OPINIÃO
22/10/2014 22:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Alckmin x rivais: Afinal, quem fez, faz e fará uso político da crise da água em São Paulo?

MARCELO S. CAMARGO/FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO

"É lamentável que em um momento como esse, onde há necessidade de união de todos, alguns queiram tirar o proveito político desse fato. Esse não é o espírito de São Paulo".

A frase acima pertence ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e foi repassada via WhatsApp para militantes tucanos, caindo em seguida na rede mundial de computadores, nesta quarta-feira (22). Se você não viu - ou recebeu -, segue o mesmo abaixo:

O discurso de Alckmin vem sendo adotado durante todo o ano pelos tucanos. No último #DebateDoSBT com os presidenciáveis, o vereador tucano Andrea Matarazzo, sem perceber, pontuou muito bem como vem sendo a política estadual na área.

"Acho que o importante não é como a oposição veja, mas sim como a sociedade vê", me disse, para também me dar uma 'dica': "Você tem que ligar o PSDB à condição do céu, da chuva". Assim sendo, o agravamento da crise está mesmo tendo um uso político? Sim, governador, o senhor está correto. Entretanto, não há mocinhos ou bandidos nesta história, desde o início.

Se o desgaste atual promovido pela candidatura de Dilma Rousseff (PT) sobre Aécio Neves (PSDB) no segundo turno presidencial também passa pela crise do abastecimento no maior Estado do País - o qual é governado pelos tucanos há 20 anos -, a condução da crise não repousa sobre o discurso dos que "queiram tirar o proveito político desse fato".

Nas linhas a seguir, adiciono vários links que podem auxiliar no entendimento do todo.

A recomendação de racionamento ou de um planejamento estratégico de informação e redução do fornecimento de água no Estado já datava do fim do ano passado, e vinha do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ).

A Agência Nacional de Águas (ANA), órgão federal do setor, endossou a recomendação, que foi ignorada, como parte dos acordos firmados pelas esferas federal e estadual nos meses seguintes - decisões disponíveis aqui.

A falta de transparência da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) levou aos primeiros relatos de falta de água em regiões da Grande SP já em março deste ano, e eles apenas subiram progressivamente com o passar do tempo, no qual a chuva seguiu fraca ou inexistente sobre o Sistema Cantareira. O que Andreu disse na Assembleia Legislativa de SP nesta terça-feira (21) não foi nenhuma novidade.

A desinformação não perdeu de vista se tratar de um ano eleitoral e o quanto isso poderia trazer problemas à reeleição de Alckmin. Assim sendo, quem fez uso político do quê? Atrelar a própria ANA ao governo federal petista é um erro, já que a própria indicação do atual presidente da agência, Vicente Andreu Guillo - o mesmo chamado de 'vagabundo' pelo ex-deputado do PSDB José Aníbal -, partiu de um tucano 'linha dura': o senador Aloysio Nunes, vice de Aécio.

Enquanto aumentam as reclamações e notícias de falta de água em diversas cidades paulistas (Itu, eu não esqueci o seu martírio), já que o tormento para a população se tornou grande demais para ser ignorado pela imprensa, até mesmo aquela que nutre 'simpatia' pelo governo Alckmin, o governador segue contando com o apoio da população, cujo índice de 80% dela reduziu o consumo, segundo o próprio. Além disso, o tucano foi eleito no primeiro turno. Ou seja, a crise não abalou a sua votação.

Entenda a Guerra da Água


Aos que seguem olhando para o céu e não para o Palácio dos Bandeirantes, talvez o melhor argumento venha da relatora da ONU para o Direito à Água e ao Saneamento, Catarina de Albuquerque. Em entrevista nesta quarta-feira ao jornal O Globo, ela reconheceu o argumento da grande seca que atinge não só SP, mas diversas regiões do Brasil e também do mundo. Todavia, há uma questão central, e que derruba a tese do governador.

"Mas há uma parte que é previsível. É por isso que, numa perspectiva dos direitos humanos, aquilo que digo para todos os governos é: 'planejem, adotem medidas, preparem-se'. E isso aplica-se tanto ao caso de São Paulo quanto a de outros países do mundo. E acho que isso é bastante razoável", disse.

O Brasil Post já noticiou mais de uma vez que a outorga do Cantareira, datada de 2004, já recomendava que o Estado diminuísse a sua dependência do sistema. Assim sendo, os ataques do governo paulista contra a ONU, noticiados pelo jornal Folha de S. Paulo nesta semana, não fazem sentido algum, salvo se você considerar os danos políticos. Mais uma vez: quem está fazendo uso político do tema aqui?

Até mesmo a Justiça Federal já entrou no caso e tentou colocar ordem na falta de transparência e troca de acusações entre todos os envolvidos. Por enquanto, o que se sabe é que a Sabesp poderá captar mais 106 bilhões de litros do volume morto do Cantareira - aquela porção de água que, politicamente, fica mais bonito chamar de reserva técnica, já que o uso dela de nada há de técnico a não ser o desespero -, o que pode assegurar um abastecimento, ainda que não inteiramente pleno como se vê já hoje, até março do ano que vem.

Talvez o único envolvimento dos céus, São Pedro e do fenômeno El Niño - sim, a alteração dos ventos causados pelo fenômeno que se dá no Oceano Pacífico influiu na seca deste ano - na história é a incerteza sobre a manutenção desses agentes com algum grau de protagonismo na crise. Se não chover no mínimo a média dos últimos dez anos, o desabastecimento se dará em algum ponto de 2015. E isso seria não haver água para nada. Mesmo. É dado técnico, não político.

Assim sendo, este post não é político. Não é petista. Não é técnico. É apenas de alguém que vive em São Paulo e gostaria de pedir transparência nas obras, no planejamento (ou falta dele na última década de governos tucanos) e, principalmente, nas informações. Não foi tão fácil descobrir que a Sabesp lucrou R$ 12 bilhões desde 2004, fazendo a alegria dos seus investidores, mas esse mérito é tão longo e, como não quero fugir do raciocínio, deixo esse link da Carta Capital como sugestão.

Dito tudo isso, aguardo um novo vídeo com essas informações no meu WhatsApp, caro Alckmin.

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