OPINIÃO
07/01/2015 17:59 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Por que as medidas contra 'epidemia' de cesarianas (ainda) não resolverão o problema

Eu sou mãe. E assim como a maioria absoluta das mulheres com filhos no Brasil, tive contato com o sistema obstétrico em que o normal é anormal. Pressionar os planos de saúde é o primeiro passo - continua sendo muito difícil conseguir um nascimento respeitoso no Brasil.

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Eu sou mãe. E assim como a maioria absoluta das mulheres com filhos no Brasil, tive contato com o sistema obstétrico em que o normal é anormal - em que, se você não nadar contra a corrente, acabará em uma cirurgia ou submetida a procedimentos desnecessários e até violentos mesmo que sua vontade seja trazer seu filho ao mundo de uma forma natural.

Por isso eu comemorei a notícia de que o governo tomará medidas para reduzir o número de cesarianas no Brasil. Qualquer passo nesse sentido é um avanço. Mas foi uma comemoração tímida: o caminho para o combate à violência obstétrica e para a busca por nascimentos mais respeitosos para mães e bebês está muito longe de ser resolvido.

Hoje, no Brasil, o índice de cesarianas é de 52% - na rede privada, o número chega a 88%. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda no máximo 15%. São vários os fatores que tornam o País um dos campeões das cirurgias - e o pacote do governo quer, por exemplo, que as gestantes sejam informadas sobre o índice de cesarianas dos médicos e hospitais, que os obstetras utilizem o partograma (registro do trabalho de parto) e justifiquem os casos em que foram necessárias cirurgias.

A medida do governo quer acabar com cesarianas feitas por comodidade, sem real necessidade. Ela deve sim ajudar a inibir aquela chuva de agendamentos que acontece nos finais de semana e vésperas de final de ano, mas ainda não é a solução para o problema - e pode trazer, inclusive, outras implicações na saúde e no tratamento à gestante. Quem se preocupa com violência obstétrica no Brasil tem vários pontos para ficar de olho daqui em diante.

Qualquer coisa pode virar 'sofrimento fetal' ou outra justificativa para a cesárea. Sofrimento fetal é quando, durante o trabalho de parto, o bebê têm uma queda em seus batimentos cardíacos que não é restabelecida após o fim da contração. O obstetra pode tentar reduzir o tempo de parto com fórceps, por exemplo, se a queda nos batimentos estiver acontecendo no período expulsivo, ou decidir pela cesárea para preservar o bem estar do bebê. Neste caso, a cirurgia é bem indicada. O que acontece, porém, é que hoje muitos médicos optam pela cirurgia sem que o bebê esteja de fato em sofrimento. O mecônio, por exemplo, por si só não indica sofrimento fetal. Mas muitos médicos acreditam que sim. A obstetra e pesquisadora Melania Amorim compilou justificativas dadas que não são reais indicações de cesáreas - você pode ler a lista aqui.

Partos normais cheios de intervenções podem ser piores do que cesáreas. É muito raro uma gestante procurar um hospital e, com a equipe de plantão, conseguir parir o seu filho sem intervenções - uso de analgesia, ocitocina sintética para acelerar o trabalho de parto, episiotomia (corte na vagina) e a manobra de Kristeller (quando um enfermeiro ou um médico sobe na barriga para empurrar o bebê - neste mês, um hospital paulistano aboliu a prática por considerá-la violência). Muitas dessas intervenções são desnecessárias e feitas de forma violenta. Quando está em trabalho de parto, a mulher fica vulnerável e precisa, além de uma boa assistência obstétrica ou médica, de respeito às suas decisões e à sua integridade. Muita gente defende que uma cesárea 'limpa' é mais respeitosa do que um parto 'frank', esses cheios de intervenções, que deixam mulheres traumatizadas e mutiladas. É preciso reduzir o número de cesarianas, sim, mas não a qualquer custo - porque isso pode resultar em mais violência contra as mulheres.

Menos profissionais atendendo pelo plano?Muitos críticos também afirmaram que a medida fará muitos profissionais deixarem de atender por planos de saúde. Já é complicado encontrar profissionais que façam partos normais dentro do sistema de saúde suplementar - os valores pagos pelos planos são considerados muito baixos (R$ 400 a R$ 800) e um trabalho de parto pode durar 10, 12, 18 horas. (Para efeito de comparação, um parto natural pode custar R$ 15 mil). Com a cesárea, o trabalho do médico é mais rápido - e o valor é o mesmo. Por isso era mais fácil encontrar médicos partidários da cesárea no sistema de saúde suplementar. Agora, porém, críticos afirmam que médicos que já costumam fazer cesáreas deixarão de fazer o procedimento pelo plano, só atendendo as mães que pagarem pelo particular.

O problema é complexo. Pressionar os planos de saúde a fiscalizarem os procedimentos de seus médicos é o primeiro passo, mas é preciso não se iludir: só isso não resolve o problema da assistência à gestante e ao parto. Continua sendo muito difícil conseguir um nascimento respeitoso no Brasil.

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