OPINIÃO
21/06/2018 17:23 -03 | Atualizado 21/06/2018 17:23 -03

Por que eu decidi não compartilhar o vídeo dos brasileiros assediando as russas

"Esses caras não são a escória da sociedade. Eles não são doentes. Eles são apenas homens comuns."

Reprodução/Redes Sociais
Jovem russa foi assediada por torcedores brasileiros.

Vou poupar alguns caracteres na explicação do contexto que serviu de gancho para este texto. A não ser que você esteja em Marte, você já deve estar sabendo do vídeo que viralizou dos 4 brasileiros assediando uma moça russa e de toda a comoção popular que isso tem causado.

Páginas e mais páginas de textos de esquerda e de direita, de feministas e não feministas, de celebridades e de cidadãos comuns compartilhando mensagens revoltadas com o vídeo, que já deve ter tido milhões de visualizações em pouquíssimo tempo.

É por isso que eu quero usar este espaço para trazer uma reflexão sobre o quanto esse tipo de descarga emocional ajuda quase nada a luta dos movimentos sociais — no caso em particular, o feminismo e o racismo envolvidos na atitude dos brasileiros.

(Essa é a hora em que uma parte das pessoas não deve continuar a leitura e depois vai na caixa de comentários dizer: "Nem terminei de ler mas..." Então, peço encarecidamente que terminem de ler para conversarmos sobre o tema.)

Antes de tudo, vamos falar um pouco sobre culpa e punitivismo.

Brené Brown tem um vídeo ótimo de 3 minutinhos que resume de forma absolutamente didática sua extensa pesquisa sobre o tema, demonstrando como a culpa (ou a vontade de encontrar culpados) é um sentimento na maioria das vezes inútil e que representa apenas a descarga de um desconforto emocional com o qual não sabemos lidar. Encontrar culpados é o oposto de assumir responsabilidade.

A culpa, em geral, nos coloca em uma posição de vitimização e indignação. Um lugar de não-ação que, por sua vez, é o inverso do lugar de protagonismo. Não nos vemos como agentes e sim como reféns da situação.

É aquela velha história: o Brasil deveria ser o país mais ético e menos corrupto do mundo a julgar pelo tamanho da indignação coletiva com a corrupção. Da mesma forma, se olhássemos as redes sociais durante os últimos dias, o Brasil deve ser o país menos machista e mais intolerante com a misoginia do mundo. Mas sabemos que isso passa bem longe de ser verdade.

"Eles" são machistas. "Eles" são racistas. "Eles" são doentes. Nunca sou eu. Nunca é o meu marido, meu filho, meu irmão, meu amigo, meu colega de trabalho. "Eles", sim, são vergonha nacional. Só que "eles" são a regra e não a exceção em nosso País.

Enquanto tratarmos a questão de forma individualizada, dificilmente resolveremos um problema que é, em sua essência, sistêmico e estrutural. Se não nos enxergamos como parte dele, como seremos parte da solução?

Outra questão que está relacionada a esse prazer quase sádico de ver o circo pegar fogo é entender o quanto a nossa sociedade é punitivista. Queremos o escárnio e a punição. Mas não nos preocupamos com a proposição de soluções.

O que me preocupa nesse comportamento coletivo é que o resultado final dessa história seja a vitimização de todos os lados. Nós descarregamos o nosso desconforto com o machismo em cima de 4 sujeitos e eles passam a se sentir injustiçados e vítimas da situação, pois todo mundo está "exagerando" e eles não fizeram nada diferente do que todos os outros homens no mundo.

Mas, Tayná, você acha que eles não devem ser responsabilizados, perder emprego e se arrependerem do que fizeram?

Eu acho que eles devem ser responsabilizados. Eu acho, inclusive, que eles deveriam ser processados pela moça e, sinceramente, eu não vou derrubar nenhuma lágrima por eles terem perdido o emprego ou a reputação.

Mas, principalmente, acho que devemos aproveitar essa oportunidade para conversarmos sobre o quanto essas atitudes misóginas são tóxicas e passam longe de ser uma brincadeira.

Mais do que isso, eu acho perigosíssimo esse discurso de distanciamento e de patologização do machismo. Esses caras não são a escória da sociedade. Eles não são doentes. Eles são apenas homens comuns.

Eu quero é que todos os homens que estão no rolê escutem sobre como eles são e foram violentos. Eu quero que eles parem de rir dessas piadas e que eles se posicionem e compreendam que isso está tão enraizado socialmente que "homem de família" também xinga mulheres na rua.

Quero que eles saibam que esses 4 homens não são os monstros que todo mundo está pintando e que, por serem monstros, eles foram machistas. Pelo contrário. Eles podem ser excelentes pais, companheiros, amigos, brother e, ainda assim, terem atitudes misóginas. É necessário despersonalizarmos o problema e mostrarmos como essas condutas estão, em alguma medida, muito mais naturalizadas do que gostaríamos de admitir.

Me perceber racista, machista e classista (mesmo sendo pobre durante a maior parte da minha vida e mesmo sendo mulher) foi e é um processo doloroso, mas me faz também ser vetor da minha própria mudança. Se sou eu a racista, se sou parte do problema, eu também posso ser parte da solução.

Isso me leva a questionar sempre: o que estou fazendo para resolver esse cenário? O que estou fazendo com meus privilégios? Como saio do discurso e da revolta para assumir a minha cota de responsabilidade pela situação toda? Onde estou efetivamente agindo na minha vida, nas minhas relações de afeto para repensar os sistemas de opressão em que ora sou oprimida e ora sou opressora?

Se eu vier a falar uma bosta racista ainda que "sem intenção", saberei que posso pagar um preço por aquilo ao invés de ficar me vitimizando de linchamento virtual.

Então, para não deixar dúvidas à interpretação de texto, vamos esclarecer: 1) Sim, eles devem ser responsabilizados; 2) Não, isso não resolve o problema se nos contentarmos a acreditar que essa é uma questão individual.

Eu fiz um post no meu Instagram explicando por que eu não compartilharia o vídeo por duas razões: 1) Não acho certo expor essa mulher que nem sei se sabe o que está acontecendo; 2) Não quero que os algoritmos entendam aquilo como relevante enquanto conteúdo.

Eu defendo que a situação deva ser denunciada a partir de textos e reflexões, mas que devemos evitar compartilhar o vídeo em si, pois a gente acaba ajudando a reproduzir justamente o contrário do que queríamos.

Pode parecer chocante para algumas de nós, mas uma parcela considerável dos que viram o vídeo (inclusive após a polêmica) devem ter achado aquilo engraçado e divertido. E eu não quero dar relevância para esse conteúdo.

Minha proposta, então, é de a gente pensar antes de postar e nos perguntar: isso é descarga de desconforto emocional, ou uma ação propositiva? Isso resolve e agrega em quê?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.