OPINIÃO
10/07/2014 16:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Por que a mais inovadora fabricante de veículos abriu mão de suas patentes

O valor de mercado da Tesla (US$ 28 bilhões) já é quase metade do valor da GM e 40% da Ford.

robertiez via Getty Images

A Tesla é a mais jovem fabricante americana de carros em série. Fundada em 1993, a empresa produz exclusivamente carros elétricos. Mas nada de híbridos, são puro sangue mesmo, 100% elétricos!

A produção em massa começou em 2012 e, em 2013, atingiu a marca de 25 mil carros projetando chegar, em 2014, a 35 mil carros. Embora sua produção represente pouco mais de 1% do que fabricam anualmente gigantes como a Ford e a GM, o valor de mercado da Tesla (US$ 28 bilhões) já é quase metade do valor da GM e 40% da Ford.

O que faz da empresa um caso raro de sucesso é uma série de inovações que têm poder para revolucionar todo o setor automobilístico. As vendas são diretas (não existe concessionária) pela internet. O veículo é conectado a internet permanentemente e a manutenção é feita, muitas vezes, através de atualizações no sistema operacional ou aplicativos/softwares do carro. Sua performance é superior a dos automóveis movidos a motor a combustão em quase todos aspectos: velocidade, arranque, segurança, conforto, espaço útil e economia. Foi considerado pela Consumers Report como o melhor carro já produzido entre todas as categorias.

A impressão que se tem depois de se conhecer um veículo da Tesla é que todos os demais automóveis são ultrapassados. E os conceitos ali aplicados podem ser expandidos para o transporte coletivo de passageiros e mesmo de carga.

Uma dos compromissos da Tesla é oferecer gratuitamente carregamento super rápido (20-25 min) em estações fixas distribuídas de forma a permitir que qualquer veiculo possa cruzar países e continentes sem ficar na mão.

A Tesla possui centenas de patentes e outros tantos segredos industriais em áreas que vão de baterias (só aí são mais de 100 patentes) a motores elétricos, de sistemas de fabricação e equipamento de carregamento. Este parecia ser o fator primordial de competitividade da Tesla, mas a empresa tomou a surpreendente decisão em junho de liberar o uso de todas a suas patentes como forma de acelerar a oferta de veículos elétricos.

Em carta aberta aos acionistas da empresa e ao público, Elon Musk, empreendedor e CEO da empresa, explica que a missão da empresa é acelerar a adoção do transporte sustentável e que, ao liberar as patentes, contribui para esta missão. Ele diz que seus competidores não são os demais fabricantes de carros elétricos, mas os 200 milhões de carros produzidos anualmente com motores a combustão.

A demanda por carros da Tesla é muito maior que a capacidade de fabricá-los, e a capacidade financeira e a estrutura da empresa para montar a infraestrutura de abastecimento rápido ou produzir baterias é limitada. Para que os veículos elétricos se tornem protagonistas do transporte de passageiros é fundamental a rápida adoção de inovações como aquelas produzidas pela Tesla.

Ao abrir as patentes, Elon Musk abre uma avenida de oportunidades para revoluções em outros setores tão fundamentais para uma economia de baixo carbono como tecnologias de produção, geração, armazenamento e distribuição de energias renováveis modernas ou a reciclagem e o processamento de resíduos. Que seja seguido o exemplo!

Abaixo a íntegra da mensagem em que Elon Musk anuncia e explica a decisão, em 12/06/2014:

Até ontem, havia um painel com as patentes da Tesla no lobby da sede de Palo Alto. Isso já não é o caso. Eles foram removidos, no espírito do movimento open source, para o avanço da tecnologia de veículos elétricos.

Tesla Motors foi criada para acelerar o advento do transporte sustentável. Se abrirmos o caminho para a criação de veículos elétricos convincentes, mas atrás de nós deixarmos um caminho minado com barreiras de propriedade intelectual, estamos agindo de forma contrária a esse objetivo. Tesla não processará qualquer pessoa que, de boa fé, quiser usar nossa tecnologia e nossas patentes.

Quando lancei minha primeira empresa, Zip2, pensava que patentes eram uma coisa boa e trabalhei duro para obtê-las. E talvez elas tenham sido boas por um bom tempo, mas, hoje, muitas vezes elas servem apenas para abafar o progresso, consolidar as posições das corporações gigantes e enriquecer advogados, em vez de os inventores reais. Depois da Zip2, quando me dei conta de que receber uma patente realmente só queria dizer que você comprou um bilhete de loteria para uma futura ação judicial, passei a evitar as patentes sempre que possível.

Na Tesla, no entanto, nos sentimos obrigados a criar patentes com a preocupação de que as grandes empresas de automóveis iriam copiar nossa tecnologia e, em seguida, usar a sua enorme capacidade instalada de produção, vendas e marketing para oprimir a Tesla. Infelizmente, estávamos equivocados. A triste realidade é o oposto: os programas de carro elétrico (ou programas para qualquer veículo que não queima combustíveis fósseis) nos principais fabricantes são pequenos ou inexistentes, constituindo uma média de menos de 1% das suas vendas totais de veículos.

Na melhor das hipóteses, as grandes montadoras estão produzindo carros elétricos com alcance e volume limitado. Muitas ainda não produzem um único carro com zero de emissões.

Dado que a produção anual de veículos novos está se aproximando de 100 milhões por ano e a frota mundial é de cerca de 2 bilhões de carros, é impossível para a Tesla construir carros elétricos de forma rápida o suficiente para lidar com a crise de carbono. Da mesma forma, isso significa que o mercado é enorme. Nossa verdadeira concorrência não é o pequeno mercado de outros carros elétricos sendo produzidos, mas sim a enorme enxurrada de carros a gasolina saindo das fábricas de todo o mundo a cada dia.

Acreditamos que a Tesla, as outras empresas que fazem carros elétricos e o mundo todo se beneficiariam da rápida evolução de uma plataforma comum de tecnologia.

A liderança tecnológica não é definida por patentes (a história tem mostrado repetidamente oferecer pouca proteção de fato contra um concorrente determinado), mas, sim, pela capacidade de uma empresa para atrair e motivar os engenheiros mais talentosos do mundo. Acreditamos que a aplicação da filosofia open source para nossas patentes vai reforçar em vez de diminuir a posição de Tesla a este respeito.

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