OPINIÃO
08/06/2015 16:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

A competição política sempre grita mais alto que as problemáticas sociais

Mas não se pode esperar autocrítica num País onde, de seis milhões de estudantes, apenas 250 conseguiram um texto bem desenvolvido no ENEM 2014. Enquanto não resolver a formação dos jovens e da cidadania, valorizando a cultura da terra brasileira, continuaremos vivendo num país que qualquer número impressiona e qualquer discurso, mesmo sem sentido, pode fazer sucesso através de uma propaganda multimilionária.

FÉLIX R. /FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Cinco meses depois da infeliz declaração do governador da Bahia, Rui Costa, comparando o trabalho dos policiais na periferia da capital ao de um artilheiro de cara para o gol, percebe-se o quão danoso o nós contra eles tornou-se para o país. A letargia dos que se colocam como esquerda petista em retaliar um governador que apoia uma ação de chacina, majoritariamente por ele estar no partido de afinidade, mostra o quão a chamada indignação seletiva está por toda parte e corrói o país.

As redes sociais se encheram de declarações contra as instituições policiais. Teses imensas sobre extinção da Polícia Militar foram escritas. Mas porque o governador que afirmou que não haveria punição aos executores da ação, e dos jovens, foi poupado? O partido, que muitos acreditam ser ilibado e dizem ser vitima da mídia golpista e do PMDB, não se posicionou. O ministro da Defesa, Jaques Wagner, governador que fez a Bahia o saltar no ranking anual de morte por arma de fogo do 15º para o 4º lugar, também nada pronunciou sobre a ação do colega. O Partido deixou por isso mesmo. E cadê a esquerda petista?

No Paraná, Beto Richa do PSDB cometeu truculência criminosa aos professores. O partido também se calou, e achou normal a falta de diálogo e a manobra tentada pelo governador para cobrir sua irresponsabilidade fiscal. Lembramos que o governo federal cometeu a mesma irresponsabilidade fiscal, vide o ajuste. Ainda assim, a esquerda petista associa a crise e sua crítica a golpismo direitista.

No caso Richa, os puritanos anti-corrupção bolaram uma espécie de Plano Cohen para jogar a culpa no PT, o suposto provocador do espancamento. Assim, eximem o Estado de qualquer responsabilidade por uma estratégia inteligente, desvalorizam os professores e mantêm o imperador achando que pode tudo em seu Estado. Cadê o partido? Da esquerda petista, rodaram mais pedidos de derrubada do governador, aceitável, do que discussões, mais algumas, sobre a situação dos magistrados no país. A competição política sempre grita mais alto que as problemáticas sociais.

O Fla-Flu político continua em todo território nacional, dividindo o Brasil entre os que irão pro céu por bater panela contra a corrupção e os que estufam o peito para se afirmar de esquerda - atualmente o bilhete mais expresso para o paraíso; principalmente entre os jovens.

Mas não se pode esperar autocrítica num País onde, de seis milhões de estudantes, apenas 250 conseguiram um texto bem desenvolvido no ENEM 2014. Enquanto não resolver a formação dos jovens e da cidadania, valorizando a cultura da terra brasileira, continuaremos vivendo num país que qualquer número impressiona e qualquer discurso, mesmo sem sentido, pode fazer sucesso através de uma propaganda multimilionária.

É claro que não é interesse nem de um nem de outro modificar estes números, precisam manter os seguidores vociferando contra a corrupção e achando normal um espancamento de professores, e os santos da grife "sou esquerda" seguem sua procissão acreditando na inocência de um governador cuja polícia assassina 13 (um número até irônico) jovens numa periferia baiana. Irracionalmente divididos, dissolvemos o país.