OPINIÃO
13/02/2015 10:18 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02

No 'tucanato' do Paraná, o gigante adormecido resolveu mostrar que está vivo

Governador Beto Richa (PSDB) tentou passar 'a toque de caixa' o 'pacotaço', medida que previa realizar cortes contra o funcionalismo público e previdência do Estado. Acabou derrotado por aqueles que pagam o seu salário e dos demais parlamentares da sua ampla base: o povo. Em um 2015 que promete ser turbulento, as lições podem estar vindo do Estado que é dono da quinta economia do Brasil.

Montagem/Estadão Conteúdo e APP Sindicato

As Jornadas de Junho de 2013 provaram até para os mais descrentes de que a força popular pode sim fazer a diferença. Em São Paulo, houve recuo da tarifa. Em Brasília, parlamentares chegaram a se envergonhar de terem de encarar a realidade fora do Congresso Nacional. O tempo passou, as eleições fortaleceram o conservadorismo e o tal 'gigante' dos protestos, na visão da maioria, voltou a dormir.

Escrevi um texto no ano passado discordando do quão relativa era essa visão. O fato das eleições não terem trazido mudanças significativas nas urnas pode ser explicado de outras formas, então deixo a sugestão de leitura.

Voltando a 2015, o gigante ensaia sair do seu sono profundo, pelo menos perante aqueles que ainda duvidam do poder popular. Para os mais céticos: seria apenas sonambulismo dele ou uma crise de apneia? Em São Paulo e outros Estados, os protestos contra a tarifa do transporte público ensaiaram ser, mais uma vez, o carro-chefe das mobilizações, porém não conseguiram aglutinar os diversos setores da sociedade. A crise hídrica pode exercer esse papel com o início da estiagem, em abril. Mas o que quero exaltar foi o que rolou no Paraná.

Dono do quinto maior Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, o Estado viu a mobilização de diversas classes, encabeçada pela greve dos professores, forçar o governador Beto Richa (PSDB) e sua trupe na Assembleia Legislativa (Alep) a retirarem dois projetos que integram o chamado 'pacotaço', que, segundo o discurso oficial, visa cobrir uma série de rombos nas contas do governo. Para isso, os cortes recairiam sobre o funcionalismo público e a previdência estadual.

Com uma absoluta maioria na Alep - a base de Richa tem 48 dos 54 parlamentares -, o tucano tentou passar os projetos 'a toque de caixa'. Acabou derrotado na quebra de braço, ordenou que um secretário e o presidente da Assembleia retirassem os projetos.

O governador ainda apelou para justificar suas ações: culpou a economia brasileira pelas dificuldades do Paraná e chamou de 'baderneiros' aqueles que fizeram valer o seu direito de manifestação.

A ocupação da Alep foi a 'cereja do bolo'. E sim, como seu colega de partido em São Paulo Geraldo Alckmin, ele não perdeu tempo em lançar mão da Polícia Militar e sua costumeira repressão.

Os senadores Roberto Requião (PMDB) e Gleisi Hoffmann (PT), ambos derrotados por Richa nas eleições de 2014, não perderam a oportunidade de alfinetar a gestão do tucano. "Eu lamento muito essa situação. É uma desfaçatez que a oposição venha nesta Casa criticar o governo federal e não olhar o que os seus governadores estão fazendo nos estados", disse Gleisi, durante sessão no Senado nesta quinta-feira (12). Polêmico ao seu estilo, Requião preferiu o Twitter.

Aqui vale um aparte sobre Beto Richa. Quando deixei Curitiba, há cinco anos, confesso que minhas memórias sobre o tucano passavam pelo fato de ter sido vice-prefeito da cidade, depois prefeito, filho do ex-governador José Richa, e um entusiasta nas coisas boas da vida e algumas excentricidades, como a preocupação anual em mostrar suas habilidades de 'piloto', fosse nas 500 Milhas de Londrina, fosse em alguma prova no circuito de Pinhais (PR).

De lá para cá, pouco ou quase nada parece ter melhorado. Morador anterior do Palácio Iguaçu, Requião também não deixou saudades. O que me orgulhou certamente foi a mobilização popular, externada por muitos amigos (vários professores) paranaenses que foram às ruas, cobrar justamente aqueles que, creio que o governador tucano tenha esquecido, são pagos pelo povo e são funcionários do povo.

Apoio aos docentes, pelo menos nas redes sociais, não falta.

Os professores do Paraná, aliás, não realizavam uma mobilização de tamanha envergadura desde 1988, quando uma manifestação contra o governo estadual foi repelida com violência pela polícia, que se reportava ao então governador Álvaro Dias, hoje líder do PSDB no Senado.

Para quem não viu, a chegada de deputados dentro de um veículo da PM é emblemática.

Talvez a repercussão não tenha tido o devido alcance nacional (ei, estamos às vésperas do Carnaval e todo mundo sabe como funciona...), mas isso não diminui a pertinente questão: vai se levantar mais uma vez, gigante? Com a crise da água posta, somada a uma fadiga política que os que detêm o poder parecem ignorar com 'pacotaços' pelo Brasil, o cenário está posto.

E isso vale aos 'tucanatos' e demais localidades. Não é uma questão partidária. É de descrença pura com o Poder Público.

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