OPINIÃO
10/07/2015 10:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Meu terceiro ano do vestibular: um massacrante ritual de passagem

Shutterstock / michaeljung

Ainda me lembro do ano em que fiz vestibular. No Rio a gente faz vestibular, aqui em São Paulo a gente presta vestibular. Já implico um pouco com o verbo prestar que parece colocar você para uma condição no mínimo reducionista. Você presta para que? Mas, voltando para o primeiro vestibular, o meu, ele foi o primeiro e único no papel de estudante.

Como sou a caçula de uma família de seis filhos pude ter contato com as escolhas dos meus pais e irmãos mais velhos: um bancário, uma contadora, um médico, dois engenheiros, uma publicitária, um administrador de empresas. O fato é que eles não me influenciaram muito. Com 10 anos comecei a escrever e me encontrei na escrita. Com 12 conheci o namorado da minha irmã, redator de agência de propaganda e decidi que seria redatora também, só não sabia se jornalista ou publicitária. Como tive mononucleose e terminei um longo namoro no ano do vestibular não tive uma grande performance. A relação candidato/vaga para comunicação social naquele ano era igual à de medicina. Apesar disto passei, numa particular, mas passei. Minhas lembranças são muito tranquilas. Estudei menos do que deveria, fui bem nas matérias que eu mais gostava, fui pior nas que nunca gostei: física e matemática. Nada demais para quem só teria que encarar uma cadeira de estatística na faculdade. Física, nunca mais. Meus irmãos, mesmo os que fizeram medicina e engenharia, também não parecem ter nenhuma lembrança negativa. Tinha que estudar muito, decorar muitas coisas, mas tudo sem muitos problemas.

Meu segundo ano de vestibular me colocou numa outra perspectiva: a de mãe. E pude acompanhar toda a intensidade, a delicadeza, o desespero, as separações, o medo, as expectativas deste ano. Para mim foi muito mais difícil. Minha filha teve um ano que vai marcar a vida dela para sempre, imagino. O vestibular agora é muito mais disputado do que antes. Com o ENEM concorre-se com gente de todo o Brasil. Com a política de cotas - que eu apoio - a disputa é ainda mais acirrada. Mas isto é só um aspecto deste ano.

É um ano de despedida: da escola, dos amigos da escola, da proteção de uma rede de professores, pais, amigos de infância. É um ano de autoconhecimento: com ou sem ajuda de uma orientação profissional é preciso se conhecer. Saber quais são as habilidades, os talentos, os desejos, os planos, os objetivos para o futuro.

É um ano de expectativas: do aluno, dos pais, dos professores, dos amigos, da escola. É um ano de medos: de não passar, de não ganhar dinheiro, de não dar conta, de não saber como se virar no mundo universitário. Tudo isso com uma quantidade absurda de assuntos para reter, guardar, decorar e usar em sessões massacrantes de até 6 horas de provas. Incrível imaginar, apesar da evolução das provas, que ainda medimos a capacidade de memória dos alunos no lugar da sua capacidade de reflexão, análise, crítica. Minha filha passou na faculdade que ela queria. Pública. Mas teve depressão e outras desordens físicas e psicológicas que a acompanham até hoje, três anos depois. Isto acontece com todo mundo? Certamente não. Mas acontece com mais gente do que imaginamos.

Estou no meu terceiro vestibular. De novo, como mãe. Desta vez a escolha é medicina, o curso mais disputado e com a nota de corte mais alta de todas. A pressão é imensa, maior ainda. Os alunos que são considerados bons e aptos a disputar estas faculdades são como um produto na vitrine da escola.

Cada um que passa em uma faculdade disputada reforça a marca e o projeto da escola. Não é à toa que são disputados por cursinhos e aparecem com a cara pintada e o cabelo raspado nos anúncios sobre aprovação, performance, sucesso. A expectativa é de toda uma indústria.

Minha filha precisa ser boa em todas as matérias. Precisa decorar, entre outras centenas de fórmulas, o nome em latim de 60 nomes de vírus causadores de doenças mais comuns. Algo que, imagino, muitos médicos não saibam e acessem o Google para checar. As provas têm grupos uniformizados de cursinhos rivais que levam escolas de samba e distribuem panfletos e santinhos. Muitos alunos vão com toda a família que compartilha a pressão. É como se, neste ano, a vida terminasse em duas únicas possibilidades: passar ou não passar. Passou? Ganhou.

Não passou? Game Over. Perdeu. Perdeu o que? O que ganhamos com este ritual de passagem que mexe com a saúde, a autoestima, o equilíbrio dos nossos filhos? Será que, a exemplo de outros países, não deveríamos fazer avaliações ao longo de toda a vida escolar dos alunos?

Sei que o assunto vem sendo discutido por educadores e não educadores mas, como mãe, torço para que minha caçula não precise passar por isto. Que nosso sistema de avaliação tenha evoluído e não coloque para cada estudante a limitante situação que é o passei ou não passei. Existe um mundo de possibilidades entre estas duas situações e elas estão aí para ser vividas.