OPINIÃO
24/08/2014 11:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

O fim da adolescência do Polaco e os black blocs

Paulo Leminski foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor brasileiro. Não seria exagero dizer que ele foi mais uma porção de coisas, inclusive um visionário. Só um visionário poderia escrever o poema que marcaria 70 anos como o fim da sua adolescência, algo tão conectado com aquele plano terreno que o Polaco deixou há um quarto de século, aos 44 anos.

Reprodução/Facebook

"quando eu tiver setenta anos

então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca

e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer

começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja

aproveitar as oportunidades

de virar um pilar da sociedade

e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência

quando acabar esta adolescência"

Paulo Leminski foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor brasileiro. Não seria exagero dizer que ele foi mais uma porção de coisas, inclusive um visionário. Só um visionário poderia escrever o poema acima, tão conectado com aquele plano terreno que o Polaco deixou há um quarto de século, aos 44 anos.

Leminski sabia que não viveria para ver o fim da própria adolescência. Como Raul Seixas, morreu em 1989. Como o Maluco Beleza, gostava de viver a vida no limite - o que o tornou refém do álcool, outro ponto que liga os dois poetas. O Polaco, contudo, não possui exatamente a mesma amplitude, e fora de Curitiba é até marginalizado.

Como curitibano, não chega a ser surpreendente, afinal, somos de um Estado nascido de uma das diversas revoltas republicanas do século 19 e que não tem todo esse reconhecimento sob o olhar distante daqueles rincões. Não tem problema. Dificilmente um ambiente que não fosse tão bucólico poderia ser mais inspirador ao Polaco e suas peripécias em vida.

Mas Leminski foi revisitado nos últimos anos e finalmente é reverenciado Brasil afora. Isso não o surpreenderia, certamente. Como disse, era um visionário. E, se ele estivesse vivo? Como estaria? O que pensaria? Esse País que temos posto, passados 25 anos, seria melhor ou pior do que aquele deixado pelo poeta?

Pessoalmente não sei. Pensei nisso em um voo entre Brasília e São Paulo, após cobrir uma agenda política. Lendo o excelente Minhas Lembranças de Leminski, do 'pé vermelho' Domingos Pellegrini, posso supor que pouco o nada o surpreenderia. Como disse e repito, era um visionário, uma espécie de "Mãe Dinah" travestida em boêmio, desses notórios (e por vezes) demonizados em uma 'terra de vampiros' (olá, Dalton Trevisan!).

Cruzando presente e passado, Leminski, o que você acha dessas manifestações que cruzaram o Brasil de norte a sul? E desses black blocs? "Bem, cara, eu nunca me enganei com revoluções. São bonitas, são empolgantes, mas, como são feitas por gente, logo viram monstros. Trotsky foi morto no México pela mesma revolução que queria instalar no mundo todo", comentaria. Plausível? Eu não tenho a menor dúvida.

O fim da adolescência pregada pelo Polaco para si mesmo não é o fim de coisa alguma. Não é o fim daquela verborragia iconoclasta ou daquelas visitas ao Largo da Ordem, palco de histórias, contos e encontros do poeta que hoje dá nome a uma pedreira que até Paul McCartney certa vez reverenciou. Ele não morreu. Como mitos, a cultura nunca morre.

Aos que venham a insistir em matá-lo, um recado do próprio: "(...) não vou morrer de tanto me matar, não, eu vou morrer de tanto viver!". Um brinde a você Leminski, curitibano como eu, singular e profético. Que o fim da adolescência desperte apenas aquilo que importa mesmo na vida: as experiências. Saúde!