OPINIÃO
11/02/2018 21:25 -02 | Atualizado 11/02/2018 21:29 -02

A hora de voltar

Quando eu percebi que fazia quase dez anos que eu não mexia no CV, senti uma espécie de desespero...

Articulista reflete sobre maternidade e a hora de voltar ao mercado de trabalho.
AOL
Articulista reflete sobre maternidade e a hora de voltar ao mercado de trabalho.

Fazer um currículo. Coisa simples. Você deve ter um. Eu tenho, ou pelo menos tinha um. Depois de quase uma década sem nem ouvir falar do dito cujo, eis que ele surge de novo na minha vida.

Tive que procurar na busca do meu email "currículo tati" e lá estava ele. A última vez editado em 2007 quando me formei na universidade. Sequer tinha o arquivo gravado no meu computador!

Quando eu percebi que fazia quase dez anos que eu não mexia nele, senti uma espécie de desespero, um nervoso daqueles que deixam a gente enjoada. Como pode fazer tanto tempo? Como é que as pessoas de hoje em dia editam as suas qualidades? Como se arruma um emprego, minha gente?

Foram seis anos fora do mercado, mais de dois mil dias tendo o privilégio de me dedicar exclusivamente à maternidade, cuidar dos meus filhos, presenciar cada primeiro passo, cada novidade, de me desesperar por não saber se o que eu estava fazendo era certo, de me reinventar todos os dias.

Mas é hora de voltar.

Sim, voltar pro tal do tenebroso e ao mesmo tempo maravilhoso mercado de trabalho.

As crianças estão maiores, o mais novo já vai completar quatro anos e foi surgindo dentro de mim uma vontade muito grande de me ver em outro lugar de novo. De recuperar a mulher dentro de mim que trabalha, escreve, tem um sonho guardado lá no fundo só dela e que quer desesperadamente seguir em frente.

Foram maravilhosos todos estes anos, mas estou pronta pra próxima fase.

Pois bem, não foi uma década fora do mercado. A última vez que eu arrumei meu currículo foi para o emprego que eu consegui logo depois que me formei, que, na verdade, já era a empresa de que eu fazia parte como estagiária.

Fiquei lá quatro anos e depois saí quando tive gêmeas. Mas quando fui reescrever o currículo fiquei pensando em todas as coisas que eu poderia colocar como qualidades desenvolvidas nos últimos anos... Veja bem, o trabalho foi árduo e contínuo. Vinte quatro horas por dia, sete dias por semana de total comprometimento.

Devo dizer que aprendi muito sobre ser uma pessoas que realiza bem multitarefas, expert em gerenciamento de conflito, além de ter organização e ser excelente em planejamentos. O que dizer sobre liderar equipes e inventar novas formas de ver um problema?

Mas não sei se meus futuros empregadores estarão interessados nessas habilidades desenvolvidas com tanto suor e idas aos parquinhos da vida. Aliás, o cenário para uma mãe de três filhos não é lá dos mais favoráveis.

No entanto, não quero me desanimar antes do tempo. Será que digo na entrevista que a maternidade muda tudo, muda a gente demais e nos faz repensar em como o tempo é valioso, em como minhas horas longe dos meus filhos precisam valer a pena?

A grande maioria das mulheres que eu conheço repensou o caminho profissional delas depois de se tornarem mães, e isso é maravilhoso! Isso quer dizer que temos mulheres envolvidas nos seus trabalhos, em busca dos seus sonhos, em busca do que elas acreditam.

Uma coisa é certa: neste meu novo capítulo, vou sem expectativas e consciente de que não há controle, algo que também aprendi nos últimos anos com esses três seres maravilhosos.

No fim, acabei acrescentando duas linhas no meu currículo, atualizando o endereço, celular, adicionei Instagram e pronto. Não quis nem mexer na fonte.

Meu CV é o que é, assim como eu sou quem sou. Uma pessoa com bagagem, mas empolgada pro que virá.

Com muita vontade de fazer o que eu amo, de ter minha independência pessoal e financeira, e de poder ensinar pros meus filhos que eles também podem, precisam, devem, fazer tudo com significado, seja trabalhar, sonhar ou educar alguém.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

O amor universal entre mães e filhas