OPINIÃO
24/09/2015 16:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Até quando?

O que é necessário para enxergarmos que há um genocídio de jovens negros acontecendo em nosso País? De quantas fotos de crianças náufragas e de quantos Cristians e Vinicius precisamos?

Montagem/Divulgação/AP

Logo após a comoção mundial pelo menino sírio que trouxe à baila uma discussão importante e necessária sobre a imigração e os refugiados, Cristian foi morto ao se ver no meio do fogo cruzado da polícia com traficantes.

Silêncio!

Cadê a comoção?

O tempo verbal das matérias que tratavam da morte precoce de Cristian é o futuro do pretérito!

Ele "teria sido atingido", e a arma encontrada com ele "não seria dele".

O que paira quando se trata da morte de um adolescente negro e pobre é a desconfiança. Desconfiança de que "alguma coisa ele deve ter feito". 

Ontem, Herinaldo Vinicius estava indo comprar uma bolinha de pingue-pongue quando policiais se "assustaram" com a criança correndo e atiraram tirando-lhe a vida aos 11 anos, porque é claro que né... crianças correndo... coisa assustadora?!!

Mais uma criança morta sem qualquer razão que não sua cor e sua classe. Mais uma entre tantas...

 

Em meio a tudo isso, arrastões no Rio têm endossado discursos antidemocráticos e racistas que justificam uma espécie de prisão preventiva baseada na cor da pele, trajes e quantidade de dinheiro portado na bermuda.

Justiceiros começam a agir livre e impunemente e tudo isso curiosamente toma proporções midiáticas justamente enquanto ainda se discute a aprovação da PEC que deve confirmar a redução da maioridade penal para 16 anos.

Eu já escrevi sobre maioridade penal e privilégios aqui no blog e não quero ser repetitiva, mas não consigo parar de me chocar e me entristecer com a absoluta falta de empatia que tem tomado conta das pessoas no que se refere a seres humanos que parecem vir de e viver em outro planeta e com o fato de que a qualquer um que questione essas barbaridades é recomendado levar um para casa quando não são despejados desejos de morte cruel à própria pessoa ou familiares como se isso fosse de alguma forma fazer a pessoa "cair em si".

Sobre isso, gostei muito e recomendo a leitura a todos deste texto bastante esclarecedor sobre sociedade, criminalidade e direitos humanos.

Mas a reflexão que quero trazer aqui hoje é: quanto teremos que descer no poço da desumanidade para nos darmos conta de que falhamos?!??

Falhamos completamente com as nossas crianças, com as nossas mulheres, com os animais indefesos e com a natureza que exploramos sem dó nem piedade.

Do que precisamos para entender que não dá mais para olharmos apenas para o nosso umbigo?

Quantas fotos de crianças náufragas e de quantos Cristians e Vinicius precisamos?

O que será necessário acontecer para enxergarmos que há um genocídio de jovens negros acontecendo em nosso País debaixo do nosso nariz?

Do que precisamos para começar a olhar para nós e não para o outro quando se trata do "que deve ser feito"?

Quando começaremos a entender que precisamos assumir o nosso racismo, o nosso classismo, o nosso especismo e todos os outros ismos para podermos então desconstruir e só então construir um país e um mundo melhor?

Nunca me considerei uma pessoa racista, até começar a ouvir os negros e negras que sigo nas mídias sociais.

Dói?

Dói!!!

Dói demais!

Porque você se vê de verdade! Você se sente uma bosta!

Mas é aí que temos a oportunidade de começar a desconstruir o nosso próprio racismo, machismo etc.

Quando assisti a 12 Anos de Escravidão, fiquei muito tocada com as cenas em que a mulher joga um copo na personagem de Lupita e fiquei batendo papo com meu marido.

Fiquei refletindo:

"Será que eu seria uma dessas mulheres? Será que acharia a escravidão natural? Será que eu lutaria pela causa? Será que seria conivente?"

Quando perguntei o que ele achava e como ele acha que seria, ele me lacra: "eu estaria no tronco apanhando!"

E aí me dei conta de como eu estava sendo branca e pensando nos meus privilégios e no meu status de "defensora" quando havia escancaradamente um problema bem maior ali na minha frente!!!

É foda, muito foda se dar conta disso. Se é difícil assumir privilégios, que dirá abrir mão deles...

Eu tive uma vida sofrida para caramba. Não só por ter vivido em uma família pobre a maior parte da vida, mas por ter sofrido inúmeros abusos e ter convivido com merdas com que nenhuma criança deveria conviver.

Mas, ainda assim, ser branca facilitou tudo para mim! Para estar onde estou hoje, para ter a oportunidade de realmente mudar as coisas.

Mas assumir isso não é fácil porque é obvio que a gente prefere se sentir "merecedor" e fazer o papel de "heroína", mas a verdade é essa: sou, sim, privilegiada! E a grande questão é o que vou fazer em relação a isso...

Ainda não tenho todas as respostas, e cada dia é uma desconstrução diferente, com recaídas, com momentos em que me vejo sendo racista, sendo preconceituosa, sendo tudo o que eu defendo não sermos... Sofro com isso!

Mas sei que o meu sofrimento não chega nem aos pés do que o que o racismo e o classismo trazem a suas vítimas!

Cristian poderia ser meu filho, seu filho, e é!

Cristian é filho de uma sociedade doente que por milênios oprimiu e ainda oprime mulheres, crianças, negros, pobres e tantos outros e outras que pagam com a vida pelo ódio, pelo poder e pela manutenção de privilégios como ter mão de obra barata, serviçais nos mimando, carros luxuosos que nos diferenciam dos demais e tantas outras futilidades que nos trouxeram à essa falência!

Cristian é filho de uma sociedade que exclui, que machuca, que mata! Precisamos repensar e agir!

Precisamos entender que, enquanto defendermos a morte e prisão de crianças e adolescentes negras e pobres, estaremos falindo como sociedade, mas também como seres humanos!

Post originalmente publicado aqui

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