OPINIÃO
16/11/2015 12:15 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Je sui inquiet

Este é o momento de sentir a dor, de refletir sobre a vulnerabilidade da vida, da paz, da segurança e da ilusão de harmonia que nos vendem a todo momento. No mínimo, não havendo nada de bom a dizer, é o momento de calar!

Thierry Orban via Getty Images
PARIS, FRANCE - NOVEMBER 16: People gather to observe a minute silence outside the Le Carillon restaurant in memory of the victims of the Paris terror attacks last Friday, on November 16, 2015 in Paris, France. Countries across Europe joined France, currently observing three days of national mourning, in a one minute-silence today in an expression of solidarity with the victims of the terrorist attacks, which left at least 129 people dead and hundreds more injured. (Photo by Thierry Orban/Getty Images)

Os atentados em Paris que mataram cerca de 150 pessoas acontecem um dia após um atentado a Beirute que feriu mais de 200 e que certamente não geraram a mesma solidariedade e comoção mundial.

Assim como não geram a mesma comoção as mortes diárias de negros e mulheres no Brasil, na África ou em qualquer outro lugar do mundo.

Ainda tem a tragédia de Mariana que ocorreu há cerca de dez dias, mas não parece ser tão importante quanto os atentados em Paris para grande parte das nossas timelines.

Ao menos é essa a reclamação de outra parte da timeline.

Me deparo com inúmeras críticas a todos que "não se indignaram com a tragédia de Mariana e se importam com a francesa", mesmo que várias das pessoas que estavam se solidarizando com os franceses tivessem dias antes também se solidarizado com os mineiros (e com todos nós brasileiros na verdade, já que o desastre de Mariana custará a todos nós ambientalmente!).

Logo o Facebook se transformou em uma guerra entre os que se solidarizam com os franceses e se sentem ofendidos por serem acusados de indignação seletiva e os que dizem se solidarizar também com os franceses (sim, porque todo post desses começa ou termina com algo como "e isso não significa que eu não me solidarize com os franceses, maaaas"), quando na verdade estão atacando os mesmos com explicações sobre o porquê a França e os Estados Unidos são os verdadeiros culpados pelos atentados e, de novo, condenando a indignação seletiva.

O objetivo deste post não é fazer uma avaliação política do terrorismo pois de fato há muito a ser dito sobre quem causou o que e como, mas sobre reações humanas, empatia, amor e dor.

Para além das razões políticas, o eurocentrismo e tudo mais, o que me parece ser o que instintivamente leva as pessoas - ao menos aquelas do meu convívio - a se solidarizarem com a tragédia francesa é o "poderia ser comigo", "poderia ser minha filha, minha irmã, meu amigo, etc".

Afinal de contas quantas pessoas você conhece que estiveram em Beirute no último ano? Ou na Nigéria? E quantas que estiveram em Paris? Sim, quantas pessoas VOCÊ conhece que estiveram na cidade mais visitada do mundo?

O ser humano é egoísta por natureza e, assim como para qualquer outra espécie animal, esse egoísmo advém do mais importante e primitivo de todos os instintos: o de sobrevivência!

É justamente esse egoísmo que tende a fazer com que nos importemos com um assassinato na Oscar Freire e não com as dezenas, centenas, milhares de mortes na favela.

Afinal de contas não corremos risco se não formos até esses locais "de risco" não é mesmo?

É justamente essa visão egocentrada que nos leva automática e instintivamente a nos preocuparmos realmente com algo quando este algo nos afeta diretamente. E esse é o caso dos atentados e Paris!

Paradoxalmente esse mesmo instinto de sobrevivência, transformado em egoísmo, é o que está nos conduzindo à extinção já que nos tornamos tão centrados em nós mesmos que esquecemos que precisamos do todo para sermos sustentáveis.

Precisamos das outras espécies, precisamos de água limpa, de matas intactas e de todos os seres humanos vivendo em condições mínimas de dignidade humana para não estarmos sujeitos constantemente ao terror e ao ódio.

Não me parece, no entanto, que apenas julgar esse instinto atacando as pessoas e menosprezando a dor seja um caminho sustentável e seguro para despertar a empatia e o sentimento de amor ao próximo de que precisamos.

Neste momento, atacar franceses responsabilizando-os pelas ações de seus governos não me parece mais correto do que atacar muçulmanos pelas ações de uma minoria fundamentalista.

Como alguém disse, durante o velório não se ataca o defunto, ainda que tivesse dado causa à sua própria morte.

Este é o momento de sentir a dor, de refletir sobre a vulnerabilidade da vida, da paz, da segurança e da ilusão de harmonia que nos vendem a todo momento. No mínimo, não havendo nada de bom a dizer, é o momento de calar!

Atacar franceses e pessoas que se solidarizam com esta tragédia é tão desumano quanto atacar quem colocou foto colorida comemorando a decisão da Suprema Corte Americana sobre o casamento gay enquanto há pessoas morrendo de fome na África.

Sim, porque há, infelizmente, razões suficientes para solidariedade neste mundo tão doentio. Há razões suficientes para sofrimento e medo! Mas há também razões abundantes para a esperança e para continuar lutando!

O terrorismo dirige-se contra o próprio modo de vida de uma comunidade e toda vez que deixamos aflorar, como consequência desses atos, os preconceitos mais obscuros, a vingança e o revanchismo, mais bem-sucedido terá sido o ato considerado terrorista.

Espero sinceramente que ao refletir sobre o "poderia ter sido eu" em Paris, as pessoas possam direcionar o olhar às causas, sim políticas, desses atos de terror e compreender que mudanças são necessárias em toda a nossa forma de olhar o mundo. Mas espero também que os que se consideram portadores desta bandeira de solidariedade e justiça o façam também de forma empática e não pisoteando os cadáveres que ainda não esfriaram.

É feio ter indignação seletiva, mas é feio também não ter empatia e solidariedade. E apenas dizer que há solidariedade na abertura de um discurso quando todo o resto do seu teor apenas ataca e agride não me soa realmente empático.

Mais do que em uma luta para mudar o mundo, desejo estar em uma luta para ajudar pessoas a mudarem seus pensamentos. E simplesmente menosprezar a dor e atacar seus mortos não me ajudam em nada nessa batalha!

E como disse a Aline Andrade em um post compartilhado pelo Quebrando o Tabu:

"Pra cada terrorista que perpetrou a matança hoje em Paris tem dezenas de taxistas levando as pessoas de graça pelas ruas e outras dezenas de parisienses abrindo suas casas para desconhecidos. Para cada executivo da Vale tem dezenas de pessoas doando água e alimentos para os atingidos em Mariana e Governador Valadares. Para muitas tragédias em zonas de conflito (não vou dizer todas) tem uma equipe do Médicos Sem Fronteiras trabalhando graças a doações de pessoas como eu e você. Para cada executivo da indústria cultural querendo barrar a liberdade na rede existem dezenas de pessoas legendando episódios de seriados e filmes de graça, compartilhando música e informação. Para cada pessoa que escreve hashtag bolsomito tem um exército de miçangueiros sendo treinados nos bancos de Humanas. Para cada Eduardo Cunha tem dezenas de coletivos indo as ruas defender os direitos das minorias. Para cada calça saruel que é confeccionada em grandes lojas que utilizam mão de obra escrava, tem dezenas de jovens criando moda própria e sustentável. Para cada playboy queimando morador de rua tem gente da mesma idade recolhendo alimentos para asilos, creches e orfanatos. Para cada menina que sofre bullyng por causa do peso ou do cabelo, surgem novas meninas gritando foda-se. Para cada pensamento de ódio, tem bilhares de pessoas emitindo pensamentos bons em forma de oração, mantra, reza, batuque, energia, vibração ou só pensamento mesmo. Se você acha que a Humanidade piorou muito pegue um livro de História. Volte no tempo 500, 1000 ou 2000 anos e me mostre quando tivemos paz? Hoje temos poderio bélico inigualável e informação que circula. Essa é a diferença. E pelo menos ainda há o espanto. Há 1000 anos seria tudo normal. Em suma: não é que o Mal venceu. Ele só tem uma equipe de marketing melhor. E olha que eu nem sou otimista..."

Pois é, o mundo nunca não esteve em guerra e a suposta paz do "primeiro mundo" sempre teve um preço para aqueles que foram oprimidos, colonizados e saqueados reiteradamente!

Espero que todos nós possamos finalmente compreender que precisamos uns dos outros e que todos são importantes e que a humanidade vai se extinguir se continuar no mesmo modelo mental de posse e conquista, ignorando as minorias e os menos favorecidos em prol de um ilusório conforto!

Toda minha solidariedade aos que sofrem seja em que lugar do mundo for e todo o meu esforço para fazer do mundo um lugar mais solidário e humano e engajado vão na forma de trabalho e de ações, mas também de palavras de carinho e acolhimento!

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