OPINIÃO
09/09/2015 20:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Turismo no Chile: Pablo Neruda, vinhedos e Isla Negra

A casa parecia ainda estar habitada por Neruda, quase dava para ouvir a conversa dos amigos na sala. Tinha tudo a ver comigo. Como eu, Neruda era uma acumuladora.

Já trabalhei em jornal. Sei que o espaço é limitado. Por isso, quando enviei um texto grandoto sobre enoturismo no Chile para o caderno Turismo da Folha de S.Paulo, em julho passado, sabia que ele seria cortado. Não sabia o que iriam cortar, mas imaginava que iriam cortar.

Por sorte, entre outros trechos, cortaram o que falava de Casablanca e do Vale de San Antonio. Sorte não porque seus vinhedos não mereçam ser visitados. Muito pelo contrário. A região litorânea a poucos quilômetros de Santiago é linda e produz vinhos maravilhosos. Sorte porque, assim, posso usar o trecho cortado aqui no blog e falar daquilo de que mais tenho vontade de falar desde que soube que faria uma matéria sobre turismo no Chile: Isla Negra, a casa de sonhos do poeta Pablo Neruda.

Neruda era um bon vivant. Compôs uma Ode ao Vinho. Mas compôs odes para umas quinhetas mil coisas. Não é por isso que quero falar de Isla Negra. É porque se trata de uma paixão antiga, e mal resolvida.

No fim dos anos 90, fui a Santiago entrevistar o escritor António Skarmeta, autor do livro que inspirou o filme O Carteiro e o Poeta, para a falecida revista Bravo!. Na época, eu bebia vinho, mas não trabalhava com isso. Nem pensei em visitar vinícolas. Depois de longas conversas com Skarmeta sobre Neruda, com o pouco tempo que me restou, preferi visitar La Chascona, antiga casa do poeta em Santiago e atual sede da Fundação Pablo Neruda. Amei.

A casa parecia ainda estar habitada por Neruda, quase dava para ouvir a conversa dos amigos na sala. Tinha tudo a ver comigo. Como eu, Neruda era um acumulador. Fazia coleções de várias coisas. Havia máscaras e carancas por todo o lado, como na minha casa.

O guia nos contou que adorava receber amigos para comer, entre eles, nomes como Vinícius de Moraes ou Pablo Picasso. No entanto, eu sabia que aquela casa não era a mais legal. A casa de Isla Negra, que não é uma ilha e, sim, uma praia, era maior, guardava coleções mais preciosas e ficava na areia, em frente ao mar. Quis muito ir, mas não havia tempo.

Tive de me contentar com o belo livro sobre a casa que comprei e guardo até hoje com o maior carinho. Mais tarde comecei a escrever sobre vinhos e me formei sommelière, mas nunca consegui ir a isla Negra. Quem sabe, se um dia for ao Chile a passeio... Bom, fica a sugestão. E, se você for a Isla Negra, pare em Casablanca e San Antonio.

No caminho do litoral, esses dois vales são especialistas em vinhos brancos e tintos de clima frio, pois a brisa do Pacífico refresca os vinhedos. Se for visitar a casa de Pablo Neruda ou Valparaíso, vale passar por eles e ficar hospedado por lá. Principalmente, para quem tem 275 dólares (por pessoa, com meia pensão) para gastar na diária do charmoso hotel boutique da Matetic Vineyards, em San Antonio, a 105 quilômetros de Santiago. Eles têm grandes syrahs e brancos muito interessantes.

No mesmo vale, você encontra também a Viña Leyda, que tem pinots deliciosos.

Em Casablanca, treine seu nariz cheirando frutas e ervas da região cujos aromas vão aparecer nos vinhos degustados na Casas del Bosque. Essa é uma experiência que não dá para ser reproduzida no Brasil. Aprenda sobre vinhos orgânicos na Emiliana. E almoce no House, Casa del Vino, um misto de bodega e restaurante, onde os enólogos do grupo Belén (Morandé) podem fazer vinhos experimentais, todos muito interessantes. Por ali, estão também a própria Viña Morandé, as Bodegas RE (projeto pessoal de Pablo Morandé) e a ótima Viña Indómita.