OPINIÃO
19/02/2015 17:22 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Eu pagaria feliz da vida para usar o Popcorn Time. E você?

Muitas vezes, as pessoas consomem conteúdo ilegalmente simplesmente porque não têm opção. Não é todo mundo que pode sair de casa para ir ao cinema. O mundo todo está conectado, mas Hollywood ainda tem a estratégia de atrasar o lançamento de filmes e séries em alguns países. Mecanismos piratas oferecem o conteúdo que o usuário quer de maneira simples e fácil. Como resistir?

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Eu sou mais uma usuária do Popcorn Time. Você pode dizer que eu sou uma pirata, mas eu não sou a única. O site, apelidado pela mídia como 'Netflix pirata', tinha há cinco meses 1,2 milhão de usuários só nos EUA - daí dá para imaginar o tamanho hoje em dia no resto do mundo.

Para quem ainda não conhece, o Popcorn Time é um software que transforma a tarefa de baixar um torrent e assistir a um filme em algo bem simples - tão simples quanto escolher um filme no Netflix. Em vez de precisar recorrer a um cliente de torrent, encontrar um sistema de busca (como o The Pirate Bay), baixar o torrent e as legendas, o Popcorn Time te exibe um catálogo, você escolhe o filme que desejar e pronto: ele baixa o torrent e carrega o filme e as legendas em poucos minutos. E, diferente seu maior concorrente legalizado, ele tem um catálogo imenso, inclusive com filmes recém-lançados (que ainda nem chegaram aos cinemas do Brasil). E qual é o problema com ele, afinal?

Ele é pirata. E os seus milhões de usuários também são.

Tanto é que, logo no início, os criadores decidiram tirar o Popcorn Time do ar por causa de ameaças legais. Eles exibiram um comunicado que dizia o seguinte:

"A pirataria não é um problema das pessoas. É dos serviços. É um problema criado por uma indústria que vê a inovação como uma ameaça à sua antiga receita de obter lucro. Nós mostramos que as pessoas correrão o risco de tomar multas, sofrer processos e outras consequências só para assistir a um filme recente de chinelos. Só para ter a experiência que merecem."

O respiro de alívio da indústria - e do Netflix - não durou muito. Como o Popcorn Time não hospeda os arquivos (ele exibe arquivos que ficam nos computadores dos usuários), o site se defende afirmando que é apenas uma plataforma para exibir os arquivos. E, como é open source e tem o seu código disponibilizado de forma livre, foi facilmente recriado. Se uma versão for derrubada, não faltarão programadores voluntários para pegar o código e colocar novamente o Popcorn Time de pé. O The Pirate Bay está aí para provar que prisões, multas milionárias e confiscos de servidores não são suficientes para inibir uma comunidade sedenta por conteúdo.

A pirataria - o Popcorn Time incluído - é vista como um dos principais concorrentes do Netflix. Hoje, no mundo, o Netflix tem 57 milhões de usuários que pagam uma mensalidade para assistir ao catálogo disponibilizado. Eu também uso o Netflix. Mas me frustro com o acervo limitado que é disponibilizado no Brasil - e é aí que apelo para o Popcorn Time. Minha alternativa seria, como muitos usuários fazem, usar uma VPN para enganar o Netflix e fingir que eu estou nos EUA para acessar o catálogo de lá - outra alternativa ilegal (tanto é que começou a ser combatida pela empresa). Ou esperar muitos meses para assistir ao que procuro. Quem espera hoje em dia?

Por outro lado, olha só que curioso, o streaming está ajudando a matar a pirataria de música. Segundo uma pesquisa feita pelo Instituto Opinion Box aqui no Brasil, quem escuta músicas por streaming (em serviços como o Spotify, Deezer, Rdio e outros) tem 31% menos hábito de fazer downloads ilegais. No mundo, esse número é ainda menor: entre os usuários de streaming, só 25% baixam músicas ilegalmente. Por que? Por causa da combinação: preço baixo e grande repertório.

Muitas vezes, as pessoas consomem conteúdo ilegalmente simplesmente porque não têm opção. Não é todo mundo que pode sair de casa para ir ao cinema. O mundo todo está conectado, mas Hollywood ainda tem a estratégia de atrasar o lançamento de filmes e séries em alguns países. Mecanismos piratas oferecem o conteúdo que o usuário quer de maneira simples e fácil. Como resistir?

Se houvesse boas alternativas pagas - ou o próprio Popcorn Time conseguisse fazer acordos com os estúdios para disponibilizar seu acervo de forma legal e sem bugs - eu pagaria para usar os seus serviços com prazer. Comentei isso no meu Facebook e muitos amigos concordaram comigo. Contra a pirataria, é simples: a indústria precisa se mexer e encontrar alternativas melhores do que as piratas. Isso já está acontecendo no mundo da música. Falta acontecer com o cinema.