OPINIÃO
24/11/2014 10:36 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Maternidade ou Carreira: o não tão velho dilema

Como ter uma sociedade igualitária quando a mulher terá que sair do mercado por 1 ano se optar ser mãe ao passo que o homem se afasta por meros 30 dias? Como exigir que o homem participe mais na criação de seus filhos quando a própria lei vem dizer que ele é doze vezes menos necessário do que a mãe?

M Swiet Productions via Getty Images

Projetos como esse à primeira vista parecem positivos mas desconsideram um enorme prejuízo ao mercado de trabalho e à mulher profissional reforçando um machismo histórico que faz com mulheres do mundo todo sejam pior remuneradas, preteridas em promoções e em contratações quando em idade fértil ou com filhos pequenos.

Como ter uma sociedade igualitária quando a mulher terá que sair do mercado por 1 ano se optar ser mãe ao passo que o homem se afasta por meros 30 dias? Como exigir que o homem participe mais na criação de seus filhos quando a própria lei vem dizer que ele é doze vezes menos necessário do que a mãe?

A tendência, caso esse projeto seja aprovado é de duas uma: cada vez menos mulheres que desejem se manter no mercado de trabalho se permitirão ter filhos e, cada vez mais talentos femininos optarão pela maternidade com a certeza de que voltar ao mercado será algo se não impossível extremamente difícil (como já acontece em muitos países europeus que promovem essas "benesses").

A pior discriminação que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho se relaciona à maternidade.

Um estudo de Stanford oferecia aos participantes dois currículos de candidatos a um posto de consultoria de gestão. Os dois eram de mulheres e idênticos, exceto que um mencionava que a pessoa em questão era parte de uma associação de pais e professores. Segundo a classificação dos participantes do teste, a mulher com filhos tinha chance de contratação 79% menor e ofertas salariais US$ 11 mil mais baixas.

Outro estudo constatou que mulheres altamente motivadas eram vistas pelos empregadores como tão dedicadas ao trabalho que provavelmente eram más mães e isso resultava em aumentos salariais menores e em menos promoções.

O embate Sheryl Sandberg-Marissa Mayer "executiva mega blaster sucedida que também quer ser mãe" vs. Anne-Marie Slaughter "era super poderosa largou tudo para ficar com os filhos pois não dá para 'ter tudo'" tem voltado cada vez mais à tona com mulheres de ambos os times se agredindo e se julgando com frases como: "a carreira é menos importante que os filhos" "de que adianta ter dinheiro e não ver seus filhos crescerem" ou ainda (no time das que optaram por ficar em casa), "prefiro ter uma vida simples mas não correr o risco de traumatizar meus filhos" em resposta às críticas das "ambiciosas" que acusam as que abdicam da carreira de "não terem sonhos próprios" ou "individualidade" e assim por diante (leia mais em http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2012/07/why-women-still-cant-have-it-all/309020/ e em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/55906-o-castigo-maternidade.shtml )

Para mim há razão em ambos os argumentos e eles não deveriam ser opostos. Sheryl Sandberg acerta quando diz que devemos procurar parceiros capazes de apoiar nossas carreiras, dividir as tarefas caseiras e motivar-nos a manter nossas ambições. Assim, como acredito que acerta quando alivia a culpa das mães que pedem ou pagam ajuda. Mas também acerta Anne-Marie ao ressaltar que o que precisa realmente mudar, é a cultura das empresas: a ideia de que presença e jornadas longas de trabalho, e não a eficiência, resultem automaticamente em competência no trabalho, o quê já está mais do que provado não é verdade.

É claro que, existem inúmeros outros fatores nesta equação que não abordam as classes onde trabalhar ou não sequer é um questionamento e sim uma necessidade básica de sobrevivência e é obvio que nenhuma das duas esgota os problemas da realidade de mercado feminina que engloba também as classes mais baixas onde a remuneração passa longe de ser justa para as mulheres. Acredito, porém que ter mais mulheres na liderança, transformar a visão das empresas como pretende Anne-Marie e trazer os homens para a equação como sugere Sheryl seja o caminho para trabalhar o problema em forma de cascata.

Defendo as licenças em tempos iguais e sucessivos (6 meses para mãe e 6 meses para o pai por exemplo) justamente para equilibrar essa equação que já anda para lá de desajustada para todos os envolvidos (mães, pais, crianças e empregadores)

"Um mundo de fato igualitário seria aquele em que as mulheres comandassem metade dos países e das empresas e os homens dirigissem metade dos lares." (Sheryl Sandberg)

Isso jamais será possível com a legislação "forçando" mulheres a escolher entre suas carreiras e a maternidade.

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/projeto-de-lei-quer-aumentar-licenca-maternidade-para-um-ano

Post originalmente publicado em http://selfdh.blogspot.com.br/2014/11/projetoscomo-esse-que-parecem-primeira.html

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