OPINIÃO
13/03/2018 17:49 -03 | Atualizado 13/03/2018 17:49 -03

5 mulheres e 1 viagem de mais de 900km de bicicleta pelo Uruguai

No final do século XIX, Susan Anthony já dizia que a bicicleta havia feito muito mais pela emancipação feminina do que qualquer outra coisa no mundo.

Andrea Muner
Da esquerda para direita: Andrea Muner, Rita Barossi, Mayte Albardía, Thais Viyuela e Olívia Kari.

No final do século XIX, Susan Anthony já dizia que a bicicleta havia feito muito mais pela emancipação feminina do que qualquer outra coisa no mundo. "A mulher está pedalando em direção ao sufrágio", afirmou Elizabeth Saton em relação ao direito ao voto. Além de ter inserido a mulher no espaço público e na vida pública, a bike foi também a responsável pelo abandono do espartilho, que dificultava a respiração, e o surgimento das calças bloomer, que viriam para substituir as saias longas.

Depois de centenas de anos, a magrela ainda continua emancipando mulheres tanto nas cidades quanto na estrada. Desafio, autonomia, liberdade e uma relação muito próxima com o próprio corpo são alguns dos combustíveis que alimentam essa união. E eu, recém inserida no mundo do cicloturismo, endosso esse coro: nós deveríamos nos aventurar mais a experimentar uma viagem em duas rodas, colocando à prova nossos confortos e nossas construções sociais.

Em cinco mulheres, foram mais de 900km em 30 dias de viagem pela costa inteira do Uruguai: da divisa com o Brasil, no Chuí, até Colônia do Sacramento e de lá de balsa para Buenos Aires. Nossa meta era gastar até R$30 por dia, o que geralmente excluía a possibilidade de hosteis ou campings. No fim, tanto o trajeto durante o dia quanto a estadia durante a noite eram conquistas constantes a serem feitas.

Nós deveríamos nos aventurar mais a experimentar uma viagem em duas rodas, colocando à prova nossos confortos e nossas construções sociais.

De todas as envolvidas, apenas uma já havia pedalado em viagens. Apesar dos conselhos, nenhuma de nós chegou a treinar curtas distâncias na cidade nem muito menos fazer uma pequena viagem de dois ou três dias para sentir o tamanho do desafio: fomos na cara e na coragem - ou na loucura - apostando que conseguiríamos sobreviver aos 30 dias de estrada. Não só a maioria do grupo nunca tinha feito uma viagem pedalando como também nunca tínhamos trocado uma câmara de ar furada. Sabíamos um pouco da teoria do funcionamento e da manutenção de uma bicicleta e fomos aprendendo o que não sabíamos juntas, na prática, acertando e errando.

O desafio começou na hora de preparar a bagagem: meus alforjes - bolsas específicas para bicicleta - totalizavam 25 litros, um volume equivalente às mochilas que usamos diariamente na cidade. Neles havia três combinações de roupa para pedalar, um conjunto para o frio e para dormir, um conjunto para o calor, um vestido para sair, três calcinhas, três pares de meia, dois biquínis, um corta-vento, um livro, uma câmera, um par de tênis e um par de chinelos. Só. O resto era ocupado por ferramentas e peças para manutenção da bike, comida, água, panelas e coisas de camping, que levávamos amarradas no bagageiro.

Quando se leva tão pouco, é necessário aceitar as adversidades inerentes a isso: ou lavávamos as roupas com frequência ou tínhamos que encarar um dia extra com uma camiseta nem tão limpa assim. Acostumando com a tal camiseta suja, passamos também a aceitar a ausência de espelho, maquiagem ou perfume e a pouca frequência com que conseguíamos tomar banho, escovar os dentes, lavar a mão ou tirar as marcas de graxa que a corrente da bike deixava nas nossas pernas. O protetor solar se misturava com a poeira da estrada e chegávamos a cada destino desafiadas a encarar a própria sujeira e os próprios cheiros dentro do saco de dormir, aceitando-os aos poucos.

Não só a maioria do grupo nunca tinha feito uma viagem pedalando como também nunca tínhamos trocado uma câmara de ar furada.

Nem todas as vezes foi fácil vestir a mesmíssima roupa para todas as ocasiões que saíamos à noite. Nem todas as vezes foi fácil aceitar a falta de maquiagem ou de perfume para nos sentirmos mais arrumadas. Nem todas as vezes foi fácil sentir o quanto destoávamos dos outros clientes de um supermercado, que nos olhavam curiosos. O desafio parecia morar justamente na repetição desse desconforto, que foi aos poucos sendo anestesiado pela quantidade de histórias que estávamos acumulando naqueles dias e pelo apoio de todos que conversavam conosco e se interessavam pela nossa viagem.

Para além da questão com a roupa, com o cabelo, com os pêlos e com a pele, fomos sentindo a diferença da relação com o nosso sistema digestivo: passamos a comer dois a três pratos de macarrão por refeição, três ou quatro litros de água e três ou quatro alfajores por dia - não, não são as bolsas específicas para bicicleta, dessa vez estou falando dos tradicionais doces uruguaios. Os alimentos lá eram caros e raras eram as vezes em que podíamos pagar pelas frutas, legumes e verduras que queríamos ou, na verdade, menos frequentemente do que a maioria vegetariana do grupo estava acostumada. A falta de fibras na alimentação logo refletia na dificuldade em fazer cocô e essa se tornava uma questão que o grupo todo precisava discutir e achar uma solução. Passamos a planejar nossas refeições também pautadas no ritmo de digestão e evacuação de cada uma.

A questão mais difícil, porém, é sempre a relação com o nosso útero. Em quatro semanas de intensa convivência havia sempre alguém com TPM e alguém menstruando.

O corpo foi aos poucos se adaptando ao novo consumo e respondendo rápido ao condicionamento físico a que estava sendo submetido. Ficamos mais sensíveis ao pico de energia do açúcar do alfajor ou da cafeína da xícara de café e mais sensíveis também à embriaguez do copo de cerveja que fazíamos questão de tomar a cada novo destino, ainda com o estômago vazio e o corpo cansado. Por conta do orçamento apertado e da fome avassaladora, sempre que podíamos, praticávamos o freeganismo nos restaurantes: esperávamos os clientes da mesa ao lado irem embora para pegar as sobras da refeição deles. Chegávamos a assustar alguns garçons e garçonetes que não imaginavam o quão famintas estávamos. Longe da cidade e das roupas apertadas do dia a dia, nos demos a liberdade de comer quando o corpo pedia e de não sentir culpa de dividir um litro de sorvete se desse vontade.

A questão mais difícil, porém, é sempre a relação com o nosso útero. Em quatro semanas de intensa convivência havia sempre alguém com TPM e alguém menstruando. Como organismos cíclicos que somos, precisávamos observar e respeitar os dias de maior energia, os dias de total desânimo, os dias de dor e de cansaço, talvez até acentuados pela quantidade de hormônios fluindo com o exercício físico intenso. Como organismos cíclicos que somos, precisávamos entender também o ritmo psíquico de cada uma, respeitando os momentos de euforia, silêncio, sensibilidade e reclusão. Era quase uma infindável negociação com corpos em constante mudança. Eu, por exemplo, tive que pedalar 250km nos meus três piores dias do ciclo, nos quais a minha cólica só costuma se acalmar com um combo de dois analgésicos. Foram 108km/74km/66km em dias consecutivos lutando contra a moleza gerada pelo remédio, a pressão baixa debaixo do sol a pino e a dor que insistia em voltar a todo momento.

E como nem tudo é dor e cansaço, todos os dias presenciávamos momentos de embriaguez de endorfina e serotonina, quando caíamos no riso diante das situações mais estressantes e dos momentos mais perigosos que passávamos. Quimicamente falando, bom humor era algo inerente à todas as dificuldades, o que fazia de qualquer desafio mais gostoso de ser compartilhado.A cada nova cidade que parávamos, não raras vezes sobrava energia para dançar na praia, sair para uma festa ou usar ativamente o corpo por horas a fio. Íamos a algumas festas com a roupa do corpo, suadas e sujas após horas pedalando e, se não podíamos exalar perfume, exalávamos feromônios e - a ciência está aí para provar - nossos shorts de ciclismo com almofadinha entre as pernas faziam o maior sucesso.

Apesar de todo o aspecto físico, metade de toda a empreitada é psicológica. Para passar horas em silêncio pedalando é necessário gostar da própria companhia e para passar um mês convivendo intensamente com as mesmas pessoas é necessário saber compartilhar dessa solidão. Todas tínhamos diários e, antes de dormir na barraca, mantínhamos uma rotina de dedicar um tempo às nossas memórias e reflexões.

Das anotações mais bonitas que li, Mayte, que integrou o time por 400km (Chuí-Montevideo), escreveu:

"Pedalando me dei conta que existem infinitas possibilidades dentro de mim. No meu silêncio, na minha reflexão, na minha própria companhia interior. Que nascemos e morremos sós. Que o relacionamento que cultivamos com nós mesmos é o único que se mantém desde que chegamos neste lado do mundo até que acaba o nosso tempo nele. Mas também me dei conta das infinitas possibilidades da parceria. Que nascemos, vivemos e morremos em redes de cuidado. Que nascemos, sim, para ser parceiras e parceiros de todos os outros".

É nessa força individual e coletiva que depositamos nossas últimas energias nos momentos mais desafiadores: quando tivemos que enfrentar perigos externos e quando tivemos que lidar com - e aqui substituo o "lutar contra" - as nossas próprias limitações.

Rita, que sobreviveu aos quase 1000km comigo até o último dia em Buenos Aires, que o diga: foram três dias de muita dor no joelho que a fizeram pedalar muito mais devagar que o ritmo que vínhamos fazendo depois de vinte dias de viagem. Se ela decidiu não desistir no meio do caminho, isso se deu graças a nossa presença e se nós nos forçamos a empatizar com uma dor que não nos abatia, isso se deu graças a ela, como um aprendizado mútuo.

No diário de Olívia, que completou os 800km até Buenos Aires conosco, ela descreveu o que talvez tenha sido o único medo que sentimos por sermos mulheres ao longo de 30 dias, episódio que muitas de nós já vivenciamos ao acampar apenas com mulheres.

"Foi a primeira vez que fiquei com algum tipo de medo. Colocamos as barracas próximo à uma ponte em a um parque. Durante a noite várias pessoas passaram pela frente da barraca. Algumas percebiam que estávamos lá, outras passavam reto. Um homem chegou a apontar sua lanterna na nossa cara. Nossa barraca estava sem porta e havia apenas uma proteção de tela. Ninguém acordou. Mas eu sim, estava atenta em cada um que parava. 'Mira, carpas!' ('olha, barracas!' em espanhol). Peguei o canivete. Pensei no pior. Caso alguém se aproximasse demais estava pronta pra nos defender. Comecei a suar frio pelo corpo. Depois, percebi que ninguém nos faria mal. Me tranquilizei e consegui dormir".

Andrea, já acostumada com viagens longas pelo litoral brasileiro, afirma que a bicicleta é viciante:

"A experiência de poder sentir que apenas com o esforço do nosso corpo conseguimos percorrer longas distâncias é transformador. Acaba se tornando um vício e quase uma necessidade, pois, quando se está sobre duas rodas, o mundo te vê com outros olhos e você consegue realmente ver o mundo!"

No meu diário, descrevi o que foi para mim dia mais desafiador. Até hoje fico surpresa ao lembrar do quão forte é possível ser diante dessas ocasiões.

"Eram apenas 66km a serem feitos em três horas. Graças à chuva e à todas as dificuldades do caminho, foram oito horas no total. Durante as primeiras horas batemos nossas melhores velocidades na viagem toda, tamanho era o frescor e o conforto gerado pela chuva. Fomos abaixando a velocidade ao sentir o perigo da falta de aderência entre o pneu e a pista e passamos por pontes e rodovias onde ficávamos em pontos cegos ou muito próximos aos motoristas em alta velocidade. Horas se passaram, a fome aumentava, a temperatura corporal abaixava e nós lutávamos contra a tempestade de vento que havia chegado justo naquele dia a Montevideo, nosso destino para o pernoite. Quando faltavam 20km para chegar na casa em que ficaríamos hospedadas, o cenário ficou ainda mais estressante: duas câmaras de ar furaram, nossas bicicletas foram jogadas para o lado enquanto pedalávamos tamanha era a força do vento, um dos alforjes do grupo começou a rasgar, não tínhamos internet nem tampouco bateria e, mesmo depois de chegar no centro urbano de Montevideo, a cidade parecia fantasmagórica num domingo tempestuoso e nenhum estabelecimento comercial aberto foi visto por quilômetros. Quando finalmente chegamos à uma loja de conveniência de um posto de gasolina, resolvemos tomar um café para aumentar a temperatura corporal e comemos um alfajor para ter um pico de energia nos quilômetros finais. Foi aí que, no meio de um ataque de riso generalizado que fez a situação ficar muito mais leve e menos estressante, eu voltei a sentir cólica. Meu útero devia estar latejando há horas e meu corpo, sob o efeito combinado de dois analgésicos, ainda assim respondeu a um dos desafios mais desgastantes da minha vida".

A falta frequente de rotas específicas para bikes no Google Maps fez com que nos metêssemos por vias expressas em horários de rush, largas bifurcações, túneis infinitos, nós viários, pontes e acessos pensados para carros à 100km/h. Como ciclistas paulistanas que somos, estamos acostumadas a associar certas avenidas a perigo eminente de morte. Estamos programadas a sentir mais medo em alguns lugares da cidade do que em outros e evitamos certas regiões em certos horários. Em cima de uma bicicleta e dependendo apenas do Google Maps para carros enfrentamos a perigosa região do entorno da Rodoviária de Porto Alegre às onze da noite, enfrentamos um túnel interminável em Florianópolis, enfrentamos vias expressas e pontes em curva cerca de Montevideo debaixo de chuva forte, enfrentamos o entorno do estádio do Boca Júniors em sábado de jogo, enfrentamos a faixa de ônibus de avenidas caóticas, enfrentamos a área portuária de Buenos Aires e tantas outras avenidas e regiões ingratas ao ciclista (e à mulher) pelo caminho.

Passamos a sentir mais posse sobre o próprio corpo e mais donas do próprio destino

A vantagem e desvantagem de não conhecer o trajeto é que estávamos muito menos condicionadas a esses medos a priori, o que nos fazia ocupar de igual para igual a rua com carros, ônibus e caminhões e, sem tempo para comunicar o medo umas para as outras, acabávamos vestindo nossas armaduras e agindo de maneira muito mais ofensiva no trânsito. Nesses momentos usávamos a tática "se estiver com medo, vai com medo mesmo" e só comentávamos o que havíamos sentido depois do perigo ter passado.

Essa auto-imposição frente às latarias motorizadas tem um importante efeito para as mulheres. Historicamente o espaço público e a mobilidade nos foram negadas, fazendo-nos aprender que nem a calçada - frequentemente mal dimensionada e mal cuidada - e nem o asfalto eram espaços amigáveis para nós. O ato de costurar no trânsito sobre duas rodas, o ato de acelerar tanto quanto o carro ao lado, o ato de se espremer por entre dois ônibus ou de parar de igual para igual com todos os motoqueiros homens no semáforo tem um efeito empoderador imensurável.

Passamos a sentir mais posse sobre o próprio corpo e mais donas do próprio destino. Passamos a confiar mais na própria força para nos defender em momentos de perigo. Ganhamos uma destreza e uma agilidade no trânsito das cidades que visitamos que dificilmente teríamos desenvolvido nas ruas de São Paulo, onde crescemos ouvindo conselhos de como se comportar.

Ao final da viagem nos sentíamos vivas e habitando um corpo forte e saudável. Quando nos falta nossa casa ou um destino certo para dormir, percebemos que o nosso verdadeiro lar é o nosso corpo e nele devemos nos sentir seguras e acolhidas. A bicicleta vem como uma ferramenta para catalisar o processo de autoaceitação: vamos aos poucos percebendo que os pêlos que crescem dia após dia tem a mesma vida que os músculos que nos impulsionam quilômetro após quilômetro. O cabelo suado e os cheiros que exalamos contam mais sobre o nosso excesso de energia e saúde do que sobre a nossa sujeira corporal. Aos poucos vamos pulsando cada vez mais junto a tudo que sempre negamos em nós mesmas. É uma sensação única de sentir renascer um pouco da nossa natureza selvagem de ser mulher.

Que cada vez mais mulheres se aventurem como ciclistas dentro das cidades e fora delas, tornando-se mais habitantes do seu próprio corpo e donas do seu próximo destino.

À seguir, para quem se interessar, disponibilizo um roteiro resumido da empreitada com as quilometragens realizadas e os pernoites.

06/01 - Chuí até Forte de Santa Teresa (35km) - dormimos em camping

07/01 - Forte de Santa Teresa - dormimos em camping

08/01 - Forte de Santa Teresa até Valizas (65km) - dormimos na casa de um novo amigo

09/01 - Valizas até Cabo Polônio (12km) - dormimos na praia, sem barracas

10/01 - Cabo Polônio até San Antonio (38km) - dormimos no chalé de uma amiga

11/01 - San Antonio até Rocha (42km) - dormimos na beira do rio da cidade

12/01 - Rocha até Punta Ballena (108km) - dormimos em camping

13/01 - Punta Ballena até Guazuvirá (74km) - dormimos num terreno-floresta de amigos

14/01 - Guazuvirá até Montevideo (66km) - dormimos na casa de uma amiga

15 a 17/01 - Montevideo (50km percorridos na cidade) - dormimos na casa de uma amiga

18/01 - Montevideo até Ciudad del Plata (49km) - dormimos em um bar abandonado

19/01 - Ciudad del Plata até Eclida Paullier (77km) - dormimos no zoológico e tomamos banho na delegacia da cidade

20/01 - Eclida Paullier até Balneario Artilleros (70km) - dormimos no encontro entre dois rios

21/01 - Balneario Artilleros até Colonia del Sacramento (33km) - dormimos em hostel

22/01 - Colonia del Sacramento até Buenos Aires de balsa - dormimos em hostel, na opção mais barata da cidade

23/01 - Buenos Aires até o fim do dinheiro de cada uma (mais de 100km)