo recebendo um tipo diferente de água: uma de torneira, uma mineral, uma aquecida no micro-ondas e a última aquecida no forno à gás. Quatro grupos, quatro tipos de água.

Escolhi dois tipos de flores: Torenia fournieri (Torênia) e Cuphea gracilis (Cufeia); duas saladas: Eruca sativa (Rúcula) e Cichorium endívia (Chicória) e pés de feijão comum.

Depois de preparar e etiquetar todas as plantinhas, fiquei durante 3 semanas fotografando e pesando cada espécime para uma análise estatística posterior. Meu objetivo era descobrir qual grupo cresceria melhor. Detalhe: era um experimento "cego", onde eu não sabia inicialmente o que cada grupo estava recebendo - assim minha análise não seria tendenciosa.

Regadas duas vezes ao dia, as plantinhas curtiram o tratamento VIP que estavam recebendo. Anotei o peso (biomassa) de cada exemplar diariamente para depois comparar. E os resultados foram interessantíssimos!

Mudou o pH, e agora?

Comecei a perceber depois de 15 dias que dois grupos estavam visivelmente mais vistosos e bonitos, maiores e melhor hidratados, enquanto os outros dois definhavam ou cresciam menos. Eu tinha me certificado de usar exatamente a mesma terra e quantidade de água em cada plantinha. O que estaria acontecendo?

Paralelamente, comecei a fazer experimentos com a água. Utilizando um pHmetro, aparelho que mede a acidez de uma solução, percebi que a água aquecida no micro-ondas realmente sofria alterações! Ela ficava menos ácida após ser aquecida.

O que poderia ser alarmante foi tranquilizado com um segundo teste: a comparação com a água aquecida no fogão. Toda vez que ela era aquecida, independentemente do modo com que isso era feito, ela ficava menos ácida. Isso acontece pois ocorrem processos químicos com os sais dissolvidos na água que evaporam e levam a parte "ácida" embora.

Tanto a água de torneira quando a mineral tinham um pH de 6,0 ±0.1 (mais ácida). A do micro-ondas e fogão tinha 6,8 ±0.1 (mais básica). Ou seja, qualquer efeito devido ao pH deveria ocorrer em um dos pares mais ácidos ou mais básicos.

Se você se interessar por ver uma explicação um pouco mais técnica, veja mais detalhes aqui.

Ou seja: quem pode mudar as características da água é o aquecimento em si, e não a forma de aquecer! Por enquanto o forno de micro-ondas foi inocentado. Vamos ver como essa história termina:

"O Resultado Final" ou "A Salada Mais Épica"

Ao final das 3 semanas de testes, resolvi comparar a evolução do peso de cada grupo de plantas Torenia e Cufeia. Veja você mesmo:

Para fazer esse gráfico, calculei a média aritmética de cada um dos 4 grupos no início e no fim do experimento. A biomassa inicial, em azul; biomassa final, em laranja; variação em porcentagem em amarelo. As medidas de massa estão em gramas.

Em suma, todas as plantas sentiram a diferença de acidez entre as águas aquecidas ou não, sendo que nas flores o efeito foi mais visível. A média de crescimento foi de 7% para a água de torneira e 17% para as aquecidas (fogão e micro-ondas). Curiosamente, as plantas que receberam água mineral não cresceram, meramente subsistiram na mesma condição que haviam começado o experimento.

Por mais incrível que pareça, as plantas que melhor se desenvolveram foram as que receberam água de micro-ondas, por uma pequena vantagem em relação a aquecida no fogão à gás. As piores, mineral. A diferença se deu porque as espécies de plantas utilizadas preferem uma água mais neutra - menos ácida - que são as aquecidas.

O experimento foi um sucesso, agora é hora de comer isso tudo. Ciência realmente é uma atividade saudável.

Plantei salada, mas colhi ciência; que venha o próximo mito!

Veja mais algumas fotos:

Galeria de Fotos 5 APPs para economizar água Veja Fotos