OPINIÃO
23/12/2015 20:39 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

12 vinhos marcantes para presentear no Natal

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Vinho é sempre uma boa opção para presentes de última hora. Já escrevi isso. No entanto, quando alguém chega a uma festa com uma garrafa na mão, paira sempre uma dúvida. Trata-se de um presente ou de um vinho para ser aberto naquela noite? Quando o rótulo é especial, fica claro que é um presente. Vinhos fortificados são sempre especiais, ainda que não sejam sempre muito caros. São ótimos presentes de Natal. Vários deles, inclusive, duram meses depois de abertos, marcando presença o ano todo.

Na maioria das vezes, os fortificados são doces, de sobremesa. No entanto, nem sempre é assim. Vinho fortificado é aquele que teve adição de álcool. Em boa partes das vezes, essa fortificação é feita antes de a fermentação dos açúcares estar concluída. O álcool interrompe a fermentação, deixando sobrar um monte de açúcar residual. Daí a maior parte deles ser doce. Contudo, há fortificados secos, como é o caso de certos jerezes (veja post Jerez vira moda entre jovens europeus).

O mais famoso dessa categoria é o vinho do Porto (veja artigo que escrevi para a Folha de S.Paulo). Delicioso, mas longe de ser o único estilo. Há um mundo a se descobrir. A seguir, conheça os estilos e veja exemplos de fortificados deliciosos que bebi recentemente:

Porto, a cidade do Vinho

Por muitos anos, não suportei beber vinho do Porto, o vinho que meu avô tomava. Além de me parecer doce em demasia, para mim, tinha aroma de velho. Na verdade, o vinho de meu avô costumava ser velho mesmo. Era aberto e guardado na cristaleira por meses. Provavelmente, era um Ruby, que estraga depois de abrir. Os Portos se dividem basicamente em Ruby ou Tawny. O Ruby tem tom avermelhado e aroma frutado, sem traços de oxidação. Há o Ruby simples, o Reserva, o Late Bottled Vintage (LBV) e o Vintage. Nenhum dles resiste ao contato com o ar. Deve ser consumido assiv que a garrafa for aberta. O Tawny pode ficar aberto, porque ele é pré-oxidado. Tem tom acastanhado, com aroma de frutas secas. Pode ser simples, Reserva, Colheita ou ter Indicação de Idade (10, 20, 30 ou + 40 anos).

O Tawny pode ficar aberto, porque ele é pré-oxidado. Tem tom acastanhado, com aroma de frutas secas. Pode ser simples, Reserva, Colheita ou ter Indicação de Idade (10, 20, 30 ou + 40 anos).

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Os Tawnies são uma ótima escolha para presentear por durarem muito depois de abertos. O Graham's Six Grapes é feito com uvas dos mesmos vinhedos que dão origem aos vintages da casa. Só que, em vez de envelhecer na garrafa, envelhece no barril. Está por R$ 185 na mistral

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Considerado o melhor Tawny 10 anos pela revista Decanter, o Grahm's 10 years old Tawny é muito frutado e fresco. Ser um Tawny 10 anos significa que os vinhos do blend têm em média 10 anos. Ou seja, há vinhos muito velhos e vinhos jovens misturados aí. Sai por R$ 240 na mistral

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Um vintage é sempre um grande presente. Costuma ser o que há de melhor de uma casa. Dura décadas enquanto fechado. Se aberto, tem que ser consumido na hora. O Duorum Porto Vintage, importado pela Casa Flora, apesar de todo seu potencial de guarda, já está muito gostoso. Com aromas balsâmicos e de frutas escuras. Custa R$ 263 reais na Casa Flora.

Jerez: não é nome, é sobrenome

O jerez é moda na Europa, como contei em um post no início deste mês. Há bares inteiros dedicados a ele. Não é de admirar. Existem vários tipos de jerez. É uma família. Ser um jerez significa ser um vinho fortificado da região de Jerez de la Frontera, na Andaluzia, Espanha, feito segundo alguns padrões dessa denominação. O principal desses padrões é o uso da solera para amadurecimento do vinho.

A solera é uma pilha de barris na qual os vinhos mais velhos ficam embaixo e os mais novos em cima e, ao longo dos anos, os responsáveis pela adega vão misturando os conteúdos dos barris de modo a ter sempre vinhos muito velhos para usar nos blends. As principais uvas usadas para fazer jerez são a palomino e a pedro ximenez, mas há também jerez de moscatel.

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Fernando de Castilla Fino, um jerez jovem e bem seco, quase salgado. É delicioso como aperitivo. Adoro tomá-lo com presunto cru ou com peixes defumados. Custa R$ 81 na Casa Flora.

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As uvas mais comuns para se produzir jerez são a palomino e a pedro ximenez, mas a moscatel também é usada. Bastante doce, o Merito Moscatel é ótima companhia para sobremesas com boa quantidade de açúcar como um merengue, por exemplo. O preço é ótimo, R$ 65 na Casa do Porto.

Madeira: tão bom que chega a ser um perigo

Amo vinho de Madeira. Ele tem tanta acidez que você nem sente o açúcar. Diz a lenda que sua invenção aconteceu meio por um acaso na época do Brasil Colônia. As galeras portuguesas que atravessavam o Atlântico para trazer suprimentos de Portugal para o Brasil costumavam se abastecer na Ilha da Madeira. Lá, enchiam tonéis com um vinho local de qualidade duvidosa para consumo da tripulação. Para aguentar a travessia, esse vinho era fortificado. No caminho de ida e volta do Brasil, o vinho ia torrando nos porões do navio que cruzava o Equador duas vezes. O surpreendente é que no fim da viagem estava excelente, com aromas de laranja confitada, caramelo, frutas secas. Hoje as vinícolas da Madeira têm um sistema de estufagem para simular o calor da viagem. Estive lá em 2011 e fiquei imaginando que horror eram essas galeras. A estufa é insuportável, mais de 50 graus.

Com relevo bastante escarpado, a Ilha da Madeira tem vinhedos plantados em terraços, que na maioria das vezes só permitem colheita manual. Pré-oxidado, o Madeira dura eternamente. A garrafa depois de aberta pode, inclusive, ficar fora da geladeira

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Conta a lenda que, certa vez, um lote de vinho da Madeira tomou chuva e entrou água nos barris. Os portugueses decidiram enviar esse vinho "estragado" para os Estados Unidos, onde ninguém entendia de vinho mesmo. No fim, o estilo fez o maior sucesso entre os americanos. Virou uma linha. O Blandy1s Rainwater é muito gostoso de fato. Um pouco menos alcoólico, ganha em frescor e não perde em aromas. Custa R$ 130, na Mistral.

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Um Madeira simples, de tinta mole e tinta da Madeira, mas envelhecido por 10 anos, o que lhe dá bastante complexidade. Sai por R$ 149 na Casa Flora

Moscatel de Setubal: denominação pouco conhecida no Brasil que tem vinhos fantásticos

Por séculos Portugal dominou as grandes navegações e, consequentemente, o comércio de vinhos. Isso numa época em que não havia conservantes e nem garrafas seladas. Não é à toa que até hoje os portugueses são os reis dos fortificados. No passado, os vinhos viajavam em barricas, tonéis ou mesmo ânforas, completamente expostos ao oxigênio. A melhor forma de evitar que estragassem era fortificá-los. Outra era permitir que fossem oxidando devagar antes da viagem, para não desandarem com o contato com o ar. Menos famoso que o Porto e o Madeira, o Moscatel de Setubal também é espetacular. Como é pré-oxidado, ele pode ficar aberto meses fora da geladeira. Elaborado a uva moscatel de Alexandria, na Península de Setúbal, bem próxima à Lisboa, esse vinho tem um aroma floral delicioso e é azedinho na boca, apesar de todo o açúcar.

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Tomei o António Saramago Moscatel de Setubal com a família Saramago quando estive no Azeitão em 2011. Além de ser um dos maiores enólogos de Portugal, António é um grande amigo. Ausenda, sua senhora, uma cozinheira de mão cheia. A noite foi inesquecível. O vinho é ambar avermelhado, tem um floral no nariz impressionante. Sem falar nas frutas secas, na laranja confitada. Na boca, é bastante doce, mas a acidez compensa totalmente. Persistência incrível. Com 94 pontos do Robert Parker, é uma delícia de fato. A garrafa de 500 ml custa R$ 205,81 na Viníssimo

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José Maria da Fonseca tem uma variedade incrível de rótulos de Moscatel. O Domingos Soares Franco Coleção Priviada amadureceu em madeira velha por 6 anos. Frutado tem aromas de lichia, cítricos e frutas secas. A garrafa de 750 ml sai por R$ 276, na Decanter.

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Com 95 pontos do Robert Parker, o moscatel roxo Excellent de Horácio Simões tem a laranja confitada e algo de figo. Elegante, sua acidez compensa o açúcar. A garrafa de 500 ml fica em R$ 168 na Adega Alentejana.

Há fortes por todas as partes do mundo

Portugal e Espanha são grandes produtores de fortificados. Em Portugal, além do Porto, do Madeira e do Moscatel de Setúbal, há os abafados da bairrada, o Carcavelos também das redondezas de Lisboa. Na Espanha, os fortificados de Málaga têm bastante prestígio. Na Itália, os Marsalas, da Sicilia também são bastante famosos. Como os jerezes, têm diferentes graus de açúcar. E, como os Madeiras, são "cozidos" em estufas. O Vernaccia di Oristiano, outra denominação de origem italiana, na Sardenha, usa sitemas de soleras. Na França, também não faltam exemplos. Só na região do Languedoc-Roussilon há dois grandes fortificados, o Maury e o Banyuls, fruto de vinhas velhas em escarpas muito íngremes dos Perineus franceses.

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Pequena denominação da Sardenha, o Vernaccia de Oristiano passa por um sisteva de solera semelhante ao dos jerezes, tem longo estagio em madeira e sofre variações de temperatura semelhantes ao da Madeira. Na boca, lembra um amontillado, mas não tem o salgadinho do Jerez. Custa R$ 165 na Casa do Porto.

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O Maury se assemelha ao Porto Ruby. Escuro, denso, tem ameixa preta, cereja escura,uva passa no nariz. Além de pimenta do reino. Deve ficar ótimo com chocolate. Custa R$ 235, na Decanter.

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