OPINIÃO
27/05/2015 11:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Corrupção na Fifa: Alô Brasil, é hora de revisitar a CPI da Nike

O que estamos vendo é só a superfície de um enorme iceberg que, dificilmente, verá integralmente a luz do dia. Mas a CPI da Nike, entre 2000 e 2001, apurou muitos 'podres' e teve o protagonismo de alguns dos nomes que, em 2015, figuram no radar das autoridades suíças e americanas.

Otávio Magalhães/Estadão Conteúdo

A procuradora-geral dos Estados Unidos Loretta Lynch pode ter feito um 'favor' às autoridades brasileiras. A minha dúvida é se a oportunidade será aproveitada desta vez, pelo menos aqui no Brasil

A operação liderada por ela, que investiga o pagamento de propinas de US$ 100 milhões (R$ 313 milhões), determinou a prisão de sete dirigentes da Fifa - incluindo o ex-presidente da CBF José Maria Marin - e quer extraditá-los para a terra do Tio Sam para que lá sejam processados pelos crimes de extorsão, fraude eletrônica e conspiração para lavagem de dinheiro.

Tá, e o Brasil com isso? Bem, um outro brasileiro investigado pelas autoridades americanas além de Marin é o executivo J. Hawilla, dono da Traffic e que já foi chamado de 'o dono do futebol brasileiro'. A empresa intermediou durante muitos anos os negócios da CBF e, não por acaso o contrato de US$ 160 milhões entre a confederação e a multinacional esportiva Nike, para patrocínio da seleção brasileira, também está no radar das apurações da Justiça dos EUA.

Hawilla já se declarou culpado aos americanos e topou devolver US$ 150 milhões (R$ 473 milhões na cotação atual), referentes à propina paga desde 1990 para altos cartolas da Fifa e indivíduos ligados a eles. Mas não é de hoje que o empresário, CBF e Nike aparecem juntos em uma investigação.

Em 2000, uma CPI de nove meses no Congresso Nacional não conseguiu votar um relatório final que pedia o indiciamento do então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e outras pessoas por um amplo esquema de corrupção, envolvendo ainda o tal contrato com a Nike, o qual foi intermediado por quem? J. Hawilla. O mundo dá voltas, como pode se ver.

A CPI da Nike produziu um relatório final de mais de 600 páginas - além do contrato com a multinacional, uma série de 'podres' no futebol nacional foram constatados -, mas que não foi votado porque a 'Bancada da Bola' da época, liderada pelo presidente do Vasco Eurico Miranda, conseguiu barrar a conclusão dos trabalhos. Estamos em 2015, mas esse trecho das conclusões do documento mostra como a celeuma permanece viva.

"(...) a remessa ao Ministério Público se faz necessária para efeito de processamento da ação civil pública, a fim de aprofundar a análise do contrato entre a CBF - Traffic - NIKE e das relações dele decorrentes, sempre priorizando a proteção do nosso patrimônio cultural - o futebol - e a defesa dos interesses difusos de todos os brasileiros, torcedores e admiradores da Seleção, que são induzidos a se transformarem em consumidores de uma empresa estrangeira, que, visando apenas a expansão dos seus negócios, se julgou no direito de ditar regras e condições para a prática do nosso futebol".

As recentes denúncias feitas pelo jornal O Estado de S. Paulo sobre os contratos da CBF com empresas que gerenciam os jogos da seleção brasileira só mostram que as maracutaias permanecem em plena atividade. Somada à prisão de Marin e aos trabalhos da Justiça dos EUA, uma revisita ao que foi apurado pela CPI da Nike não seria nem um pouco ruim. Muito pelo contrário.

Acha pouco? Há farto material literário já produzido mundo afora sobre a corrupção no futebol (os jornalistas Andrew Jennings e Declan Hill, para citar dois do exterior), assim como publicações aqui no Brasil que também apontam dedos para outros personagens conhecidos, como Ricardo Teixeira e João Havelange.

Falando em Teixeira, hoje distante dos holofotes, sabe quando começou a parceria dele com Hawilla começou? Em 1990. O ano é o primeiro da gestão do então genro de Havelange na CBF. Segundo a Justiça americana, é o mesmo do início do pagamento de propinas envolvendo cartolas sul-americanos. Coincidência?

O que estamos vendo é só a superfície de um enorme iceberg que, dificilmente, verá integralmente a luz do dia. O 'modus operanti' da Fifa até hoje, aliás, começou justamente com a chegada de Havelange ao comando da entidade máxima do futebol, nos anos 70, mas isso é assunto para um outro post.