OPINIÃO
25/06/2014 11:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

Brasil vive mesmo a 'Copa das Copas'. E um dos últimos eventos esportivos com gastos exagerados

FéLIX ZUCCO/Agência RBS/ESTADÃO CONTEÚDO

Com média de gols que não se via desde os tempos de Pelé e zebras impensáveis dentro de campo, não há como negar que o Brasil esteja sediando a "Copa das Copas". Ainda que os custos estimados para a realização do Mundial sejam da ordem de R$ 26 bilhões, pelas próximas três semanas todos os olhos estarão voltados para o que acontece dentro de campo. E vá por mim: tudo leva a crer que essa será uma das últimas Copas "escravizadas" pelo Caderno de Encargos da Fifa.

É claro, não podemos perder de vista que o próximo Mundial será na Rússia, em 2018, e por lá os gastos seguirão a rotina do estouro de orçamento, como se viu recentemente quando os russos sediaram os Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi. Mas na próxima década, a tendência é que a Fifa tenha de rever as suas exigências, sob pena de ter de abusar dos "pés na bunda", como o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, certa vez definiu o esforço para fazer com que os brasileiros deixassem tudo pronto.

Após a Rússia, o Catar vem a seguir na lista de sedes de uma Copa do Mundo. Entretanto, não é pequena a pressão para que o país árabe perca o direito de sediar o evento, seja pelas fortes suspeitas de corrupção na votação que deu aos catarianos o direito de receber o evento, seja pelas condições sub-humanas às quais trabalhadores são expostos em obras já em andamento por lá. O assunto deve ganhar força após a Copa no Brasil e aí entra a necessidade de "humildade" da Fifa.

O país com maior interesse e especulação de destino da Copa de 2022, caso o Catar perca o direito, são os Estados Unidos. Derrotados pelo Catar na disputa, os americanos cogitam disputar o direito para a Copa de 2026, ou ainda de, se procurados, aceitar receber o Mundial que acontece dentro de oito anos. Tudo vai depender, porém, de uma "mudança", conforme já adiantou recentemente o presidente da federação do país, Sunil Gulati.

"A resposta é talvez. Talvez nós participemos (para a Copa de 2026). Se vamos conseguir ou não já é um outro assunto... nós não vamos participar a não ser que as regras mudem. Eu já disse isso e não faz muito tempo. Os procedimentos da Fifa precisam mudar", afirmou, em declarações à revista Sports Illustrated. Até mesmo no Congresso dos EUA a questão já gerou algum tipo de discussão, tanto que o senador democrata Bob Casey resumiu a questão: tire a Copa do Catar e dê a quem ficou em segundo lugar na disputa, no caso os americanos.

LEIA TAMBÉM

- Brasil x Camarões: não é a primeira vez que jogo da Seleção em Copas causa 'medo' na Fifa

- Economia brasileira vai ganhar bem menos com a Copa do que o governo prometeu, apontam estudos

A Copa de 1994, realizada na terra do Tio Sam, foi a mais lucrativa e com menos problemas para a Fifa até aqui - a marca deve ser batida pelo Mundial do Brasil, segundo prognóstico de Valcke. Com infraestrutura e estádios prontos, não seria exatamente difícil realizar mais uma vez o Mundial por lá. Mas a discussão ganha corpo para a sequência das Copas, sobretudo se considerarmos o cenário já periclitante que enfrenta o Comitê Olímpico Internacional (COI).

A entidade responsável pelas Olimpíadas está vendo os altos custos para a realização dos Jogos serem alvos de críticas e desistências por muitos países considerados de Primeiro Mundo. O caso mais recente diz respeito à desistência da Polônia em sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. O mesmo aconteceu pouco antes com Estocolmo, na Suécia. Em artigo publicado na Slate, o jornalista Joshua Keating faz uma leitura que vale tanto ao COI quanto à Fifa: megaeventos como Copas e Olimpíadas, no atual formato, podem ficar cada vez mais restritos aos países nos quais os governantes não se preocupem com a opinião pública.

No caso dos Jogos, nem mesmo os americanos estão mais interessados em gastar tantos recursos - tanto que Nova York, não faz muito tempo, desistiu da ideia de sediar as Olimpíadas de 2024. Para os japoneses, que recebem as Olimpíadas de 2020 em Tóquio, o gasto de R$ 3,3 bilhões em um novo estádio olímpico já está sofrendo fortes críticas.

Ao que tudo indica, o mundo está acordando para o fim de megaeventos faraônicos que, não necessariamente, atendem integralmente aos interesses dos países que os sediam. É como o professor Thomas Straubhaar, do Instituto de Economia Internacional de Hamburgo, definiu em sua coluna publicada no jornal alemão Die Welt: "Estrutura e privilégios pertencem aos ditadores". A "Copa das Copas" vai se tornando não só um evento inesquecível pelo que acontece dentro de campo, mas também pelo cenário que se desenha fora dele.