OPINIÃO
17/01/2015 02:20 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

A endêmica violência policial que 'nos empurra' para as Jornadas de Junho

"Eles mataram ele!", gritavam alguns sobre uma pessoa que foi presa e que desmaiou durante a ação. Mais de 30 PMs cercaram uma única pessoa, desmaiada, caída de bruços. Parece proporcional? Até o momento em que escrevo esse texto não há nenhuma morte, mas me faz parar para pensar se é só isso que falta acontecer.

Montagem/Estadão Conteúdo

Ao contrário de todos os prognósticos, um cenário como o das Jornadas de Junho de 2013 vai se montando em São Paulo. Duas são as bases para essa conclusão: a truculência policial e a negação de setores sociais e da mídia em aceitar que tais abusos estão em marcha. Sejam 3 mil (número da Polícia Militar), sejam 20 mil (número dos organizadores), quem presente esteve consegue fazer facilmente essa correlação.

Não é achismo. Estive em 2013. Estive nos dois primeiros atos #ContraTarifa em São Paulo, organizados pelo Movimento Passe Livre (MPL). Sobre o primeiro, você pode ler aqui. Em ambos, a Polícia Militar do Estado de São Paulo utilizou força excessiva, a qual produziu uma reação em cadeia que leva aos deploráveis atos de vandalismo.

"A reação da polícia foi condizente com o ataque dos black blocs. Tentamos ao máximo revistar e conter os suspeitos antes de chegaram à Prefeitura, mas, infelizmente, não foi possível", disse o major Vitor Fedrizzi ao final do ato desta sexta-feira (16). Uma suspeita infundada, com a participação de um PM que 'prega o dever da polícia em matar', quase deu início a uma confusão desnecessária, ainda na Rua da Consolação.

Pouco depois das 21h, o saldo final era de três agências bancárias depredadas, orelhões destruídos e quase uma dezena de presos - o MPL fala no dobro disso, todos levados ao já conhecido 78o Distrito Policial. Ao final, os PMs não conseguem apresentar provas cabais de crimes e a grande maioria é liberada. Justiça falha ou arbitrariedade nas prisões? Não é difícil concluir.

Que fique claro: Não há aqui uma defesa de atos de vandalismo. O que há é um questionamento cabal sobre os procedimentos da PM em manifestações, eventos nos quais fica latente o seu despreparo para lidar com multidões. Se há uma minoria cometendo crimes, retire-a do ato. Todavia, a ordem é sempre dispersar toda a manifestação, e de maneira desproporcional.

Falo tudo isso, em primeira pessoa, porque lá estava nesta sexta-feira. Não houve fogo de artifício contra policiais ANTES das primeiras bombas de gás lacrimogêneo serem atiradas pela Tropa de Choque, posicionada na Praça do Patriarca, em frente à Prefeitura de São Paulo.

Quando o ato decidia o trajeto que o levaria até a Secretaria Estadual de Transportes, na Rua Boa Vista, ali próxima, estourou o tumulto por excessos da PM. Pior: as pessoas estavam encurraladas pelo 'envelopamento' que a corporação vem fazendo nos protestos desde o ano passado. Elas não tinham sequer uma rota de fuga segura, o que agrava o absurdo testemunhado nesta sexta-feira.

O protesto já estava terminado, algumas pessoas gritavam palavras de ordem a alguns policiais e foram alvos de novas bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. Assim, gratuito. Minutos antes, PMs dificultaram a prestação de socorro a uma mulher que, desmaiada, ainda foi alvo de gás de pimenta.

"Eles mataram ele!", gritavam alguns sobre uma pessoa que foi presa e que desmaiou durante a ação. Mais de 30 PMs cercaram uma única pessoa, desmaiada, caída de bruços. Parece proporcional? Até o momento em que escrevo esse texto não há nenhuma morte, mas me faz parar para pensar se é só isso que falta acontecer.

Não, me enganei. Falta é o uso da bala de borracha cegar jornalista e fazer com que veículos da grande mídia reconheçam os excessos policiais. Como no dia seguinte ao 13 de junho. De que ano? 2013. Como no passado recente, há uma cobrança pela repressão (aqui e aqui). A mobilização atual tem suas diferenças em relação à de 1 ano e meio atrás. Porém, as peças que se movem em 2015 nos remetem a um passado conhecido.

"Se houve excessos eles (manifestantes) podem denunciar", disse ainda o major Fedrizzi. Talvez as vítimas de 2015 se lembrem que as vítimas de 2013 não viram NENHUM policial ser punido por excessos em protestos de rua. É daqueles processos 'que nascem mortos', bastante comuns em repartições públicas que costumam nada apurar.

Endêmica na periferia da Grande São Paulo, a violência policial segue construindo capítulos lamentáveis na ainda jovem democracia brasileira, que nesta semana completou 30 anos da redemocratização. Mas há quem pareça viver em uma era anterior, e não são os que cobrem o rosto para fugir do armamento químico.

O próximo capítulo já tem data, hora e local: 20 de janeiro, 17h, no Tatuapé, na zona leste da capital paulista. Será o 3o Ato #ContraTarifa.

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