OPINIÃO
01/09/2015 13:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

PM de SP dá o seu recado aos que esperam punições após chacina de Osasco: "Dos nossos, cuidamos nós"

MARCOS MORAES/BRAZIL PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

"Se alguém não cuida dos seus, e sobretudo dos da própria casa, renegou a fé e é pior do que um incrédulo".

A frase acima, escrita na Bíblia (Timóteo, capítulo 5, versículo 8), rege não só os ensinamentos cristãos. Não é exagero dizer que ela serviria para resumir muito bem o atual cenário das investigações da chacina em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, há 19 dias.

Em reportagem do jornal Folha de S. Paulo do último dia 27, a força-tarefa criada pelo secretário estadual se Segurança, Alexandre de Moraes, e pelo governador Geraldo Alckmin, acabou 'atropelada' pela Corregedoria da Polícia Militar. O motivo: dois pedidos de busca e apreensão contra 18 policiais e um segurança particular - todos suspeitos de terem participado da chacina do dia 13 de agosto, que matou 19 pessoas.

Embora Moraes e Alckmin sigam falando em 'esforço integrado' para esclarecer os assassinatos, a Corregedoria da PM já apreendeu objetos que podem ter relação com os crimes. Nunca é demais lembrar: no Brasil, investigação de crimes cabe à Polícia Civil. Aos policiais militares, cabe o serviço de ronda ostensiva e segurança pública.

"Eu temo que, ainda que se chegue (aos culpados), será muito frágil o conjunto probatório. Será que o conjunto probatório, daqui para frente, será suficiente para chegar à autoria? Será que vamos conseguir chegar à Justiça?", indagou à Folha a principal porta-voz dos delegados da Polícia Civil de São Paulo, Marilda Pansonato Pinheiro.

Diante dos fatos, a ONG Tortura Nunca mais deixou um alerta em sua página no Twitter.

Oficialmente, ninguém sabe os motivos da atitude da Corregedoria da PM - afinal, havia a suspeita, e não acusação formal, contra PMs por um possível envolvimento na chacina. A mesma corregedoria já foi acusada, em mais de uma ocasião, por "nada fazer contra abusos de PMs", de acordo com o ouvidor das Polícias de SP, Júlio Cesar Neves. Até professor estrangeiro denunciou o que chamou de 'vista grossa' interna.

Não seria a primeira nem a última série de assassinatos a ficar impune, seja lá quem forem os seus autores. Já escrevi anteriormente sobre a ascensão silenciosa dos que apoiam a volta dos esquadrões da morte ao cotidiano das grandes cidades. Pior do que isso: pode haver uma série de absolvições no caso de Osasco e Barueri, como alertou da delegada da Polícia Civil.

Não é incomum ouvir de policiais hoje na reserva, que ocupam postos políticos em Câmara Municipais, Assembleias Legislativas e o Congresso Nacional, de que "mataram dezenas", mas foram "sempre absolvidos" por inquéritos internos - em um jogo de cartas marcadas, no qual os seus investigadores eram os colegas de farda.

Não ao acaso, também, é saber que tais nomes costumam compor ou, no mínimo, confluem nos mesmos interesses de bancadas como a da Bala e a Evangélica nos legislativos País afora. Para esses grupos, discutir a desmilitarização das polícias e o fim dos autos de resistência é um verdadeiro tabu.

Como manda uma passagem bíblica, é preciso "cuidar dos seus". Para a PM de SP, parece que tal mandamento é regra. Infelizmente, 19 famílias da Grande SP não poderão fazer o mesmo.

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