OPINIÃO
30/05/2014 10:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Natanael da Conceição vira estatística em trimestre recorde de mortes atribuídas à PM em SP

Ele foi morto em 12 de maio, durante uma abordagem no bairro do Grajaú, na zona sul de São Paulo, por uma suposta resistência à prisão. O problema é que um vídeo mostrou nesta sexta-feira (30) uma outra versão.

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Você nunca deve ter ouvido falar em Natanael da Conceição. Você também não poderá conhecê-lo. Ele foi morto em 12 de maio, durante uma abordagem no bairro do Grajaú, na zona sul de São Paulo, por uma suposta resistência à prisão. O problema é que um vídeo, divulgado pelo Bom Dia Brasil, da TV Globo, mostrou nesta sexta-feira (30) uma outra versão. Não chega a ser surpresa, ainda mais em um ano recorde de letalidade policial.

Dados de um levantamento do Instituto Sou da Paz, relativos aos primeiro trimestre deste ano e divulgados pela revista Carta Capital, mostram que houve um aumento de 206,9% no número de pessoas mortas por policiais civis e militares em serviço, em comparação com os primeiros três meses de 2013. Somente na capital paulista, o número subiu de 29 mortes para 89 em 2014. Os números vieram da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.

O crime no Grajaú, com base no vídeo gravado por um celular e mostrado pelo Bom Dia Brasil, mostra um rapaz sendo parado por um policial, desarmado, e procurando uma maneira de fugir. O PM então saca a arma, tenta cercá-lo mais uma vez. Em seguida, o barulho de um tiro é ouvido, seguido de outro. Além da testemunha que gravou a abordagem policial, outras disseram que Natanael tinha medo de morrer e foi executado, mesmo desarmado.

A versão é diferente da apresentada pelos policiais Uilian Lougati e Marco Túlio Prates. A chamada "resistência a prisão", atribuída ao rapaz morto, é uma justificativa recorrente entre PMs para justificar assassinatos, sobretudo na periferia. Não por acaso, um levantamento do jornalista Caco Barcellos, relativo a um período que cobria abordagem da PM de SP nos anos 80, rendeu o premiado livro Rota 66, no qual o cruzamento de dados mostra uma conduta alarmante de parte da tropa e um desprezo pela punição de abusos.

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Quanto à morte de Natanael, a PM adotou um discurso semelhante ao visto durante as manifestações de junho de 2013: de que "não admite desvios de conduta de seus homens e que todos os casos são rigorosamente apurados e investigados quando há fundamento". É importante lembrar que, embora relatos e vídeos de abusos policiais foram registrados no ano passado nas manifestações, mas nenhum PM foi punido, conforme divulgou reportagem da BBC Brasil em fevereiro deste ano.

Aos eventuais defensores do discurso "bandido bom é bandido morto", é bom ressaltar que o papel da polícia é justamente o de proteger a população e, quando necessário, prender autores de crimes. A própria PM reconhece que o confronto deve ser a última alternativa em uma abordagem policial. Com a morte do rapaz, que era suspeito de ter participado de um crime, não será possível ter algum tipo de contraponto. Mesmo culpado, isso não daria carta branca para ser morto, ainda mais desarmado. Coincidência ou não, 80% dos brasileiros temem a tortura em caso de prisão, com base em levantamento feito pela Anistia Internacional neste mês.

O mesmo argumento vale para as mortes de Amarildo Dias de Souza e Cláudia da Silva Ferreira. Ambos foram mortos nos últimos 12 meses no Rio de Janeiro. Ambos viviam em comunidades carentes. Ambos foram vistos com vida pela última vez acompanhados de PMs. O pedreiro sumiu e seu corpo nunca foi encontrado. A auxiliar de serviços gerais foi baleada e, ao ser socorrida por policiais, teve o seu corpo arrastado pela viatura.

Aos defensores da chamada desmilitarização das policias no Brasil, a morte de Natanael, de Amarildo, Cláudia e tantos outros são provas de que o debate sobre o tema é importante e deve ser mantido - há no Congresso Nacional uma série de projetos que tratam disso. Aos familiares do rapaz morto no Grajaú, permanece o medo de represálias e uma expectativa, ainda que descrente, de que a real versão dos fatos seja descoberta e os eventuais responsáveis sejam punidos.