OPINIÃO
12/11/2015 12:16 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Bento Rodrigues em Ruínas

A responsabilidade não é somente da Samarco, mas principalmente de suas principais acionistas, Vale e BHP Billiton, duas das maiores mineradoras do mundo.

MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO CONTEÚDO

Por volta do ano de 1697, chega à região das Minas um bandeirante paulista, tomado pela febre do ouro, determinado a achar o precioso metal. Achou e, em seguida, fundou um povoado, o qual batizou com seu próprio nome... Bento Rodrigues.

Assim começou a história de uma pequena e pacata cidade do interior de Minas Gerais, contando com aproximadamente 600 habitantes, distribuídos em cerca de 200 casas.

O distrito da cidade mineira de Mariana foi um importante centro de mineração no século XVIII e fazia parte também do caminho da Estrada Real, que o ligava aos distritos de Santa Rita Durão e Camargos.

Esse pacato distrito foi recentemente destruído pela ganância.

Onde antes havia residências, hoje se tem ruínas cobertas por lama.

Onde antes havia uma pracinha, hoje nada se vê.

Onde antes se viam pessoas felizes, sorrindo a todo momento, hoje há visões de dor e sofrimento.

Onde antes se via uma pequena cidade, hoje, nada mais se vê além da destruição.

A mineradora Samarco vinha desde 2007 descumprindo condicionantes de segurança, como pode ser visto neste laudo de 2013.

Na quinta-feira (5), o rompimento de duas barragens pertencentes à Samarco provocou uma enxurrada da lama, que veio a inundar várias casas no distrito de Bento Rodrigues.

Mobilização

Tão logo foi noticiado o rompimento, moradores das cidades de Ouro Preto e Mariana se mobilizaram em um ato lindo de solidariedade.

Em questão de poucas horas, o Centro de Convenções de Mariana estava repleto de pessoas levando suas doações para as vítimas do rompimento.

Já no dia seguinte, pessoas de outras cidades e estados procuraram se mobilizar para também mandarem suas doações. Em menos de dois dias, o Centro de Convenções tornou-se o principal local de entrega e triagem das doações, que em seguida iriam para a Arena Mariana, onde estavam temporariamente alojadas as famílias desabrigadas, até que a Samarco providenciasse a todas as famílias uma nova moradia.

Hoje, as famílias se encontram alojadas em hotéis e pousadas de Mariana, à espera de que a Samarco lhes providencie novas casas.

O Centro de Convenções de Mariana segue como ponto de coleta e triagem de doações, recebendo uma grande quantia de doações todos os dias.

Vale, Samarco, BHP Billiton e as responsabilidades

Por mais que alguns insistam em aplaudir a ação da mineradora, outros concordam que ela não está fazendo nada além do mínimo que poderia fazer. Porém, essa responsabilidade não é somente da Samarco, mas principalmente de suas principais acionistas, Vale e BHP Billiton.

O que aconteceu em Bento Rodrigues mostrou que duas das maiores mineradoras do mundo não estão aptas a administrarem barragens com as dimensões do Fundão e de Santarém.

Como as duas são diretamente responsáveis pela Samarco, devem responder igualmente pela negligência à população do distrito de Bento Rodrigues.

Não foi acidente

"Não foi acidente. Não foi fatalidade. O que houve foi um erro na operação e negligência no monitoramento", disse o promotor de Justiça do Meio Ambiente, Carlos Eduardo Ferreira Pinto, em entrevista à Folha de São Paulo.

Vale ressaltar que o laudo -- aqui já mencionado -- mostra o quão negligentes foram não só a Samarco, mas também a Vale e BHP, com relação às condicionantes para revalidação da licença de operação, visto que, mesmo tendo o Ministério Público exigido que fossem cumpridas, estas foram ignoradas pela empresa.

Entre os requisitos que deveriam ser observados, estão: a análise de ruptura da barragem e um plano de contingência em casos de riscos ou acidentes.

Porém, quem alertou os moradores de Bento Rodrigues sobre o "tsunami de lama" não foi a Samarco, como ela já disse que havia feito, mas sim, um funcionário da empresa, que ligou para o celular de uma moradora e esta, com sua moto, atravessou o povoado, alertando a todos sobre o rompimento da barragem, conforme contou uma das sobreviventes professora em uma escola do distrito de Mariana.

Não foi acidente. Foi negligência, foi ganância, foi total descaso!

Protesto nesta semana

Na terça-feira (10), cerca de 50 integrantes da ANEL (Assembleia Nacional dos Estudantes Livres) ocuparam a sede da Samarco, em Belo Horizonte, pedindo respostas em relação ao rompimento das barragens do Fundão e Santarém, em Bento Rodrigues.

Os manifestantes colocaram faixas em frente à sede da empresa. "Até agora a Samarco está se fazendo de vítima, no entanto, ela tem culpa no que aconteceu sim. Queremos que ela se responsabilize, pois se fala em quatro vítimas, mas tem muito mais com os que estão desaparecidos", afirmou Izabella Lourença, membro da ANEL.

Seis mortes foram confirmadas até o momento.

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