OPINIÃO
03/10/2014 08:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Um ataque sem precedentes

Halfdark via Getty Images

Estejamos preparados. Em um futuro muito mais próximo do que imaginamos, seremos atacados por uma "bomba". E ela não virá de nenhum outro país. É uma "bomba" criada por nós mesmos. E, pra piorar, não temos a menor idéia de seu potencial destrutivo. Nesta "magnitude", ela é totalmente inédita para grande parte da população.

A humanidade sempre tratou a água como um recurso inesgotável. Na verdade, alguns povos conhecem bem a dor da falta d' água. Mas não estamos nesta lista. Claro que grandes cidades brasileiras sofrem racionamento há muito tempo. O abastecimento público é um problema antigo no país. Mas a maior metrópole do Brasil provavelmente nunca enfrentou o que está prestes a acontecer.

Se um dia alguém virou pra você e disse: "Essa fartura uma hora vai acabar..." Acredite. Acabou.

E, a partir de agora, a corrida é a mesma para se estancar um grande ferimento. A cada segundo, milhões de litros de água são desperdiçados ou gastos sem o menor controle. E quando acabar, meu amigo e minha amiga, acabou mesmo.

Na realidade, o uso do volume chamado "morto" não deveria nem ser cogitado. Um estudo de pesquisadores da Unicamp indica que a utilização desta água, além de concentrar números assustadores de poluentes e metais pesados, causar mudanças na biodiversidade que custarão caro mais para a frente e outros tantos problemas graves, tem um prazo de validade muito curto. Ou seja, estamos acabando com o que já nem deveria existir.

Em algumas cidades de Minas Gerais e do interior de São Paulo o racionamento começou faz tempo. A queda acelerada da vazão dos mananciais ligou o alerta vermelho nas companhias de água. Técnicos e especialistas indicaram um período "hidroclimático" jamais visto por essa geração. Sem dúvida, a maior crise hídrica da nossa história -- no Sudeste do país, pelo menos. Para eles, a situação tende a ficar mais crítica. Desta forma, milhares de pessoas já estão enfrentando o rodízio de água. Há locais onde o racionamento já chega a 48 horas de duração. Alguns consumidores garantem que este tempo é muito maior. As empresas negam. Por enquanto.

Diante de tudo isso, a postura de quem pode "desacelerar" este relógio na maior cidade do país é digna de insanidade. A poucos dias de uma eleição, o anuncio de um plano emergencial no abastecimento envolvendo, no mínimo, cortes momentâneos e cobranças elevadas na água consumida em excesso, seria para derrubar qualquer favoritismo eleitoral. O problema é que a salvação de um colapso eminente deveria ser mais importante que qualquer ego político. Só assim garantiríamos o maior bem que temos. Pelo menos por mais um tempo.

O Governo Federal já notificou o Estado de SP sobre a demora para se colocar em prática um plano de emergência na redução do consumo. Para a Agência Nacional de Águas (ANA), o sucessivo adiamento desta operação dificultará o necessário ajuste entre as disponibilidades e demandas por água. Ou seja, o famoso "vamos ganhar tempo" já está em campo.

Só que cada segundo desta partida significa uma quantidade imensurável de água despejada por dia. Água potável. Essa mesma. Considerada por muitos países o "ouro do novo século".

Se o erro foi de décadas atrás, postura omissa de antigos governantes, educação deficitária, gente demais ou uma série de outras questões, isso pouco importa agora. A contagem regressiva para a explosão desta "bomba" já foi iniciada e, neste momento, um colapso de dar inveja a qualquer roteirista de filme hollywoodiano especialista em tragédia está a caminho.

Ironias à parte, já que situações preocupantes dispensam brincadeiras, alguém precisa parar este relógio. Parar não, porque isso é impossível. Mas é preciso diminuir a velocidade dele já. Agora. Segundos são litros, e litros são a sua nova garantia de vida. Essa brincadeira de puxar o pino da granada com o que temos de mais importante precisa parar. E pra ontem.

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