OPINIÃO
14/10/2014 11:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Apenas um humorista

Millôr a todo instante está nos posicionando, direcionando e induzindo para determinadas leituras. Ele se coloca como personagem e nos diz como devemos entender o que ele escreve.

reprodução

A cultura popular na Idade Média e no Renascimento - o contexto de François Rabelais, de Bakhtin, é um livro decisivo para todos os que estudam ou se interessam por cultura popular; é um livro obrigatório para quem pesquisa o humor. Segundo o crítico russo, durante toda a Idade Média, a forma predominante de cultura popular foi organizada em torno do carnaval e do riso. Uma forma de rir radical, redentora, construtora do novo, sublime; e ameaçadora para os que detêm o poder. Esse riso muito peculiar deu o toque de originalidade à obra de Rabelais e depois disso foi gradualmente desaparecendo. Em sociedades diferenciadas, rigidamente estratificadas e sujeitas ao olhar do poder em seus mais ínfimos recantos, o riso rabelaisiano não seria mais possível. Revolução burguesa, cânone iluminista (que, aliás, rebaixou o humor definitivamente a uma categoria menor de arte), sociedade de consumo e de massa impediram que essa forma radical de riso surgisse novamente. Restou a nós, os modernos, o riso amargo da ironia e do sarcasmo. Um riso que apenas destrói.

2.

Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de agosto de 1923. Carioca do Méier, perdeu o pai aos dois anos de idade e a mãe aos doze. Obrigado a morar com os tios maternos e quatro primos, sentiu todo o desamparo de se ver privado do convívio de sua família nuclear. Privação afetiva e material. Já adulto, olhando retrospectivamente sua infância, afirmou que adquirira desde muito cedo certa "paz da descrença". Isso se deve não apenas ao fato de o mundo ter se mostrado tão injusto e sem sentido a uma criança, mas também por conta de o jovem Millôr ter sido criado sem algumas típicas obrigações impostas às crianças daquela época, como a educação religiosa centrada na participação em diversos rituais na Igreja. Essa paz da descrença irá se manifestar reiteradamente, seja em entrevistas ou em sua obra, em absoluta rejeição: a qualquer interferência divina na vida dos homens, a qualquer discurso transcendente e, de forma mais ampla (e algumas vezes velada), a toda forma de poder. Portanto, em sua infância estão algumas chaves preciosas para a compreensão de muitos de seus desenvolvimentos (e impasses) futuros.

3.

Como todo jovem oriundo da pequena burguesia, começou a trabalhar cedo, aos quinze anos, como contínuo em um consultório médico e na então pequena revista O Cruzeiro, do poderoso grupo dos Diários Associados. Ainda em 1938 iniciou seus estudos no Liceu de Artes e Ofícios.

Até 1963 trabalhará para diversas revistas do grupo. Mas é em O Cruzeiro que fará fama nacional. Sua subida dentro do grupo é meteórica. Aos vinte anos já era dono do maior salário da imprensa. Fruto inquestionável de seu talento. Mas também de sua relação de amizade profunda, desde os primeiros dias no grupo, com Frederico Chateaubriand, sobrinho de Assis, o mítico Chatô. Precisar o quanto essa amizade favoreceu sua carreira seria irresponsabilidade. Mas ignorar essa relação, principalmente no caso brasileiro, em que o espaço público, teoricamente o local das relações impessoais, é de forma abrangente contaminado pelas relações de favor, seria omitir um fato relevante para a construção deste perfil.

Sem dúvida, por conta dessa acolhida de cunho bastante pessoal que recebeu no maior grupo de comunicação do Brasil da época, o golpe da demissão sumária - em 1963 - sem direito a resposta deve ter sido sentido de forma violenta. Perdera sua "família" pela segunda vez. A demissão fora motivada pela reação dos leitores de O Cruzeiro contra a historieta A verdadeira história do paraíso. Nela, Millôr atacava o poder divino com muita ironia. Mas foi o poder terreno (o conservadorismo da sociedade brasileira) que lhe deixou sem emprego.

Quando em 1964 decide criar um jornal independente que leva o mesmo nome de sua famosa seção na revista O Cruzeiro, Pif-Paf, vemos aí certo desejo de vingança dos antigos patrões. O jornal não passou de oito edições. Apesar do fracasso empresarial, esse pequeno pasquim pode ser considerado o germe de parte da imprensa alternativa que surgirá no período posterior à promulgação do AI-5, em dezembro de 1968.

E é em 1968 que Millôr inicia sua contribuição com a revista Veja, do grupo Abril de São Paulo. Nessa época sua fama já era nacional, daí ter sido escolhido para semanalmente criar as páginas humorísticas daquela que seria a grande aposta do grupo para substituir a já incômoda revista Realidade. A aposta funcionou. Veja se tornou a mais importante revista semanal do país, catalisando os anseios e receios de boa parte da burguesia urbana brasileira, e a fama de Millôr aumentou exponencialmente durante os quatorze anos de colaboração.

Em 1969 Millôr participou do grupo criador de O Pasquim. Durante todo o período em que esteve na semanal da Abril, colaborou com o jornal alternativo carioca. Manteve assim um pé na imprensa convencional e outro na alternativa. Um equilíbrio difícil.

Se olharmos sua trajetória a partir da orfandade até a década de 1970, podemos enxergar um caso típico de um outsider (até quando o exílio será a forma privilegiada de se entender o Brasil?) que em alguns momentos se vê muito próximo do grupo de estabelecidos, mas nunca é totalmente aceito. Millôr afirmará em sucessivas entrevistas, explícita ou tacitamente, seu horror ao poder. Acreditamos que muito desse sentimento venha justamente de sua tensa relação com o grupo de estabelecidos com o qual interagiu diretamente.

A experiência como empresário durante a criação de seu Pif-Paf lhe mostrou a necessidade de estar na imprensa convencional para conseguir produzir seu trabalho. Mas a consciência de ser mais capaz do que o grupo que detém o poder nunca o deixou em paz. Diversas de suas demissões e rompimentos se deram de forma violenta. Podemos ver em sua trajetória profissional, sempre em grandes grupos, mas flertando com a contracultura dos jornais alternativos, a relação tensa e ambígua do outsider que sabe que precisa da aprovação e do apoio dos estabelecidos, mas entende que esse apoio exige certa adequação ao gosto dos patrões.

Se não fossem o bastante todos os conflitos gerados por sua personalidade e posição na sociedade, é da natureza do humorista sabotar qualquer discurso coerente, até mesmo quando põe em risco seu próprio emprego. O humorista é um outsider por natureza. E por diversas vezes Millôr pagou caro por ser quem era e pelas escolhas que havia tomado.

5.

Se procurarmos mais sobre a personalidade de Millôr em sua obra, nos depararemos com uma armadilha. Há uma peculiaridade do discurso humorístico milloriano (e talvez a grande armadilha aos seus intérpretes): a metalinguagem, ou, a metapiada, se preferirmos. Peculiaridade já que estranha à obra de outros humoristas famosos. Millôr a todo instante está nos posicionando, direcionando e induzindo para determinadas leituras. Ele se coloca como personagem e nos diz como devemos entender o que ele escreve. E isso, vindo de um humorista, nem sempre é confiável. Na primeira edição da revista independente Pif-Paf Millôr escreveu o famoso decálogo do humorista para orientar seus leitores. Eis aqui um trecho: "Humorismo não tem nada a ver e não deve absolutamente ser confundido com a sórdida campanha do Sorria Sempre. Essa campanha é anti-humorística por natureza, revela um conformismo primário, incompatível com a alta dignidade do humorista. Quem sorri sempre ou é um idiota total ou tem a dentadura mal ajustada". Analisar Millôr Fernandes é participar de um jogo cheio de escaramuças.

6.

A obra de Millôr é múltipla: poemas, haicais, aforismos, fábulas, desenhos, peças teatrais e traduções. Ele dizia sobre si mesmo: "enfim um escritor sem estilo!". A ideia pegou de tal forma, que aceitamos (mais uma de suas armadilhas?) essa afirmação sem a devida atenção e questionamento.

Se a ética de uma obra está em sua forma (no estilo), o que significa um artista sem estilo? Uma obra sem centro? Justamente nessa ideia pode estar uma pista valiosa para encontrarmos um pouco mais do homem por detrás da obra.

Millôr não foi um artista sem estilo, mas, sim, um artista de muitos estilos. Figura ímpar no cenário das artes brasileiras, dominou com precisão diversas técnicas. Todas elas capazes de amplificar as formas populares de comunicação (como o fez Rabelais?). O humor milloriano, dessa maneira, imortaliza em páginas impressas aquilo que é efêmero: a cultura popular mais cotidiana, a cola que une cidadãos comuns ao fluxo da história.

Para dar conta desse projeto, para ressoar a invenção contínua e rarefeita do cotidiano em formas elaboradas de arte, Millôr procurou sempre a forma que a mensagem pedia. Encontrou várias. Fez assim uma obra distante do cânone e do discurso oficial-pedagógico.

Estudar a obra de Millôr é um caminho privilegiado para se encontrar formas de pensar do brasileiro. Talvez essa seja uma chave preciosa para organizar em um todo as múltiplas facetas de um autor com muito estilo.

7.

Millôr morreu aos 88 anos de idade, no dia 27 de abril de 2012, devido à falência múltipla dos órgãos e parada cardíaca.

A repercussão foi enorme. Até mesmo a presidenta da república, Dilma Rousseff, se manifestou: "Brilhante jornalista, com a mesma maestria tornou-se escritor, cartunista e dramaturgo. Autodidata, traduziu para o português dezenas de obras teatrais clássicas. Atuou em diversos veículos de comunicação, além de ter sido fundador de publicações alternativas". Importantes jornalistas, críticos, diretores teatrais e políticos também exaltaram a destreza multifacetada de Millôr, bem resumida na nota oficial presidencial. Não faltou quem o chamasse de filósofo, frasista genial, grande pensador e até mesmo Deus (doce ironia o homem da paz da descrença se tornar Deus após a morte). Se os elogios nesse momento de comoção raramente podem ser contestados, acreditamos que podem ser complementados com uma das tantas definições que Millôr fez de si próprio: "sou apenas um humorista". Millôr sabia tudo o que está em jogo para aquele que faz o salto de fé no humorismo.

8.

Os destroços do riso medieval continuam, aqui e ali, passando por nós. Muitas vezes despercebidos. Robert Darnton encontrou ecos dessa forma de riso em um macabro ritual de assassinato de gatos durante o século XVIII francês.

Millôr Fernandes se auto-intitulava o criador do frescobol. Um jogo praticado entre duas pessoas com raquetes e uma bola de borracha. Sem quadra ou juiz. Não há tampouco contagem de pontos. Não há vencedor ou perdedor, campeonatos, rankings, premiações ou troféus.

Se olharmos com atenção, vemos aí também os destroços do riso rabelaisiano. Perdido para sempre em todo o seu esplendor, mas ainda sublime em suas raras aparições.

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