OPINIÃO
18/05/2014 13:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Aborto, como a contracepção, é tratamento de saúde essencial que pode salvar vidas

Afinal, é isso que é -- um tratamento médico eficaz e essencial. Vamos dar um tempo no lado político da discussão sobre opção e olhar de um ponto de vista diferente. Como o controle de natalidade e o tratamento abortivo melhoram a saúde pública?

Jose Luis Pelaez Inc via Getty Images

Quando falamos sobre os procedimentos e tratamentos que evitam infartos, os chamamos de tratamento cardíaco. As crianças recebem tratamento pediátrico, e qualquer pessoa que tome ibuprofeno está fazendo tratamento contra a dor.

Então por que alguém seria contra chamar de tratamento abortivo um procedimento médico legal que uma em cada três mulheres utilizará durante sua vida?

Afinal, é isso que é -- um tratamento médico eficaz e essencial. Vamos dar um tempo no lado político da discussão sobre opção e olhar de um ponto de vista diferente. Como o controle de natalidade e o tratamento abortivo melhoram a saúde pública?

Todo ano, cerca de um milhão de crianças morrem no mesmo dia em que nasceram. Isto inclui cerca de 11.300 bebês nos Estados Unidos. São 30 bebês mortos por dia, todos os dias! Parece muito, e é.

Segundo a Save the Children, os EUA têm o mais alto índice de mortalidade infantil no primeiro dia entre todos os países industrializados do mundo. São 50% mais mortes no primeiro dia do que em todos os outros países industrializados juntos.

Temos uma crise de partos prematuros neste país que pode estar diretamente ligada ao nosso fracasso em oferecer anticoncepcionais e tratamento abortivo adequados. Cerca da metade das gravidezes nos EUA todos os anos é indesejada, e para estas mulheres que levam a gravidez até o fim (mais da metade) o prognóstico não é nada animador. Elas não apenas experimentam índices mais altos de nascimentos prematuros, como também têm maior probabilidade de receber tratamento prenatal inadequado, bebês com baixo peso e tamanho pequeno ao nascer, depressão e ansiedade maternas.

De um ponto de vista de saúde pública, o tratamento abortivo, não menos que a contracepção, é uma medida essencial para evitar a dor da mortalidade infantil e também para evitar outra tragédia -- a morte materna.

O relatório Situação das Mães do Mundo, da Save the Children, concluiu:

"O índice de nascimentos prematuros nos EUA (1 em cada 8 partos) é um dos mais altos do mundo industrializado (só perde para Chipre). Na verdade, 130 países de todo o mundo têm índices de partos prematuros menores que o dos EUA. O índice de prematuridade dos EUA é o dobro do da Finlândia, Japão, Noruega e Suécia. Os EUA têm mais de 500 mil partos prematuros por ano -- o sexto maior número do mundo (depois de Índia, China, Nigéria, Paquistão e Indonésia)."

Uma grande parte desse fracasso vergonhoso do nosso sistema de saúde pública é o fato de que os EUA têm o maior índice de partos adolescentes dentre todos os países industrializados. E como as mães adolescentes tendem a ser mais pobres e menos instruídas e a receber menos cuidados prenatais que as mulheres mais velhas, os bebês de mães adolescentes têm maior probabilidade de nascer prematuramente e com baixo peso, e a morrer no primeiro mês de vida.

As mães também estão morrendo. Segundo o jornal Washington Post,

"Os Estados Unidos são um de apenas oito países que tiveram aumento da mortalidade materna na última década, segundo pesquisadores do Instituto para Métrica e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington, em um estudo publicado na revista médica 'The Lancet'. Os outros são Afeganistão, Grécia e vários países da África e da América Central.

"Os pesquisadores estimaram que 18,5 mães morreram em cada 100 mil partos nos EUA em 2013, um total de quase 800 mortes. É mais que o dobro da taxa de mortalidade materna na Arábia Saudita e no Canadá, e mais que o triplo da taxa do Reino Unido."

Há muitos fatores por trás dessas estatísticas, incluindo uma melhora no modo como as mortes maternas são relatadas. Mas faça as contas -- enquanto mais estados como Texas e Carolina do Norte restringem o acesso ao tratamento abortivo, mais mulheres morrem no parto ou na gravidez e mais bebês não sobrevivem ao primeiro ano. Os políticos podem tentar separar o aborto, ou aborto e contracepção, do contínuo do tratamento de saúde reprodutiva da mulher, mas quando o fazem a vida das mulheres é abreviada desnecessariamente. Seja como você chame isso, não pode chamar de "pró-vida".

Há um motivo pelo qual a American Public Health Association reconhece desde 1967 como questão de saúde pública a importância do acesso das mulheres a serviços de aborto seguro nos EUA. É importante lembrar, enquanto o debate político continua crescendo, que quando falamos de aborto estamos falando de tratamento de saúde.

Continuarei lutando pelos direitos reprodutivos e pela opção de fazer ou não aborto -- mas, quando falar sobre aborto, chamarei isso de tratamento abortivo. E você deveria fazer o mesmo.