OPINIÃO
03/04/2015 10:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Mortes no Complexo do Alemão mostram que a política de repressão fracassou

No vídeo que mostra a mãe desesperada gritando pelo filho e moradores chamando os policiais de "covardes" fica claro o acuamento dos agentes e a falência do sistema puramente repressor. Violência do Estado não é só o policial que mata inocentes, este é a ponta final de uma cadeia de violências cometidas pelo Estado.

FÁBIO GONÇALVES/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Nos dias 1 e 2 de abril de 2015, o Rio de Janeiro mostrou ao País inteiro que o futuro da sociedade brasileira está aniquilado pelo Estado. O estado do Rio de Janeiro, por meio de sua política de repressão torpe e sem qualquer estrutura pública mínima, como saneamento básico, educação infantil e as coisas óbvias de qualquer civilização decente, tem conseguido nos mostrar dia-a-dia sua incapacidade de nos garantir esperança e confiança nos poderes públicos.

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As mortes da profissional de uma creche infantil, Elizabeth Alves, 41, por bala achada e de Eduardo Ferreira de dez anos (ainda não explicada), ambas no Complexo do Alemão, são mais do que uma rotina. São símbolos da inexistência de República e, consequentemente, de futuro. Uma trabalhadora de creche e uma criança.

Alguém pode até dizer que o menino foi baleado por bandidos. Mesmo que tenha sido, a culpa é de quem iniciou a operação: a PMERJ, que o fez sem encontrar alguma forma de agir protegendo o máximo possível a população honesta e trabalhadora do bairro - a maioria. Se foram ataques às UPPs, é um problema de planejamento. Nunca imaginaram que isso poderia acontecer?

Desenvolveram alguma estratégia?

Se o secretário José Mariano Beltrame tiver um mínimo de autocrítica, bem como o governador Pezão, vão ter a decência de reconhecer que a política de Estado deles fracassou. E se isso aqui fosse uma nação séria, poriam seus cargos na roda, ou seriam responsabilizados pelos órgãos competentes. Se a PMERJ tiver um mínimo de seriedade deveria pedir à sociedade, e principalmente a esta e outras famílias vitimizadas, desculpas e investigar esta operação imparcialmente. Se o Ministério Público do Estado existir, também investigará. Se no Executivo e no Legislativo houver alguma liderança, pressionará.

E se essa sociedade que tem acesso a informação tiver um mínimo de sensibilidade, perceberá que brigar contra a criminalidade é também não aceitar o fato de, em pleno século XXI, 34% das grandes cidades brasileiras não terem um Plano Municipal de Saneamento Básico. De 66 municípios grandes que apresentaram em 2014, apenas 12 atenderam inteiramente às exigências da legislação. E o País se gaba por figurar entre as dez primeiras economias da Terra.

Bandido é bandido é como tal deve ser punido, e concordar com isso não anula a legitimidade do questionamento do método e do sistema de repressão. Dar auto-estima a estas pessoas através de serviços humanos básicos é método eficaz de repressão à violência. Quem é capaz de fazer contas e administrar negócio, seja ele de drogas ou de doces, deve ter alguma serventia ao País, mais do que ficar trancafiado gerando despesas e mais violência.

As mortes da educação e do futuro, emblemáticas nestes casos mas nunca carentes em símbolos no cotidiano, junto ao fato de a sociedade que um dia aplaudiu, hoje apedrejar a UPP, formam um triângulo que precisa ser analisado com seriedade e visão estadista. É um recado para o Estado de que é possível apoiá-lo, mas só se ele apoiar a sociedade.

No vídeo (rodando pelas redes sociais) que mostra a mãe desesperada gritando pelo filho e moradores chamando os policiais de "covardes" fica claro o acuamento dos agentes e a falência do sistema puramente repressor. Violência do Estado não é só o policial que mata inocentes, este é a ponta final de uma cadeia de violências cometidas pelo Estado.

Se quisermos ter leis de primeiro mundo, como diminuição de maioridade penal - inclusive repensada e discutida nesses países - precisamos ter um sistema de primeiro mundo. E num sistema de primeiro mundo, o saneamento básico é universal e o cárcere como repressão começa a ser repensado. A educação é vista e executada como avanço e não como marketing institucional de governo. A sociedade brasileira não pode deixar a dignidade apenas na mão da força repressora.

A morte da educação e da infância às vésperas de uma data religiosa ligada a amor e união nos revela muito mais do que falta de leis: nos revela omissão de poder público. E desrespeito à dignidade - que deveria ser garantida conforme escrito na Carta Magna que rege esta sociedade.

Sem regente.