OPINIÃO
10/02/2018 07:00 -02 | Atualizado 15/02/2018 18:31 -02

'Feminista': A palavra que eu me recusava a dizer

"Apesar de entender conceitos essenciais do feminismo, ainda achava que feminismo era antihomem."

"Ela me ensinou empoderamento sem usar a palavra feminismo."
NurPhoto via Getty Images
"Ela me ensinou empoderamento sem usar a palavra feminismo."

Minha mãe me ensinou que eu deveria ter respeito por mim mesma. A conhecer os nomes das partes do meu corpo. A avisá-la quando quisesse começar a usar anticoncepcionais. A me defender quando assobiassem para mim na rua. Ela até mesmo me deu meu primeiro vibrador. Minha mãe me criou para que eu soubesse que tinha controle sobre minhas escolhas. Ela me ensinou empoderamento sem usar a palavra feminismo.

Nunca achei que essa criação fosse política. Agora entendo como a política está envolvida em quase tudo. Sinto confusão em relação à política desde sempre. Quando tinha 14 anos (no ano 2000), escrevia para a seção teen do jornal da minha cidade, o Waco Tribune Herald. Cobri assuntos controversos, como casamento gay, legalização da maconha, aborto e os efeitos negativos da imagem de perfeição feminina projetada por Hollywood. Escrever sobre esses assuntos em uma cidade conservadora como Waco, no Texas, me transformou num alvo. Recebia mensagens de apoio e de ódio. Mas era bom saber que minhas palavras provocasse alguma coisa para as pessoas, mesmo que fosse irritação.

Copyright: Waco Tribune Herald

Os 15 anos seguintes foram de idas e vindas políticas. Às vezes eu era a hippie entregando flores para manifestantes conservadores na exibição de Fahrenheit 911 (de Michael Moore) em Crawford, a cidade natal de George Bush, que fica a cerca de 35 quilômetros de Waco. Às vezes eu apoiava Mitt Romney e condenava Obama. Aos 29 anos (em 2015), me mudei para Nova York, para seguir a carreira de jornalista. Foi lá que descobri, sem querer, minha verdadeira identidade política e minha paixão pelas questões sociais.

Mudar para Nova York foi um choque sociopolítico e cultural. De um ambiente em que estava cercada por conservadores que mal falavam de políticos, passei a viver num círculo de liberais que faziam questão de anunciar suas posições – nos sentidos literal e figurado. Eu era uma republicana de cabelo cor-de-rosa que declarava com orgulho não ser feminista. Muitas vezes me contestavam: "Por que você não é feminista?". Não sabia a resposta. Nunca tinham me perguntado aquilo. Então eu perguntava por que as pessoas eram feministas. As respostas tinham um nível intelectual que eu não conseguia compreender. Não tinha ideia do que estavam dizendo, só sabia que elas tinham um nível de autoconsciência e conhecimento político que eu buscava. As perguntas me inspiraram a pensar. E o pensamento me levou a pesquisar. A pesquisa me inspirou a fazer mais perguntas. Percebi que esses nova-iorquinos não queriam que eu pensasse como eles – queriam que eu pensasse por mim mesma. Era uma ideia que eu ainda não tinha aplicado de forma consistente à minha identidade política.

O feminismo em áreas urbanas populosas, como Nova York, é extremamente progressista. Especialmente na era Trump. É cheio de jargões. Palavras como microagressão, macroagressão, mansplain, patriarcado, misoginia, misandria, masculinidade tóxica, cisgênero, privilégio e muito mais. Fingia entendê-las quando elas apareciam nas conversas -- e depois corria para o Google.

Notei que as mulheres que se diziam feministas, apesar de intelectualmente estimulantes, muitas vezes pareciam raivosas. As palavras delas pareciam brotar de uma fonte de amargor. Um lugar no qual eu não queria estar. Não quero ser uma feminista raivosa! Feministas odeiam homens! Amo homens! Sou humanista!

Depois de alguns meses na cidade, estava falando sobre essa confusão com minha amiga Megan. "Não sou feminista", disse para ela. "Você é, com certeza. Você gosta de votar. Você gosta da ideia de salários iguais. Você não quer ser tratada de maneira diferente só porque é mulher", disse ela. "Sim, mas não sou antihomem", respondi. "Nem eu. Prefiro papéis de gênero tradicionais no relacionamento, e tudo bem. Feminismo é escolha." Essa explicação simples mudou tudo para mim. O céu abriu. Os passarinhos cantaram. As flores desabrocharam. Entendi o feminismo. Feminismo. É. Escolha.

Entender o empoderamento por trás das escolhas ajudou a resolver os problemas que eu tinha com a palavra feminismo. Assisti a vídeos de mulheres como Chimamanda Ngozi Adichie, Kiran Gandhi e Gloria Steinem. Aprendi que certas coisas que eu simplesmente aceitava como parte de ser mulher na realidade estão erradas. Assobio é assédio sexual. A pressão da sociedade para esconder a menstruação é uma forma de opressão. Apesar do que diz a indústria da beleza, "ficar linda" não é minha função como mulher. Também senti raiva.

Apesar de entender conceitos essenciais do feminismo, ainda achava que feminismo era antihomem. E os homens que são estuprados? E os homens de minorias que não são tratados como os brancos? Essa curiosidade me levou a pesquisar mais, e acabei descobrindo Kimberlé Crenshaw e o feminismo interseccional. Ver homens famosos como Matt McGorry, Will Smith e John Legend se identificando como feministas me ajudou a entender que a palavra não é usada só por mulheres. Trata-se de igualdade. Manifestar-se contra o racismo, a homofobia, a masculinidade tóxica e a discriminação de gênero são parte da agenda do feminismo interseccional moderno. Para mim, dizer que sou feminista significa apenas que sou a favor da igualdade e da escolha.

NonLinear Knitting Photography

O feminismo não é o que eu pensava. Não é colocar culpa na vítima; é dar voz à vítima. Feminismo não é antihomem; é discutir o problema da masculinidade tóxica. Feminismo não é choramingar; é jogar luz sobre as injustiças.

Minha mãe me criou com o poder da escolha. Megan só me lembrou que eu sempre tive esse poder.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Photo gallery 18 mulheres fascinantes que tentaram candidatar-se à Presidência desde 1872 See Gallery