OPINIÃO
25/10/2014 07:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Eu, eu mesmo e os debates de TV das eleições de 2014

Oito debates, quase 2 mil km percorridos. Oito dias diferentes, quatro emissoras e presença in loco por pouco mais de 16 horas. São esses alguns poucos números, aproximados, do que foi a minha cobertura dos debates da TV envolvendo os candidatos à Presidência da República nas eleições de 2014.

ALE SILVA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Oito debates, quase 2 mil km percorridos. Oito dias diferentes, quatro emissoras e presença in loco por pouco mais de 16 horas. São esses alguns poucos números, aproximados, do que foi a minha cobertura dos debates da TV envolvendo os candidatos à Presidência da República nas eleições de 2014. Uma experiência única e jornalisticamente inspiradora. E com retorno maciço do Twitter, uma novidade, já que nenhum veículo atuou com um 'live tweeting' como nós.

Salvo um único debate - o da TV Aparecida -, posso me sentir satisfeito de ter acompanhado todos os demais in loco, sentindo os ambientes distintos de cada um deles, falando com alguns personagens centrais nos bastidores das principais campanhas na corrida pelo Palácio do Planalto. O ônus da oportunidade, naturalmente, não poderia ser inferior às distâncias envolvidas e aos desgastes necessários para o trabalho ser entregue a contento.

Se o primeiro deles, realizado no dia 26 de agosto, na Rede Bandeirantes, estava tomado pelo clima de comoção pela morte de Eduardo Campos e pela subida meteórica da sua substituta, a vice Marina Silva, o mesmo não pode ser dito daquele do segundo turno, realizado no SBT, no qual os ataques pessoas superaram todos os limites, em um dia digno de Programa do Ratinho.

As idas - ou seriam bem retornos, já que trabalhei quatro anos lá - na Rede Record, em domingos, causavam certa consternação não só em mim, mas em colegas que dobravam plantões para poder participar da cobertura. Isso sem falar na sua inexpressividade para temas positivos, contrapondo o fator negativo desencadeado pelas declarações homofóbicas de Levy Fidelix (PRTB), as quais pude checar com o próprio, antes dos demais, ao final do debate.

Esse corpo a corpo, aliás, propiciou momentos engraçados e esclarecedores. Quando o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman chamou de 'fraco' o PSB, nem por um momento eu projetei na minha cabeça o cenário de ambos se unirem no segundo turno (o que era provável já naquela altura, diga-se, mas não pensei nisso), e o mais cômico foi o então presidente do PSB, Roberto Amaral, detonar o tucano no debate seguinte, no SBT, quando o questionei.

Figuras carismáticas como o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), o prefeito de São Paulo Fernando Haddad, e o presidenciável Eduardo Jorge (PV) me renderam boas entrevistas, o mesmo valendo para Luciana Genro (PSOL), a qual eu fiz uma pergunta no debate do primeiro turno da Rede Globo em razão de que NINGUÉM queria questioná-la. Dos demais presidenciáveis, apenas Marina eu não tive oportunidade de falar mais profundamente.

Dos candidatos que seguem vivos, a presidente Dilma Rousseff (PT) evitou a imprensa sempre que possível. Quando inevitável, procurou se mostrar contundente, muito embora não tenha exatamente dado as respostas que eu esperava em temas que a questionei, sobre os nomes envolvidos no escândalo da Petrobras, ou sobre o que ela apresentou para ganhar os votos dos indecisos.

Aécio Neves (PSDB), por outro lado, sempre quis justamente aproveitar toda e qualquer exposição junto à mídia. Me disse que tinha gostado do debate do segundo turno no SBT, aquele que foi sem dúvida o mais desconstruído de todos. Outros tucanos do seu entourage, como o vice Aloysio Nunes, chegaram até a debater comigo pelas redes sociais, durante o debate da Globo deste segundo turno. Não deixou de ser enobrecedor, levando em conta a tenra idade do nosso Brasil Post no cenário midiático nacional.

Alguém poderia me perguntar alguma história impagável de bastidor. De curiosa eu poderia citar duas: tentar arrancar a preferência de voto do apresentador Raul Gil no primeiro turno no SBT e o sucesso que fez cada uma das vezes em que o cabelereiro e maquiador Celso Kamura aparecia para dar um toque no visual de Dilma. E, claro, o dia em que tucanos tiraram sarro do ex-presidente Lula por este usar uma camisa azul no horário eleitoral, durante um encontro na Band. Os termos, lógico, não dá para publicar.

De negativo, o envolvimento de tucanos em um incidente em que xingaram Dilma de "vaca", durante o primeiro debate do segundo turno. O tratamento dado aos jornalistas de outros veículos na Record - espremidos no que ficou apelidado de "corredor da morte" - também foi outro ponto nocivo da cobertura. E um ou outro taxista que me disse, pasmem, que queriam a volta da ditadura militar (ok ok, é capaz de algum internauta que ler isso concordar com esse pensamento). Mas eu discordo sumariamente.

Para finalizar, no âmbito "comida para a manada midiática", as barraquinhas oferecidas pela Band deixaram todos os demais no chinelo. Bem atrás eu colocaria o SBT, seguido de Globo e Record (no primeiro turno eu não me lembro de ter nada para comer lá). Claro, você vai para trabalhar, e não para comer, não é? Mas depois de tanta quilometragem feita de carro, avião e até a pé, se alimentar bem é fundamental.

A jornada eleitoral e dos debates na TV voltam em dois anos, com as eleições municipais de 2016. Até lá.