OPINIÃO
03/03/2015 19:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Jazz não era coisa para a mesa do jantar

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Uma coisa engraçada aconteceu no caminho da "escola", e a "hora do jantar" ficou muito esquisita. Explico. Quando nasci, em 1949, a academia musical americana prestava pouca atenção no jazz como uma empreitada intelectual. Na verdade, havia uma hostilidade clara dos departamentos de música clássica em relação ao gênero. Só recentemente os Estados Unidos começaram a levar a sério o intelecto afro-americano. Gente como Michael Eric Dyson, Henry Louis Gates e Maya Angelou; dramaturgos como August Wilson; o presidente Barack Obama, claro; e muitos outros, de disciplinas como ciências, negócios, tecnologia e artes. A inovação e o intelecto afro-americanos não podem mais ser ignorados.

Mas quero falar um pouco de jazz, porque no começo, quase cem anos atrás, muitos gigantes da música clássica reconheciam o jazz como uma enorme empreitada intelectual. Mas, uma vez puxado para dentro do mundo acadêmico, sem seus criadores negros, houve uma tentativa de destilá-lo para o que era essencialmente uma série de fórmulas musicais eurocêntricas. Coisas assim foram desastrosas para o ensino do jazz e resultara numa geração de músicos de jazz medíocres.

Foi o que aconteceu quando fomos para as "escolas de música" americanas dos anos 1950. Foi um golpe duríssimo, algo que só recentemente começou a mudar. Mas, na minha opinião, não era nada comparado ao que havia na "hora do jantar". Quando os restaurateurs brancos finalmente decidiram tirar o jazz do Harlem, numa tentativa equivocada mas bem sucedida de conseguir o dinheiro dos turistas do centro da cidade, as coisas realmente mudaram. O jazz não era coisa para a mesa de jantar nem para o palco. Era para dançar. Os negros dançavam jazz - todo tipo de jazz. Foi por isso que fomos parar no rádio e no cinema. Mas isso acabou com o advento da televisão. TV tem tudo a ver com apresentação. Acho que ninguém se deu conta na época, mas fechar as pistas de dança foi o beijo da morte para o jazz em termos de valor de entretenimento.

As primeiras vítimas foram os próprios negros. Eles diziam que, se não era para dançar, melhor procurar outro lugar. Eles se jogaram no rock and roll e no R&B - e nunca mais voltaram.

Duke Ellington, The Dorsey Brothers, Louis Armstrong, Cab Calloway, Benny Goodman, Ella Fitzgerald - todos eram entertainers. Tinham um visual. A música tinha um rosto. Era entretenimento, mas intelectualmente estimulante, ao mesmo tempo. Quando fomos para a escola, quando entramos para a turma do restaurante, ficamos chatos. Não éramos mais divertidos. Sim, há quem ache ginástica e virtude intelectual divertido, mas é uma minoria. Não é a diversão para o dia de folga, para curtição.

Não estou falando de sermos palhaços. Só deixamos de ter estilos individuais. Deixamos de parecer fabulosos; paramos de projetar nossas verdadeiras personalidades para além das notas que saíam dos nossos instrumentos. Permitimos que nossas apresentações se tornasse tão humildes, tão magras, que as pessoas pararam de prestar atenção.

Todos os outros gêneros têm seus jeitos de empolgar. Mas todos os entertainers têm algumas ferramentas em comum - iluminação, encenação, ótimo som e, acima de tudo, personalidade. Já chegamos muito longe em termos de substância, mas nós músicos de jazz temos de entrar nos trilhos de novo.

Se incluirmos apenas alguns ingredientes do resto do mundo do entretenimento, as pessoas vão voltar a achar o jazz divertido. Se milhões não amassem a música hoje, não haveria o que chamamos de catálogo, e meu pai, Thelonious Sphere Monk, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Miles Davis, Dave Brubeck, John Coltrane, Buddy Rich e tantos outros teriam desaparecido. Não teríamos um show do Dia Internacional do Jazz transmitido por streaming para 1,2 bilhão de pessoas em 2013 e 2,5 bilhões em 2014. Nada disso seria possível se não houvesse esse amor inerente à música, ironicamente por parte dos americanos. Muitas vezes amamos a nós mesmos e não o sabemos.

Então digo a todos os meus amigos do jazz - músicos, promotores, donos de clubes, ouvintes, todo mundo: vamos trazer a diversão de volta. Vamos apostar alto. Isso vai chamar a atenção, e o dinheiro vai vir na sequência.

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Thelonious Sphere Monk III (T.S. Monk) é um baterista de jazz internacionalmente reconhecido, compositor, líder de banda, vocalista e educador de artes. Filho e herdeiro musical de seu pai, o lendário compositor e pianista de jazz Thelonious Monk, ele é co-fundador e presidente do conselho do Thelonious Monk Institute of Jazz.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.