OPINIÃO
22/02/2016 17:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Não foi dessa vez

Você tenta ressignificar e a maior parte do tempo até consegue. Mas não agora. Cada mês que passa parece que acumula um pouquinho da dor do mês passado, até que um dia você se pega sentada na privada olhando para o nada com aquela tira branca em uma mão e o coração na outra e não consegue levantar

Sam Edwards via Getty Images
Woman holding home pregnancy test and looking worried

A gente olha aquela tira branca procurando por uma linha fantasma que seja.

Entorta os olhos, fica vesga, aperta até ficar com dor de cabeça, coloca contra a luz, vira de ponta cabeça e até fecha os olhos por uns 10 segundos para abri-los com a esperança de que um milagre tenha acontecido, e nada! Mais uma vez "não foi dessa vez".

Se você não está tentando engravidar provavelmente não sabe nem do que eu estou falando e talvez ache completamente sem noção esse esforço visual todo para algo que está tão claro e escancarado na sua frente.

Diferentemente de outras dores, a dor do tentar é daquelas que fica cada vez pior.

Cada mês que passa parece que acumula um pouquinho da dor do mês passado, até que um dia você se pega sentada na privada olhando para o nada com aquela tira branca em uma mão e o coração na outra e não consegue levantar.

Não consegue chorar, não consegue nem se mexer, só fica olhando o azulejo branco do seu banheiro que parece tão frio nesse instante. Não tem como não se perguntar: "por que eu não?"

Não tem como não se sentir inferior. A não ser é claro que você seja de fato superior no quesito iluminação. Não parece ser o meu caso.

Você tenta ressignificar e a maior parte do tempo até consegue. Mas não agora.

Não com a enésima tira em branco nas mão. Não quando você estava tão esperançosa com aquele enjoo que sentiu pela manhã (e que demonstrou ser apenas nervoso ou estresse).

Não. Por um átimo só o que você quer é apenas sumir. Só o que você quer é gritar até perder a voz e xingar de todos os nomes possíveis seja lá qual for o deus/a da reprodução que esfrega na sua cara mensalmente que você não é digna.

O desejo pulsante é de esbofetear essa divindade que parece olhar ironicamente no seu olho e zombar de todo esse amor que você acha que tem para dar.

Consigo até enxergar no azulejo o olhar zombeteiro por todos os livros e artigos sobre parto e criação com apego que você leu ou pela forma patética com a qual você sonha diariamente com o como você será uma mãe amorosa, amiga e carinhosa, em como quer ser confidente e parceira.

Ele te zomba a cada anúncio de gravidez ao seu redor, te zoa e te faz sentir culpada. Te faz sentir a pessoa mais desumana e egoísta do mundo quando chora sozinha ao receber um convite de chá de bebê. Te faz sentir tão "não você".

E de alguma forma esfrega mais uma vez na sua cara que a culpa há de ser sua que esperou, que não tentou antes, que fumou, que bebeu, que tomou pílula, que não perdeu peso, que não relaxou, que fingiu ter esquecido, que fingiu não querer mais, que esqueceu de tomar o ácido fólico ontem, que está muito estressada, que não é uma boa filha, uma boa esposa, uma boa amiga.

A culpa de alguma forma é sua e a prova está na sua mão tremula.

Essa maldita tira te joga um balde de bosta na cara e te lembra de como você é imperfeita em toda a essência do seu ser.

Após o meu texto sobre a ansiedade ligada às tentativas, as pessoas pararam de me pedirem para relaxar (ufa!), embora perceba que secretamente muitas ainda pensem que só não engravidei ainda porque não relaxei.

Bom, relaxar não é mesmo o meu negócio, mas sou muito boa em me ocupar.

E é exatamente o que tenho feito nos últimos meses. Ocupado cada segundinho do meu dia com mil e uma atividades, leituras, filmes, trabalho e aulas que tirem o foco da gravidez (ou ausência dela) e façam o tempo parecer andar mais rápido. Funcionou.

A maior parte do mês não penso nisso e os dias voam. Claro que, se paro por um minuto que seja... É, o negócio é não ficar parada.

Mas e o que fazer nesse momento? O que fazer quando a tira te bate na cara com um soco inglês? O que fazer quando começa a sentir a menstruação vindo e tenta de um jeito meio maluco quase que se contorcer fisicamente para que ela fique lá, que não venha, não dessa vez.

Sim dessa vez. De novo não foi dessa vez.

Você sai do banheiro sorridente tentando não entristecer a outra pessoa que sonha com aquilo tanto quanto você mas o sorriso é amarelo. E, afinal de contas a pessoa te conhece o suficiente para saber que algo está errado. E só de te olhar ela já sabe o que é. Ficam em silêncio.

Os dois ali em silêncio. A lágrima molhando o peito que sempre te acolhe e naquele espaço e tempo é só silêncio.

Silêncio e vazio.

E então mais uma vez você se lembra que a melhor (ou única) forma com que aprendeu a se defender da dor continua eficaz: engole o choro e bola pra frente pois o mundo não vai parar para você sofrer por algo que nunca teve, e não sabe se terá.

É. Não foi dessa vez. Mas mês que vem será, se Deus quiser. Amém!

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