OPINIÃO
07/11/2014 21:38 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Reconciliação e tolerância: O que o Brasil pode aprender nos 25 anos da queda do Muro de Berlim

Tive o prazer de viver um curto período entre os berlinenses, em 2011. Todavia, o tempo foi suficiente para perceber que o processo de reconciliação e tolerância continua. O muro que dividiu famílias, destruiu sonhos e mudou a paisagem da cidade ainda ilude quem pensa que o processo está completo. Muito pelo contrário. E há lições que podem ser aproveitadas pelos brasileiros.

Thiago de Araujo/Brasil Post

"Um país sem memória, ou que não cultiva a recordação das coisas, está irremediavelmente condenado". A frase é do jornalista e escritor português Armando Baptista-Bastos e nos ajuda a correlacionar duas realidades neste fim de semana: a alemã e a brasileira.

Durante todo o fim de semana, todas as atenções do mundo estão voltadas para Berlim. Cidade de 3,5 milhões de habitantes, a capital alemã concentra as principais festividades dos 25 anos da queda do Muro de Berlim, obstáculo que dividiu uma nação por 29 anos.

Tive o prazer de viver um curto período entre os berlinenses, em 2011. Todavia, o tempo foi suficiente para perceber que o processo de reconciliação e tolerância continua. O muro que dividiu famílias, destruiu sonhos e mudou a paisagem da cidade ainda ilude quem pensa que o processo está completo. Muito pelo contrário.

Enquanto o muro esteve de pé, passar pelo Portão de Brandemburgo era impossível (Thiago de Araujo/Brasil Post)

Ainda hoje, Berlim vive em meio a um canteiro de obras. Desde a simples arquitetura singular do lado oriental, passando pelo comportamento mais progressista entre os berlinenses ocidentais, o olhar externo, do "ausländer" (estrangeiro), me permitiu sentir que as feridas estão cicatrizando, mas não podem ser ignoradas. Há muito por ser feito ainda.

"Eu tenho boas memórias de antes da queda do muro. Não era tão ruim quanto as pessoas gostam de proliferar por aí", me disse quando lá estive uma alemã que cresceu na região de Friedrichsfelde, do lado leste de Berlim. Não é incomum em outras cidades alemãs, como Leipzig e Dresden, ouvir de gente mais velha que "talvez fosse uma boa o muro ainda estar de pé hoje".

Mas não. O Muro de Berlim veio abaixo e se consolidou como o símbolo do fim da Guerra Fria. Não há como não ver isso como a mais positiva das ocorrências para uma nação maculada pelas atrocidades de um austríaco, o "Führer" nazista Adolf Hitler.

Trecho do muro ainda mantido, no Memorial localizado na Bernauer Straße (Thiago de Araujo/Brasil Post)

Além do desafio de curar velhas máculas, Berlim e a Alemanha possuem inúmeros desafios que podem ser relacionados ao muro. O fortalecimento do neonazismo nos últimos anos - capitalizado há alguns dias em uma ação violenta em Colônia - é talvez o maior deles. Não, a comunhão de um país que passou décadas dividido não tem como prerrogativa tolerar uma volta do fascismo.

E o que o Brasil tem a ver com tudo isso? O nosso país saiu de um acalorado processo eleitoral e, diante da manutenção do mesmo governo, viu a exaltação dos movimentos conservadores, muitos deles capitaneando demandas regressivas, como uma volta ao regime militar. Houve quem sugerisse um muro separando o Norte do Sul. Ou aquele que pregou a separação do Estado de São Paulo do restante do Brasil.

Se há uma imagem que define bem o que representou a queda do muro é esta, localizada na East Side Gallery (Thiago de Araujo/Brasil Post)

Reconciliação e tolerância. Berlim e todos os alemães continuam trabalhando sob essas duas bases, preservando trechos daquilo que não deve ser esquecido e que ajudará com que os traumas não sejam revisitados. Essas mesmas duas palavras servem aos brasileiros, ainda divididos por uma grande desigualdade social, e que não pode dar margem para excessos calcados no ódio.

Não se condene Brasil! Lembre-se da frase de Baptista-Bastos e se inspire nas celebrações pela queda do Muro de Berlim. "Ordnung und Fortschritt" (Ordem e Progresso) sempre.

LEIA TAMBÉM

- 25 anos da queda do Muro de Berlim: 25 imagens que mostram a cidade antes e depois (FOTOS)