OPINIÃO
24/09/2015 11:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

É tempo de nos unirmos

As cisternas são excelente exemplo para tratar do desenvolvimento sustentável porque conciliam as dimensões social, econômica e ambiental do modelo de desenvolvimento que queremos.

TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO CONTEÚDO

Um sobrevoo pelo semiárido nordestino no Brasil revela o poder transformador da parceria entre governo e sociedade civil. Onde antes reinava uma paisagem medieval sem água, sem energia elétrica e sem direitos à população, milhares de pequenos oásis despontam, mesmo em meio a uma das mais severas secas da história do País.

Onde antes as mulheres e crianças caminhavam quilômetros por dia com latas d'água na cabeça, hoje aparecem as cisternas. Vistas nas imagens de satélite, parecem pequenos pontos, caiados de branco para manter a qualidade da água.

Somadas, as cisternas chegam a 1,2 milhão de famílias de agricultores ou cerca de 4,5 milhões de pessoas. Num vasto território que equivale a quase duas vezes o tamanho da França, as cisternas permitem armazenar até 27 bilhões de litros d'agua não apenas para o abastecimento humano como para a pequena produção de alimentos.

Em apenas 12 anos, foi possível quebrar uma lógica de cinco séculos em que a seca perpetuou a pobreza e a exclusão social.

Em pouco mais de uma década, o Brasil viveu uma verdadeira revolução silenciosa, que democratizou a água para quem antes tinha de pagar para alcançar esse recurso natural em terras de fazendeiros.

Hoje, a água vem direto do céu para as cisternas. A chuva irregular pode não ser suficiente para molhar a terra para o cultivo, mas enche as cisternas e a mata a sede.

Recorro a essa pequena viagem para falar de um dos novos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que me coube comentar aqui. O objetivo 17 cuida das parcerias entre os países para o desenvolvimento sustentável, da difusão de tecnologias ambientalmente adequadas, e do monitoramento das ações e de financiamento.

As cisternas são um excelente exemplo para tratar do desenvolvimento sustentável porque conciliam de forma exemplar as dimensões social, econômica e ambiental do modelo desenvolvimento que queremos.

São uma tecnologia simples, nascida do conhecimento do homem do sertão, barata e que representa, para a população, a possibilidade de viver dignamente numa região inóspita. E mais: estão sob monitoramento rigoroso, já que todas as nossas cisternas são georeferenciadas e podem ser vistas de qualquer lugar do planeta.

No início do governo Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, as cisternas começavam a ser implementadas por entidades da sociedade civil e foram transformadas em políticas públicas.

Com Dilma Rousseff, as cisternas ganharam uma escala proporcional à urgência que a seca cobrava dos gestores públicos.

Essa experiência representa um aprendizado importante para a Agenda de Desenvolvimento para 2030. Ações muito complexas, com desenhos muito específicos, passam a ilusão de serem ideais. Mas não conseguem ultrapassar a escala de projetos pilotos. Não apresentam uma resposta na dimensão que os problemas exigem.

As cisternas são um exemplo de ação com escala e resultados reais, simples, barata (em torno de US$ 900) e, sobretudo, replicável.

Sobre o conjunto de Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, gostaria de destacar que eles representam um enorme desafio para todos os países, assim como os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio representaram desafios para os países em desenvolvimento.

No Brasil, conseguimos cumprir as metas do Milênio, com destaque para a meta número um, que consiste em acabar com a fome e a miséria.

O Brasil deixou o Mapa da Fome das Nações Unidas em 2014, ao reduzir a menos de 2% a parcela da população subalimentada. Um grande avanço, quando lembramos que, há pouco mais de dez anos, 1 entre 10 brasileiros passava fome.

Em decorrência de um conjunto de políticas públicas, deixaram a pobreza extrema no Brasil desde 2003 nada menos do que 36 milhões de pessoas. A miséria está reduzida hoje a cerca de 3% da população.

O Bolsa Família, principal programa de transferência de renda do País, acompanha a frequência escolar de 17 milhões de crianças e jovens, contribuindo fortemente para a redução da desigualdade educacional no país.

Além disso, há estudos mostrando que o Bolsa Família ajudou a reduzir a mortalidade infantil, outro importante Objetivo do Desenvolvimento do Milênio alcançado pelo Brasil.

Temos agora os objetivos bem mais desafiadores da Agenda de Desenvolvimento para 2030. Ninguém está sozinho nesta luta e é tempo de nos unirmos.

Se há uma mensagem maior que pode nos dar conforto e confiança de que somos capazes de cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, é essa. Sim -- é uma jornada muito ambiciosa que os ODS estão traçando, mas as parcerias são o veículo que nos levarão ao destino.

Esse espírito de parceria é transferido para a nossa abordagem das relações internacionais. Delegações de mais de 90 países visitaram o Brasil para estudar as nossas políticas sociais, e fizemos parcerias com países do mundo inteiro para partilhar conhecimentos, habilidades e soluções.

É esse mesmo espírito de parceria que será fundamental em nível mundial para que, como uma comunidade de nações, honremos a promessa que os líderes mundiais farão quando adotarem os ODS em Nova York esta semana.

Como praticamente todos os países, o Brasil tem um caminho desafiador à frente para cumprir os ODS. Mas estamos prontos, em espírito de parceria com todos aqueles ao redor do mundo que compartilham nosso objetivo de um futuro mais sustentável, o futuro que queremos.

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