OPINIÃO
13/07/2015 17:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Procura-se professor que não queira ensinar - ou só ensinar

O que mais leio, escuto e estudo é que o papel do professor está em plena evolução e que um dos grandes problemas é que somos treinados para ensinar. E ensinar, na maior parte do tempo, é uma relação de mão única: eu ensino, vocês aprendem. Só que, ainda bem, os alunos do século XXI não são como as minhas bonecas da infância, que ficavam ali passivos, imóveis, apenas absorvendo o que eu passava para eles (sempre acreditei nisto). Dar aulas hoje é muito mais desafiador.

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Ainda me lembro das minhas duas brincadeiras preferidas, que marcaram a minha infância. Uma delas era pegar uns bloquinhos de madeira com as letras do alfabeto pintadas em verde e fingir que era um teclado. Passava um bom tempo batendo no meu teclado dos "Flinstones" achando que era uma escritora. Aquilo acabava com meus dedos de tão duro. A outra era colocar as bonecas sentadas em fileiras, com um caderno e um lápis na frente e dar muitas aulas escrevendo numa pequena lousa - quadro negro para os cariocas - e ensinando meus alunos inanimados sobre muitas coisas: palavras, equações, mapas. De alguma forma as duas se transformaram em uma ocupação. Sou redatora, planejadora e blogueira. Escrevo muito e ainda sinto dor na ponta dos dedos em dias de muito trabalho, mas os teclados dos laptops e computadores são bem mais macios que o meu teclado de brincadeirinha. Há algum tempo passei a ser professora. Dou aula em universidades, em empresas e em grupos mais informais.

É uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. Sinto o que alguns psicólogos chamam de "experiência de fluxo" quando estou dando aulas. É algo tão visceral, tão intenso, tão desafiador e prazeroso que nem sinto o tempo passar. Como nem sempre bebo água termino muitas aulas rouca, mas absolutamente feliz.

O ofício de professor, dizem, precisa de vocação, preparação, dedicação. Acredito nisto. Entretanto, olhando para alguns dados históricos esta não é uma profissão muito "nobre", como medicina, engenharia, direito. No século XIX, o serviço público britânico começou a contratar trabalhadores por meio de concursos públicos, o que deixou a aristocracia da época aborrecida.

Até então os empregos bons eram para os mais abastados e influentes. Esta ideia meritocrática, de testar conhecimentos era uma novidade. Na época, as pessoas sem recursos não conseguiam seguir as carreiras concorridas, como direito, medicina e clero e acabavam virando cobradores de impostos, escriturários ou...professores. Não é da época, mas bem antiga a frase "quem sabe faz, quem não sabe ensina". Preconceituosa, mas que traz à tona a relação entre teoria e prática. Será que os professores devem dominar ambas?

O que mais leio, escuto e estudo é que o papel do professor está em plena evolução e que um dos grandes problemas é que somos treinados para ensinar. E ensinar, na maior parte do tempo, é uma relação de mão única: eu ensino, vocês aprendem. Só que, ainda bem, os alunos do século XXI não são como as minhas bonecas da infância, que ficavam ali passivos, imóveis, apenas absorvendo o que eu passava para eles (sempre acreditei nisto). Dar aulas hoje é muito mais desafiador, desde a pré escola até à pós graduação. Existem ótimos exemplos de novos modelos, como a experiência educadora de Reggio Emilia, que entende que a tarefa prioritária dos adultos é a escuta e o reconhecimento da potencialidade de cada criança, que deve ser observada e atendida de forma individual. Com partes do currículo cheia e parte vazia, o professor deve aprender a ensinar construindo junto com o grupo, numa postura bem mais colaborativa.

Passei um dia com Peter Guttenhofer, educador, que forma professores na pedagogia Waldorf no mundo todo em uma experiência de reflexão sobre esta grande pergunta: "Como ser professor em um mundo completamente transformado? Entre muitas descobertas e aprendizados guardei alguns ensinamentos.

É preciso estar aberto para ocupar um papel de facilitador, mediador, co-construtor do conhecimento e sair de um pedestal de "dono da verdade" de uma disciplina. Os saberes, aliás, não cabem mais nestes contornos chamados disciplina. São cada vez mais amplos e multidisciplinares. É preciso desenvolver enigmas e não oferecer respostas prontas. Despertar um certo "maravilhamento" com o aprender e ensinar, descobrir. Ele citou duas situações muito encantadoras. Uma delas a da sua filha, de 6 anos, quando descobriu que quando cortamos a maçã na horizontal descobrimos que todas têm uma estrela de cinco pontas no seu miolo. Na época do Natal, na Alemanha, elas são cortadas assim, penduradas na árvore e, quando a luz das velas passam por suas fatias, refletem uma estrela natalina. Uma oportunidade de aprender e ensinar falando sobre a maçã, uma fruta tão simbólica e que só existe por conta do trabalho do homem, há muitas gerações.

A outra foi uma comparação sobre a nossa relação com o sol e a do tempo dos egípcios. O povo no Egito dormia toda noite preocupado se a deusa Íris ia conseguir reunir todos os pedaços do sol que o dragão engolia durante a noite. Um drama diário. Nós podemos saber precisamente a hora do nascer do sol em cada canto do planeta por conta da nossa evolução tecnológica. Nada contra a tecnologia e o desenvolvimento da ciência, mas de fato perdemos o prazer de não saber, descobrir, nos surpreender.

Ser professor é equilibrar momentos de transmitir todo um conhecimento construído ao longo da sua carreira com momentos de troca, descoberta, dúvidas compartilhadas, sempre respeitando o repertório de cada aluno e se ampliando com ele.