OPINIÃO
29/09/2014 04:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Dei a chance do Levy Fidelix se redimir. A resposta? "Só quero voto de pessoas normais"

GABRIELA BILÓ/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Uma pergunta:

"Nas redes sociais repercutiu muito mal o que o senhor acabou de dizer. Só queria saber se o senhor sustenta o que colocou, da maneira que colocou? O senhor não se preocupa?"

A resposta:

"De maneira nenhuma. Não me preocupo com esse tipo de voto, não vindo, não me interessa. Me interessa o voto da família, das pessoas normais. E as outras que façam bom proveito do que querem, como quiserem. Assumidamente, é assim que é."

O diálogo acima envolveu o candidato à Presidência da República pelo PRTB, Levy Fidelix, e eu. Ele se deu momentos após o término do debate na TV Record, realizado na noite de domingo (28). A maioria dos colegas buscou os favoritos na disputa - Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PSB), e Aécio Neves (PSDB).

Assim sendo, tive Fidelix a minha inteira disposição, para fazer a minha pergunta. Assim como aqueles que assistiam em casa, pela televisão, fiquei incrédulo ao ouvir, dentro do estúdio, as palavras do candidato, mais conhecido pela bigode, pelo Aerotrem e apontamentos estapafúrdios, em sua maioria.

Como se vê, o candidato do PRTB não voltou atrás. Você que defende os direitos humanos, você que tem amigos gays, ou que simplesmente é um homossexual em busca de respeito e cidadania, Fidelix deu o recado: ele não quer o seu voto, afinal, você 'não é normal', na visão dele.

Aos que perderam o polêmico e lamentável trecho, deixo aqui o vídeo e abaixo dele a transcrição do que disse o candidato.

"Tenho 62 anos e, pelo que eu vi na vida, dois iguais não fazem filho. E digo mais. Desculpe, mas aparelho excretor não reproduz. Como é que pode um pai de família, um avô, ficar aqui escorado porque tem medo de perder voto? Prefiro não ter esses votos, mas ser um pai, um avô que tem vergonha na cara, que instrua seu filho, que instrua seu neto. Vamos acabar com essa historinha. Eu vi agora o santo padre, o papa, expurgar, fez muito bem, do Vaticano, um pedófilo. Está certo", disse Fidelix.

Como pode?

Muitos me perguntaram, pelas redes sociais, como um candidato com tal perfil pode, primeiro, se candidatar e, segundo, não responder por suas opiniões. Bem, diria que o 'aparelho excretor' da democracia explica candidaturas como a de Levy Fidelix. Perante a lei brasileira, a eleitoral e a Constituição, ele cumpriu todos os requisitos e tem direito a sua candidatura.

Outro detalhe importante: goste você ou não, uma boa parcela da sociedade brasileira pensa como ele. Sendo assim, só para usar uma frase atribuída ao filósofo francês Voltaire: "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo". Pluralidade, certo?

Em um país como o Brasil, que viveu 21 anos de ditadura militar e ainda não curou as próprias feridas, censurar até mesmo opiniões extremistas e fascistas como essa não é o caminho. Escrevi sobre esse caso tenebroso como blog não só em razão de estar lá, não só por ter falado com a figura central da polêmica minutos após ela ter sido proferida, mas para ponderar sobre essa passagem final, também do candidato.

"O Brasil tem 200 milhões de habitantes, daqui a pouquinho vai reduzir para 100 [milhões]. Vai para a Avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio. Gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los. Não tenha medo de dizer que sou pai, avô, e o mais importante, é que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente, bem longe mesmo porque aqui não dá", sentenciou.

Percebam: estivesse em vigor uma legislação de criminalização da homofobia no Brasil, tal incitação à violência contra a comunidade LGBT, Fidelix poderia SIM sair algemado do estúdio da TV Record. Em todo caso, como já escrevi aqui, a questão segue no trâmite do Congresso Nacional, e há razões para não vê-la uma realidade tão cedo. Enquanto isso, opiniões como a de um candidato à Presidência darão uma chancela, ainda que implícita, a crimes como o do jovem que foi espancado e quase estuprado na zona sul de SP na semana passada.

Vivemos em um Brasil de generalismos e contradições, onde "drogados são um fardo" (outra pérola de Fidelix) e diminuir a maioridade penal é a 'solução' para a segurança pública (educar, formar cidadãos e, se necessário recuperá-los, não dá voto, creio). Assim sendo, algumas mobilizações que já se desenham na internet horas após o debate, como o Beijaço na Paulista, são muito saudáveis.

Para fechar, o cúmulo da ironia, para não passar batido: a cada 28 horas, um gay é morto no Brasil. E sabem qual é o número de Fidelix na urna eletrônica? 28.