OPINIÃO
11/05/2015 18:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

'Eu não sou educada, não sei nada'

divulgação/schoolingtheworld

A frase é de uma senhora, que mora numa região rural do sudeste da Ásia e é uma das entrevistadas do documentário "Escolarizando o mundo - o último fardo do homem branco", disponível com legendas em português no Youtube. Quem quiser saber mais sobre o projeto, é só acessar a página oficial desta produção. Confesso que senti um aperto no peito depois dos 65 minutos e, especialmente, depois deste depoimento. O roteiro fala sobre os efeitos da escolarização para a homogeneização das culturas e a perversidade de se impor o modelo ocidental de educação, quase sempre disfarçado sob um discurso de evolução e desenvolvimento.

Quando se coloca como alguém que não sabe nada, esta senhora se coloca fora dos limites impostos pelos currículos que se universalizam nas escolas do mundo todo. Toda a sabedoria presente em culturas diferentes, resultado de um conjunto de escolhas particulares e legítimas de grupos humanos, aos poucos vai perdendo seu valor e dando lugar a hábitos, signos, comportamentos e crenças globalizadas. Tudo isto vem diminuindo o repertório da humanidade, enfraquecendo algo que é tão valorizado na natureza: a diversidade. Escolarizando crianças diferentes de um jeito absolutamente igual, submetidas a um único currículo, estamos criando uma fábrica de pessoas de um modelo só.

A ideia evolucionista de olhar para todas as culturas e colocá-las numa régua padronizada que termina no suposto ápice da civilização que é a ocidental não é nova. O mito bem-intencionado da educação em prol do bem-estar e da melhoria do modo de vida das pessoas também não. O documentário só expõe as consequências de índices alarmantes que acompanhamos hoje: o abandono de mulheres, idosos e grupos mais frágeis em áreas rurais e um grande número de jovens aprisionados em subempregos nos grandes centros urbanos, atraídos por uma educação que deveria ampliar possibilidades.

O curioso é que existe uma liberdade para a criação de currículos escolares que não vem sendo usada. Vamos todos seguindo um mesmo conjunto de disciplinas, quase sempre fragmentadas, com pouca aplicação prática para os tempos que estamos vivendo. Vamos também perdendo conhecimentos e saberes como os da senhora abandonada por seus filhos e que são tão preciosos e vitais para todos nós. Não tenho dúvida de que o mundo ocidental trouxe grandes descobertas e fez muitas contribuições para a cultura humana. Mas a ideia de superioridade absoluta e do uso da educação como ferramenta de padronização parece que está contribuindo para um modelo obsoleto que está no seu limite.