OPINIÃO
05/01/2015 17:57 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O que o suposto bloqueio de usuários do Netflix nos ensina sobre a internet

A internet acessada em um país pode não ser a mesma acessada em outro canto do planeta. E quem define o conteúdo a ser visto pelos usuários não são os usuários. Ainda é a indústria.

Taro the Shiba Inu/Flickr/Creative Commons

A internet é a rede mundial de computadores, certo? Não necessariamente.

É isso que nos mostra o suposto bloqueio de usuários que usam VPNs para acessar o Netflix dos EUA. Quem usa o serviço de streaming sabe que o catálogo brasileiro não é grandes coisas (por causa de contratos de licenciamento com produtoras e distribuidoras, cada país tem o seu próprio catálogo). O dos EUA, porém, é cheio de filmes e séries que sabe-se lá quando chegarão ao Brasil.

A solução adotada por muitos foi usar proxies ou VPNs que burlam a localização geográfica. Veja bem: esse artifício não é usado apenas para burlar o sistema. São ferramentas muito importantes para se garantir a segurança na rede ou o anonimato, em muitos casos.

Acontece que a indústria cinematográfica, é claro, não quer saber de usuários do Brasil acessando antes suas séries que ainda demorarão para estrear por aqui. Os 'piratas da VPN', como supostamente são chamados (eu achei isso meio engraçado), acabam acessando o conteúdo antes e atrapalhando a distribuição normal dos estúdios (que ainda acham ok atrasar o lançamento em alguns países).

Agora veio a notícia de que o Netflix começou a penalizar esses 'piratas', cortando a conexão deles com o serviço. Segundo conta a Info, "o aplicativo de Android começou a forçar o uso do Google DNS, tornando mais difícil usar desbloqueadores DNS baseados na localização. Vários outros serviços de VPN também foram alvo das medidas do serviço de streaming".

A medida afetou apenas alguns usuários. O Netflix estaria testando outras medidas de bloqueio, como verificar o fuso horário e compará-lo ao endereço de IP registrado.

O Netflix negou. Segundo um porta-voz da empresa, o Netflix "usa os métodos padrão da indústria para prevenir o uso ilegal de VPN" e nada mudou em relação às políticas anteriores.

Os termos de uso da empresa afirmam que "o conteúdo disponível irá variar de acordo com a localização geográfica. O Netflix usará tecnologias para verificar sua localização".

O TorrentFreak, primeiro site a reportar o caso, aposta que as medidas restritivas contra os novos 'piratas' vão piorar - e afetarão também quem usa VPNs por questões de privacidade ou de segurança.

O suposto bloqueio revela que, em alguns casos, a internet acessada com ferramentas para ficar anônimo não é a mesma internet acessada por usuários comuns. A internet acessada em um país pode não ser a mesma da internet acessada em outro canto do planeta. E quem define o conteúdo a ser visto pelos usuários não são os usuários. Ainda é a indústria.

Nota da autora: o post foi alterado. Na redação original, havia uma parte em que eu mencionei a neutralidade de rede, afirmando que esse era um princípio difícil de ser colocado em prática. Usei a definição da neutralidade que me foi dada por Demi Getschko, um dos pais da internet no Brasil, em 2012. Ele enumerou a neutralidade em três níveis: "o primeiro é a estrutura da rede. O segundo nível é na rede IP, como um conteúdo que não pode ser visto em determinado país. E por fim, a restrição mais refinada é em relação aos provedores de serviços e conteúdo - o Google bloquear determinado resultado de buscas, por exemplo". Foi nesta definição que eu baseei a menção à neutralidade feita por aqui. Porém, após algumas observações de leitores, busquei mais definições técnicas e nelas a neutralidade é sempre relacionada aos provedores de acesso - eles não podem fazer distinção sobre os serviços e conteúdos que trafegam nas redes. Os projetos de lei que discutem o tema nos EUA e no Brasil (o Marco Civil) abordam a neutralidade nesse aspecto: o das telecoms, e não no dos provedores de conteúdo e serviços, caso do Netflix. Assim, não houve quebra de neutralidade aqui. Por isso, suprimi o parágrafo em que eu mencionei a neutralidade para ficar fiel à definição técnica deste termo. Obrigada :)

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

VEJA TAMBÉM:

Galeria de Fotos Netflix: novas e antigas séries originais Veja Fotos