OPINIÃO
28/12/2014 17:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

As razões que fizeram de Luciana Genro e Eduardo Jorge as duas melhores 'surpresas' das eleições de 2014 no Brasil

Montagem/Estadão Conteúdo

Não é surpresa para ninguém que as eleições de 2014 já estão na história da ainda jovem democracia brasileira. E não é só pelo fato de que Dilma Rousseff (PT) se reelegeu com a menor margem da história diante de Aécio Neves (PSDB) - em mais um capítulo da polarização dos últimos 20 anos -, mas também pela adesão que as duas melhores 'surpresas' do pleito conseguiram perante a sociedade.

Para as forças progressistas, que prezam pelos direitos humanos e uma mudança de paradigma na atual política brasileira, o voto no primeiro turno das eleições presidenciais levou naturalmente a Luciana Genro (PSOL) e Eduardo Jorge (PV). Um total de 2.242.285 eleitores - representando pouco mais de 2% dos votos válidos - votaram em um desses dois candidatos, o que referenda a busca por alternativas, ainda que ambos possuíssem suas inconsistências.

"É interessante falar deles, ambos oriundos do PT, que é uma coisa importante na trajetória de ambos. Eles recuperaram o discurso que o PT fazia no passado, mais arrojado, mais solto, ligado aos movimentos sociais, com anseios de modernização que parcelas da sociedade trazem, como a discussão sobre o aborto, a maconha, a união civil de pessoas do mesmo sexo. São pautas interessantes", me disse o sociólogo Wagner Iglecias, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP.

A defesa de pautas progressistas - e controversas para uma grande parcela da sociedade brasileira, de viés muito mais conservador - os colocou de frente com figuras como Levy Fidelix (PRTB) e Pastor Everaldo (PSC). Todos eles, unidos, protagonizaram os seus momentos particulares ao longo do primeiro turno, uns de pura ironia como o embate de Luciana com Aécio, ou o caráter 'zoeiro' de Eduardo, contra a 'homofobia' de Levy ou o discurso desconexo de Everaldo.

Parece pouco, se olharmos de maneira superficial. Mas não foi, conforme comentou outro professor da USP, Pablo Ortellado. "Eles (Luciana e Eduardo) conseguiram fazer com que o debate eleitoral avançasse em algumas agendas, com temas incômodos e controversos que mexeram com a extrema direita. Se o Fidelix e o Pastor Everaldo fizeram isso pela direita, tratando de assuntos como privatização, aborto, casamento gay, eles fizeram pela esquerda. Isso terminou impactando para que as principais candidaturas incorporassem esses temas".

De fato, é ilusório imaginar Dilma e Aécio discutindo, por exemplo, a criminalização da homofobia sem que o tema tivesse sido trazido à tona pelas candidaturas menores. Um dos entraves enfrentados por uma candidatura maior, a de Marina Silva (PSB), também envolveu a sua mudança no meu de caminho acerca de temas relacionados à comunidade LGBT, o que contribuiu para diminuir um pouco mais o já então combalido discurso da "nova política", demolido de vez pelo 'massacre' imposto pela candidatura petista.

Naturalmente, apesar dos discursos, tanto Eduardo quanto Luciana sabiam que não havia chance real de vitória. Mas isso não diminui a importância de várias das bandeiras defendidas, uma vez que as propostas, com seus acertos e erros, promoveram um debate, em maior ou menor nível. Entretanto, com base na configuração da sociedade brasileira e, mais precisamente, o seu eleitorado, é natural que o alcance concreto acabe limitado.

"Eles têm muita repercussão na juventude urbana, universitária, de classe média, classe média alta, que são formadores de opinião, como jornalistas e acadêmicos. Mas perante a massa, ambos desapareceram", comentou Iglecias. As grandes votações que levaram os conservadores Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marco Feliciano (PSC-SP) de volta ao Congresso Nacional só mostram que é longo o caminho para a viabilização de campanhas como a do PSOL e do PV.

É provável que nem Luciana Genro, nem Eduardo Jorge, ascendam de maneira substancial quando se pensa em eleições presidenciais. Todavia, a premissa de não fazer concessões em prol de seus discursos, majoritariamente consonantes com o mundo que busca solução para os velhos problemas que os grandes partidos falham constantemente em atacar, já os torna vencedores. É a semente que auxiliará a busca por alternativas para as próximas eleições presidenciais, em 2018.

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